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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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Chega de saudade

Começou a discurseira para tentar
provar que a grande vilã do apagão
foi a privatização. Não foi

Kristhian Kaminski

Antonio Milena
Usina de Porto Primavera, em São Paulo: o cronograma atrasou uma década e o governo gastou mais no pagamento de juros do que nas obras

Quando a telefonia foi privatizada, a oferta de aparelhos fixos e celulares cresceu tanto que ninguém ficou com saudade da Telebrás. Pudera. O número de telefones saltou de 10 milhões para 50 milhões em cinco anos e o preço da linha despencou. Hoje, um telefone é instalado em até cinco dias. Quando o governo anunciou o racionamento de luz, duas semanas atrás, diversas vozes passaram a defender que, diferentemente do que aconteceu com o telefone, a privatização das empresas de energia elétrica não trouxe nenhum benefício à sociedade. Trouxe apenas a ameaça do apagão. Não há dúvida de que o processo de desestatização da telefonia foi mais bem-sucedido que o realizado no campo da energia. Mas o grande defeito não está ligado ao processo em si, e sim ao fato de ter sido interrompido pela metade. O governo vendeu a maioria das distribuidoras de energia, aquelas empresas que ligam a luz de sua casa, e manteve 80% da geração sob seu controle. E foi exatamente aí, na geração, que se deu a crise. Em outras palavras, a responsabilidade da crise é estatal. Basta comparar. Furnas, de propriedade do governo, tem 1 bilhão de reais em caixa e não usa porque a equipe econômica não deixa. Já a Gerasul, uma das poucas geradoras de energia vendidas pelo governo, aumentou mais de 50% sua produção desde que foi privatizada.


É preciso que as pessoas não se deixem consumir pelo discurso fácil. Um fato incontestável é que o Brasil grande construiu um parque gerador invejável. Por muito anos, ter energia barata e abundante foi um diferencial competitivo importante das empresas brasileiras. Tucuruí e Itaipu estão entre as maiores obras de engenharia do mundo. E foram erguidas sob o comando do Estado. Sozinhas, elas fornecem energia suficiente para atender 22% do consumo nacional. O que os defensores do sistema estatal não costumam lembrar nessa hora de louvação é que se pagou um preço muito alto, altíssimo por isso. Para se ter uma idéia, estima-se que 40% da dívida externa brasileira tenha sido contraída nessa época das grandes obras. Registre-se que, para saldá-la, o país está gastando rios de dinheiro em juros (sim, o dinheiro que poderia ir para a saúde, para a educação...). E repare que curioso: as mesmas pessoas que costumam defender o sistema estatal são as que criticam o governo pelo pagamento de juros.

Nani Gois
Inauguração de Itaipu, com o presidente Figueiredo e Stroessner, do Paraguai

Um outro aspecto que precisa ser ressaltado é que o Estado não preza a austeridade. As estatais sempre foram os ninhos do empreguismo e da corrupção. No começo da década de 90, as empresas do setor de energia empregavam 150.000 pessoas. Hoje, sabe-se que bastariam 100.000 para fazer o serviço. Como resultado da soma de absurdos como esse, as gigantes estatais começaram a gerar mais prejuízo que energia, criando um modelo que ruiu sob o peso da própria ineficiência e do endividamento. Quando começou a privatização do setor, havia 23 grandes obras paralisadas por falta de recursos. O governo precisou injetar 26 bilhões de dólares em recursos do Tesouro Nacional para sanear o caixa das empresas estatais (sim, mais uma vez, o dinheiro que poderia ter ido para a saúde, para a educação...).

A caixa-preta das estatais só começou a ser revelada quando as empresas passaram ao controle privado, que precisa prestar contas ao consumidor e aos acionistas. Descobriu-se que para erguer a usina de Porto Primavera, em São Paulo, gastou-se mais dinheiro em juros do que nas obras de engenharia. Aconteceu algo não menos absurdo em Tucuruí. A hidrelétrica deveria ter custado 6 bilhões de reais e já está orçada em 11,5 bilhões. O contrato assinado entre a Camargo Corrêa e o governo já foi alterado 29 vezes, mas tudo isso foi feito com apenas uma licitação. Quando foi vendida, a Eletropaulo tinha 170 empregados só no departamento de comunicação e até uma viatura para gravar cenas externas, igual às das redes de televisão. Os deputados loteavam as estatais e disputavam cotas para indicar os apaniguados. Fala-se de políticos que tinham mais de 200 afilhados nas estatais. Mais de 50.000 pessoas já foram despedidas desde que a privatização começou. Muitas nunca trabalharam. São as únicas com motivos para ter saudade desse tempo.


Com reportagem de
Adriano Ceolin


 
 
   
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