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Abandonar
navio!
Uma aventura náutica espanhola com
citações
de sobra e ficção de menos
Rubens Figueiredo*
O
sucesso já foi comparado a uma cortesã, cujos favores podem
custar os olhos da cara aos escritores. Desde sua estréia literária,
no começo dos anos 90, o espanhol Arturo Pérez-Reverte se
entrega a esse flerte perigoso. Em seus cinco primeiros romances, todos
eles policiais com um toque de "sofisticação", ele fazia
mesuras ao lugar-comum, mas preservava uma certa invenção.
Em seu livro mais recente, A Carta Esférica (tradução
de Rosa Freire d'Aguiar; Companhia das Letras; 530 páginas; 34,50
reais), a cortesã finalmente vem cobrar seu preço. O título
refere-se a um mapa de navegação, feito no século
XVIII. É uma das chaves para localizar os destroços de um
navio naufragado em 1767, que, se supõe, transportava uma fortuna
suficiente para subornar os ministros e o rei da Espanha e evitar a expulsão
dos jesuítas do país. De um lado está um inescrupuloso
caçador de tesouros, assistido por um ex-torturador argentino.
Do outro lado, uma jovem pesquisadora loira, calculista, sedutora, potencialmente
traiçoeira e obcecada pela posse da riqueza submersa. O protagonista
é um oficial da Marinha mercante. Chama-se Coy e encara o mar de
um modo um tanto lírico. Com a mesma ingenuidade e romantismo,
deixa-se seduzir pela loira. Daí em diante, será o confronto
entre os dois grupos, no esforço para localizar o naufrágio.
Pérez-Reverte não está interessado em dar aos personagens
vida própria. Em compensação, não poupa trabalho
para abastecer seu livro com informações de enciclopédia.
Todas as situações são descritas com base em uma
pesquisa atenta, como se a literatura só se justificasse com algum
fim útil e instrutivo. Em especial, os termos náuticos percorrem
os parágrafos em cardumes vistosos. O rigor das informações
tenta valer como contrapeso para a pobreza da ficção. A
parte propriamente literária do romance se atém a modelos
bem conhecidos. As citações de autores de aventuras marítimas
são inúmeras vão dos antigos até Hergé,
o criador do personagem de quadrinhos Tintin. Quando tenta elevar o tom
e trazer para o livro o clássico grego Homero, Pérez-Reverte
escorrega. Após 400 páginas de paquera, Coy consegue vencer
a resistência da loira. Sob o chuveiro, os amantes se unem e "entre
azulejos brancos e o denso vapor de água, choveu nas margens de
Tróia". Pérez-Reverte realmente tomou nos braços
a cortesã.
*
Rubens Figueiredo é tradutor e romancista, autor de Barco
a Seco, entre outros livros
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