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A Justiça não produz energiaSó
indignação não adianta: se as
Consuelo Dieguez
O plano do governo dependerá de acompanhamento diário dos resultados e de muita colaboração de São Pedro. Como alguns técnicos estão dizendo, será preciso manter um olho no relógio de luz e outro no céu. O primeiro mês é definitivo. Caso a meta de 20% de economia não seja alcançada logo de cara, o programa todo pode ir por água abaixo. Se o governo alcançar apenas 15% no primeiro mês, precisará economizar 25% no mês seguinte para evitar os apagões. E como conseguir 25% num mês se não alcançou 20% no mês anterior? Essa batalha precisará ser mantida até que volte a chover, em novembro. É nesse momento que São Pedro precisará entrar em ação. A previsão dos técnicos é que, lá adiante, os reservatórios estejam no seu limite mínimo. Se a temporada de chuvas atrasar, ou se chover menos que a média dos últimos anos, o sistema poderá entrar em colapso e as pessoas serão obrigadas a manter o corte no consumo. É um risco enorme e o governo sabe muito bem. Não custa lembrar que toda essa crise começou porque os técnicos apostavam todas as suas fichas na colaboração dos céus durante a última estação chuvosa.
O Banco Central já detectou o risco. Tanto que na reunião do Conselho de Política Monetária, na quarta-feira passada, elevou os juros pela terceira vez neste ano. Com isso, o BC indica sua intenção de impedir, a qualquer custo, que a inflação fuja do controle. O desarranjo provocado pela crise de energia bateu em um dos pontos mais sensíveis do Real: as contas externas. Os investimentos estrangeiros no país vão ficar bem abaixo dos 25 bilhões de dólares previstos no final do ano passado. Estados Unidos e Europa, que respondem por 75% dos investimentos diretos no Brasil, já haviam reduzido os recursos destinados ao país para 18 bilhões de dólares.
Agora, além da falta de caixa, os investidores esbarram na falta de luz. Com a proibição do governo de ligar a energia de novas empresas, é de se imaginar que muitos negócios sejam adiados. "O risco é de que essa falta de dólares pressione ainda mais a taxa de câmbio", diz o economista Antônio Carlos Porto Gonçalves, da Fundação Getúlio Vargas. "E câmbio alto significa mais inflação." Juros em elevação, preços em alta, investidores estrangeiros desconfiados. Não é a primeira vez que o país se defronta com esse panorama sombrio. Sem a crise de energia, os dois últimos anos do governo Fernando Henrique pareciam promissores. À meia-luz, porém, fica mais difícil enxergar a saída. Existe pelo menos um aspecto positivo dessa história que merece ser citado. A ameaça do apagão produziu um inegável efeito didático. Parte da energia que as pessoas estão economizando agora era puro desperdício e, provavelmente, continuará a ser poupada para sempre porque as pessoas descobriram seu valor. De seu lado, o governo está sendo obrigado a enfrentar discussões de fundo que antes pareciam muito, muito distantes. Um exemplo é o caso das indústrias de alumínio. Mais de 70% do que é usado para fazer alumínio é pura energia, um produto que, apesar de escasso, ainda é muito barato no Brasil. Mais barato ainda para as empresas que possuem subsídios e pagam até um terço do preço pago pelos consumidores residenciais. Grande parte dos lingotes produzidos aqui é exportada. Lá fora, eles são transformados em componentes automotivos e equipamentos que o Brasil precisa comprar por um preço muito alto. É a velha história do país que vende matéria-prima barata e paga caro pelo produto acabado. Será que o modelo econômico brasileiro não precisa de um choque? Nos últimos anos, grandes riquezas, como a da indústria de softwares, foram construídas com baixo consumo de energia elétrica. No governo, a crise energética produziu uma pequena reviravolta no jogo do poder, promovendo dois parentes, um com letra maiúscula, outro com letra minúscula. Um deles é Pedro Parente, ministro do Gabinete Civil, guindado ao cargo por causa do prestígio que tem com o presidente. Cabe a ele fazer o racionamento funcionar. Outro parente é David Zylbersztajn, presidente da Agência Nacional do Petróleo e genro do presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi ele o responsável por converter o apagão generalizado de cinco horas em corte de 20% na conta de luz. Sua entrada no processo transformou o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica, José Mário Abdo, num zumbi inexpressivo. Na semana passada, o PSDB já tinha em mãos uma prévia indicando que o apagão atingiu a popularidade do presidente. Diminuiu 8 pontos a taxa de aprovação ao seu governo e a de rejeição aumentou 7 pontos. Na próxima semana, uma nova safra de pesquisa deve consolidar essa tendência.
Com reportagem de Adriano Ceolin
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