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Chega de saudade
Começou
a discurseira para tentar
provar
que a grande vilã do apagão
foi
a privatização. Não foi

Kristhian
Kaminski
Antonio Milena
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| Usina
de Porto Primavera, em São Paulo: o cronograma atrasou uma década
e o governo gastou mais no pagamento de juros do que nas obras |
Quando
a telefonia foi privatizada, a oferta de aparelhos fixos e celulares cresceu
tanto que ninguém ficou com saudade da Telebrás. Pudera.
O número de telefones saltou de 10 milhões para 50 milhões
em cinco anos e o preço da linha despencou. Hoje, um telefone é
instalado em até cinco dias. Quando o governo anunciou o racionamento
de luz, duas semanas atrás, diversas vozes passaram a defender
que, diferentemente do que aconteceu com o telefone, a privatização
das empresas de energia elétrica não trouxe nenhum benefício
à sociedade. Trouxe apenas a ameaça do apagão. Não
há dúvida de que o processo de desestatização
da telefonia foi mais bem-sucedido que o realizado no campo da energia.
Mas o grande defeito não está ligado ao processo em si,
e sim ao fato de ter sido interrompido pela metade. O governo vendeu a
maioria das distribuidoras de energia, aquelas empresas que ligam a luz
de sua casa, e manteve 80% da geração sob seu controle.
E foi exatamente aí, na geração, que se deu a crise.
Em outras palavras, a responsabilidade da crise é estatal. Basta
comparar. Furnas, de propriedade do governo, tem 1 bilhão de reais
em caixa e não usa porque a equipe econômica não deixa.
Já a Gerasul, uma das poucas geradoras de energia vendidas pelo
governo, aumentou mais de 50% sua produção desde que foi
privatizada.
É
preciso que as pessoas não se deixem consumir pelo discurso fácil.
Um fato incontestável é que o Brasil grande construiu um
parque gerador invejável. Por muito anos, ter energia barata e
abundante foi um diferencial competitivo importante das empresas brasileiras.
Tucuruí e Itaipu estão entre as maiores obras de engenharia
do mundo. E foram erguidas sob o comando do Estado. Sozinhas, elas fornecem
energia suficiente para atender 22% do consumo nacional. O que os defensores
do sistema estatal não costumam lembrar nessa hora de louvação
é que se pagou um preço muito alto, altíssimo por
isso. Para se ter uma idéia, estima-se que 40% da dívida
externa brasileira tenha sido contraída nessa época das
grandes obras. Registre-se que, para saldá-la, o país está
gastando rios de dinheiro em juros (sim, o dinheiro que poderia ir para
a saúde, para a educação...). E repare que curioso:
as mesmas pessoas que costumam defender o sistema estatal são as
que criticam o governo pelo pagamento de juros.
Nani Gois
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| Inauguração
de Itaipu, com o presidente Figueiredo e Stroessner, do Paraguai |
Um
outro aspecto que precisa ser ressaltado é que o Estado não
preza a austeridade. As estatais sempre foram os ninhos do empreguismo
e da corrupção. No começo da década de 90,
as empresas do setor de energia empregavam 150.000 pessoas. Hoje, sabe-se
que bastariam 100.000 para fazer o serviço. Como resultado da soma
de absurdos como esse, as gigantes estatais começaram a gerar mais
prejuízo que energia, criando um modelo que ruiu sob o peso da
própria ineficiência e do endividamento. Quando começou
a privatização do setor, havia 23 grandes obras paralisadas
por falta de recursos. O governo precisou injetar 26 bilhões de
dólares em recursos do Tesouro Nacional para sanear o caixa das
empresas estatais (sim, mais uma vez, o dinheiro que poderia ter ido para
a saúde, para a educação...).
A caixa-preta das estatais só começou a ser revelada quando
as empresas passaram ao controle privado, que precisa prestar contas ao
consumidor e aos acionistas. Descobriu-se que para erguer a usina de Porto
Primavera, em São Paulo, gastou-se mais dinheiro em juros do que
nas obras de engenharia. Aconteceu algo não menos absurdo em Tucuruí.
A hidrelétrica deveria ter custado 6 bilhões de reais e
já está orçada em 11,5 bilhões. O contrato
assinado entre a Camargo Corrêa e o governo já foi alterado
29 vezes, mas tudo isso foi feito com apenas uma licitação.
Quando foi vendida, a Eletropaulo tinha 170 empregados só no departamento
de comunicação e até uma viatura para gravar cenas
externas, igual às das redes de televisão. Os deputados
loteavam as estatais e disputavam cotas para indicar os apaniguados. Fala-se
de políticos que tinham mais de 200 afilhados nas estatais. Mais
de 50.000 pessoas já foram despedidas desde que a privatização
começou. Muitas nunca trabalharam. São as únicas
com motivos para ter saudade desse tempo.
Com reportagem de Adriano Ceolin
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