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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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A vida no limite

Os conselhos médicos para quem
quer levar ao extremo a malhação.
Ah, claro, há riscos para a saúde

Fernanda Colavitti

 
Fernando Vivas
Academia de ginástica: esforço físico exagerado pode ter efeito negativo para a saúde

A prática regular de atividades físicas sempre traz benefícios à saúde. Certo? Nem sempre. Com o crescente poder de atração do esporte e das academias de ginástica, há muita gente cruzando até mesmo os limites do bom senso. "A obsessão por exercícios pode ser pior que o sedentarismo", alerta o médico Nabil Ghorayeb, da Sociedade Brasileira de Cardiologia. O estudante paulista Gustavo Araújo, de 18 anos, por exemplo, ficou três dias internado após um ano inteiro treinando em média três horas diárias. Seu objetivo era participar de um campeonato de natação em 2000. Ele só pensava em piscina e, às vésperas da competição, apareceu com dor de garganta, sinusite e febre. Ao fazer exames, Gustavo constatou que tinha anemia e princípio de pneumonia, diagnosticados como resultantes da baixa de resistência do organismo. A arquiteta Marta Klein, de 43 anos, também de São Paulo, foi fundo no spinning, o ciclismo em ambientes fechados em que bicicletas ergométricas simulam as condições dos percursos ao ar livre. Chegou a pedalar até quatro em cinco dias úteis na semana. Além de dores musculares, começou a ter problemas gástricos, sentia enjôo e ânsia de vômito. Após uma avaliação médica, a arquiteta teve de moderar.


Claudio Rossi
Gustavo: três dias num hospital por excesso de treino


A definição de excesso de exercícios – também conhecido como overtraining pela turma da malhação – leva em conta a freqüência, a quantidade e a intensidade com que a atividade é praticada, de acordo com a reumatologista Fernanda Lima, chefe do novo ambulatório de medicina esportiva do Hospital das Clínicas, com trabalho pioneiro no país em tratamento dos distúrbios clínicos associados à prática esportiva. O limite da capacidade física de uma pessoa varia conforme as características genéticas, mas estão sob maior risco aqueles que ultrapassam as duas horas diárias de treino, particularmente fazendo exercícios de alta intensidade, que exigem muito do coração. Nesse grupo se incluem os esportistas que pegam pesado no treinamento de modalidades como corrida, ciclismo, esteira em alta velocidade, spinning, natação e musculação. Agora, com base na experiência clínica, esse tipo de problema de saúde começa a ser verificado entre os atletas recreativos, uma categoria de dedicação logo abaixo da dos amadores e profissionais.



O médico Turíbio Leite de Barros, especialista em fisiologia do esporte e professor da Universidade Federal de São Paulo, tem uma explicação para vários desses distúrbios. Além de trabalhar no nível físico, o stress causado pelos exercícios também age no hipotálamo, área do sistema nervoso central responsável pela produção de hormônios que controlam as características clínicas do organismo, como as sensações de fome, sono, humor e as funções gastrintestinais. O exercício praticado de maneira inadequada provoca alterações nos hormônios que desregulam outras funções a eles relacionadas. Na semana passada, Turíbio consolidou os resultados de um estudo que acabou de fazer, com 1.700 pessoas, em três categorias: atletas, indivíduos que praticam exercícios com moderação e sedentários. Ele utilizou como parâmetro o consumo máximo de oxigênio (um dos indicadores do envelhecimento, pois decresce conforme a idade). A constatação foi que houve velocidade de envelhecimento idêntica entre sedentários e atletas. Nos indivíduos que praticam exercícios regulares de maneira moderada, aconteceu uma desaceleração desse processo, isto é, a marcha de envelhecimento é menor. Para quem pretende manter-se em sintonia com a saúde, haverá sempre um limite, de acordo com a médica Fernanda Lima. "A partir de certo nível de intensidade, não adianta forçar o organismo, pois o exercício já deu o que tinha de dar", ela recomenda.

 
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  Ouça entrevista com a chefe do novo ambulatório de medicina esportiva do Hospital das Clínicas, Fernanda Lima

 

 
 
   
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