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Sexo,
drogas e jazz
Uma série excelente conta a
história do gênero
e revela
casos picantes de suas estrelas
Sérgio Martins
Para o ensaísta americano Gerald Early, os Estados Unidos deram
três grandes presentes para a humanidade: sua Constituição,
o beisebol e o jazz. O também americano Ken Burns não só
gosta de citar essa teoria como faz questão de prová-la
para o resto do mundo. Em 1994, assinou o documentário Beisebol,
um dos mais elogiados da televisão de seu país nos últimos
tempos. Depois, voltou-se para o principal estilo musical surgido nos
Estados Unidos no século XX. Jazz, que estréia
às 23h15 de segunda-feira no canal GNT, é uma produção
superlativa em diversos sentidos. Custou 13 milhões de dólares
e levou seis anos para ser finalizada. Reúne cerca de cinqüenta
depoimentos de músicos, escritores, acadêmicos e jornalistas.
Mas, acima de tudo, apresenta 498 canções célebres,
imagens raras de ícones como Benny Goodman, Duke Ellington e Louis
Armstrong, e uma infinidade de histórias picantes. Afinal de contas,
as estrelas do jazz se entregavam ao sexo com o mesmo vigor dos personagens
do romance Satiricon e consumiam drogas em quantidades pantagruélicas.
Sexo, drogas e rock'n'roll? Melhor repensar esse slogan.
Ken Burns tinha apenas um punhado de discos de jazz em sua coleção
quando iniciou as filmagens da série. Justamente por não
ser nenhuma autoridade no assunto, deixou de lado as teorias complicadas.
Apostou numa narrativa linear, no didatismo e nos bons "causos". A série
tem momentos divertidos e tocantes. É difícil não
se compadecer do saxofonista Charlie Parker, um dos pais do bebop. Viciado
em heroína, ele entregou boa parte dos direitos de suas obras para
o traficante que o abastecia. Certa feita, trocou a passagem que iria
levá-lo de Los Angeles para Nova York por uma dose extra. O trompetista
Miles Davis, por seu turno, arranjou uma atividade paralela para bancar
seu vício: nos anos 50, transformou-se em cafetão em Nova
York. A série ainda aborda sem pudores a bissexualidade da cantora
Billie Holiday e conta como ela chegou a surrar dois marinheiros que haviam
queimado seu casaco.
Dezenas de personagens surgem e desaparecem ao longo dos doze episódios.
Apenas Louis Armstrong e Duke Ellington têm presença cativa
em toda a série. Na visão de Burns, os dois foram os principais
nomes do jazz em todos os tempos. Ellington, por ter apresentado o estilo
à alta sociedade americana dos anos 20. Armstrong, por ter transformado
o jazz "primitivo" do começo do século numa música
sofisticada e por ter inventado um novo jeito de cantar. "Armstrong foi
para essa música o que Einstein foi para a física", diz
ele. A opinião do cineasta é corroborada por todos os convidados,
em especial pelo trompetista e consultor musical Wynton Marsalis. Ele
mostra de forma prática como Louis Armstrong ensinou jazz aos americanos.
Em determinado momento, compara a passagem de uma composição
de Louis com um concerto de Beethoven.
Jazz
peca somente pelo excesso de reverência com que trata alguns artistas
em detrimento de outros. Enquanto Louis Armstrong e Duke Ellington são
beatificados, virtuoses como o pianista Bill Evans e o guitarrista Django
Reindhart (um dos ídolos do jazzófilo Woody Allen, por exemplo)
passam despercebidos. Burns também ignora as mudanças do
gênero depois dos anos 70. A fusão do jazz com o rock, conhecida
como fusion, é totalmente desprezada. "Nessa enorme casa que é
o jazz, o fusion ocupa um dos menores quartos", afirma Burns. Esses defeitos,
no entanto, não ofuscam o documentário. Jazz enche
os olhos e o coração. Nos Estados Unidos, a estréia
na televisão foi sucedida pelo lançamento de 21 discos.
No Brasil, todos esses álbuns serão entregues às
lojas num trabalho conjunto das gravadoras Sony e Universal. A seleção
alterna nomes batidos com os de astros que possuem uma discografia tímida
por aqui casos do saxofonista Lester Young e do arranjador Fletcher
Henderson. "Essa música mexe com nossa estrutura molecular. Ficamos
mais felizes depois que ouvimos jazz", conclui Burns.
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Música
e barulho
Miles
Davis: para sustentar
o vício, ele
virou cafetão
Billie
Holiday: diva bissexual
que surrava
marinheiros
O
pianista Duke
Ellington:
ele
levou o
jazz para
a alta sociedade dos
Estados Unidos na década de 20
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