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Roberto Pompeu de Toledo

Mais uma vez o
mundo se curva...

Uma pesquisa sobre ajuda ao
próximo em diferentes cidades
do mundo dá o título de campeão
ao Rio de Janeiro

O leitor está cansado de más notícias? Quer uma boa? Lá vai: somos gentis. Os brasileiros, ou, pelo menos, entre os brasileiros, aqueles que nasceram ou vivem na cidade do Rio de Janeiro, podem se vangloriar de ostentar, com chancela acadêmica, o título de campeões mundiais de gentileza. Um estudo de pesquisadores americanos sobre o comportamento das pessoas na rua, em face de alguém precisando de ajuda, em 23 cidades de 23 países diferentes, deu Rio de Janeiro na cabeça. O estudo, levado a cabo por Robert V. Levine e Karen Philbrick, ambos da Universidade Estadual da Califórnia, e Ara Norenzayan, da Universidade de Michigan, e cujo resultado já havia sido adiantado em nota da seção Internacional desta revista (edição de 23/5/2001), foi engenhoso e minucioso. As cidades escolhidas variaram de Nova York a Lilongüe (Malauí), de Madri a Bangcoc, da Cidade do México e Praga a Bucareste, Xangai e Tel-Aviv. Primeiro critério: deviam ser grandes – a maior ou uma das maiores do respectivo país. Segundo: deviam, em seu conjunto, formar um mosaico o mais representativo possível do mundo, em sua variedade cultural, econômica e social.

O que se testou, em experiências realizadas entre 1992 e 1997, foi o comportamento dos transeuntes diante de três situações: um cego que tenta atravessar a rua; alguém com um problema na perna, mancando fortemente, que deixa cair uma pilha de revistas e não consegue levantá-la; e alguém que inadvertidamente deixa cair uma caneta do bolso. Tais situações foram encenadas com alto grau de verossimilhança pelos voluntários encarregados do trabalho de campo. Para fazer o papel do cego, por exemplo, com bengala e óculos escuros, receberam treinamento de um centro especializado em ajuda aos deficientes visuais. Tinham de parar numa esquina e esperar que alguém os ajudasse. No teste da queda da caneta, o voluntário era instruído para caminhar a um passo moderado, em direção a um pedestre solitário que viesse em sentido contrário. Quando a uma distância de 4 ou 5 metros, e seguro de que o outro não poderia deixar de notá-lo, mexeria no bolso, deixaria cair a caneta e continuaria em frente.

Os cariocas passaram brilhantemente pelo triplo teste. Em 93% dos casos, tiveram reação positiva: ajudaram o cego a atravessar a rua, o homem com problema na perna a recolher as revistas, e alertaram o que tinha perdido a caneta do ocorrido. Em último lugar ficou Kuala Lumpur, capital da Malásia, com apenas 40% de reações positivas. Nova York fez jus à fama de abrigar gente impaciente e mal-educada, e ficou em penúltimo lugar, com 45%. Roma foi melhor, mas também não se mostrou grande coisa: 63% de reações positivas, e um medíocre 16º lugar entre as 23 cidades. A vice-campeã da gentileza, logo abaixo do Rio de Janeiro, foi San José da Costa Rica, com 91%, seguida de Lilongüe (86%) e Calcutá, na Índia (83%).

Se o leitor está sentindo um cheiro de Terceiro Mundo no ar, quer dizer, desconfia que gentileza é coisa de país pobre, não deixa de ter razão. Esta é uma das conclusões da pesquisa. Mas ela se enfraquece quando se tem em conta o pelotão que vem logo a seguir, depois das quatro primeiras colocadas: Viena, com 81% de reações positivas, Madri, com 79%, e Copenhague, com 78%. Todas capitais de países desenvolvidos. Inversamente, Kuala Lumpur, a última colocada, é puro Terceiro Mundo. Em todo caso, há uma maior concentração de cidades de países pobres nas primeiras posições, e uma maior concentração de ricos nas últimas, o que permite enunciar a lei seguinte, na verdade já suspeitada pelo senso comum: a gentileza caminha em proporção inversa à prosperidade. Quanto mais próspero o país, menos gentil a população, e vice-versa. Amsterdã, a principal cidade da rica Holanda, com toda a sua fama de liberal e tolerante, mereceu na pesquisa um lamentável 20º lugar, com 54% de reações positivas. Duas capitais desses novos ricos que são os Tigres Asiáticos, Taipé e Cingapura, ficaram igualmente em posições sofríveis – 18º e 21º lugares, respectivamente, com 59% e 48% de reações positivas.

Já se adivinha, da parte de quem lê estas linhas, um muxoxo de descrença. Que diabo de boa notícia é essa, se apenas veio confirmar que somos pobres e, como tais, gentis? Um mais desabusado acrescentaria: "Quero ver se a pesquisa fosse não com uma caneta, mas com uma nota de 100 dólares caindo do bolso..." Mas já não bastam a corrupção, o escândalo no Senado e a crise de energia? Querem incluir também esta no rol das notícias ruins? Tenhamos em conta que estavam representadas na mostra cidades de países bem mais pobres que, se houvesse para valer uma lei do quanto-mais-pobre-mais-gentil, ganhariam do Rio – e não ganharam. Festejemos. Brasileiro gosta de ser gentil e simpático. E prestativo, como talvez seja mais o caso, na pesquisa em questão. Que mal há nisso? Se além dos assaltos, da violência, da sujeira e da bagunça nas ruas ainda fosse carrancudo e mal-educado, seria pior.

   
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