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Apareceu mais um

Surfista diz ser filho de Moreira Salles
e pede a
herança na Justiça

Flávia Varella e Silvia Rogar

 
Pablo Grosby
Pablo Grosby
José Roberto: processo para reconhecer que o pai é o tio Uni Walter, o presumido irmão: foto nos autos ressalta semelhança

O banqueiro e embaixador Walther Moreira Salles era elegante, culto, perspicaz nos negócios e, sobretudo, homem de discrição exemplar e rara para uma personalidade pública. Esse foi o tom elogioso de todos os textos e comentários feitos após a morte do dono do Unibanco, o quarto maior banco privado do país, em fevereiro deste ano. Maria da Aparecida Gomes Pacheco, uma senhora da alta sociedade carioca, é descrita de maneira muito similar por seus amigos e conhecidos. Maria é elegante, esguia, inteligente e, claro, muito discreta. A conjunção de personalidades tão reservadas pode ter resultado num romance secreto e um filho idem – além de um caso de família e dinheiro que veio à luz com grande estrondo. Na quarta-feira da semana passada, José Roberto Gomes Pacheco, 33 anos, entrou com processo na Justiça alegando ser fruto de um romance de mais de uma década entre sua mãe, Maria da Aparecida, e Moreira Salles. Ele quer um quinto da herança estimada em cerca de 2,5 bilhões de reais, hoje desfrutada pelos quatro filhos oficiais, entre eles o badalado Walter Salles Júnior, diretor do filme Central do Brasil. No dia seguinte, a informação foi publicada pela colunista Hildegard Angel, na primeira página do jornal O Globo. Virou fofoca nacional, com repercussão muito maior, pelo tamanho da fortuna envolvida, que outro caso recente de paternidade tardiamente reivindicada no seio da família Catão.

José Roberto esperou que o marido de sua mãe, José Ildefonso de Medeiros Pacheco, morresse para abrir o processo. Não queria magoá-lo. Ildefonso morreu no mês passado crente que era pai de dois filhos, José Roberto e Paula. O próprio rapaz só ficou sabendo há cerca de seis meses que não era filho de quem chamou de pai a vida toda – e sim do amigo distante da mãe, curiosamente apelidado de tio Uni. Maria da Aparecida contou a verdade sobre o pai milionário atormentada pelo peso do segredo. "Havia nela uma grande dor de consciência e o filho começou a fazer perguntas, a desconfiar. Ele é fisicamente muito diferente do Ildefonso", afirma Maria Cora Borio, amiga de Maria da Aparecida e sua confidente desde que flagrou a colega e o banqueiro numa rua de Nova York há pouco mais de vinte anos. "À noite, ela me telefonou. No dia seguinte, almoçamos e eu soube que o então menino José Roberto era filho do embaixador", conta.

Além de muito rico, Moreira Salles foi embaixador do Brasil em Washington duas vezes e ministro da Fazenda. Era poderoso. Freqüentaram sua casa no bairro carioca da Gávea – de 2.200 metros quadrados, maçanetas moldadas pelo formato de suas mãos e jardim projetado por Burle Marx – figuras ilustres como o industrial Henry Ford, o banqueiro David Rockefeller, o armador grego Aristóteles Onassis e o cantor Mick Jagger. "Ele era namorador, mas muito discreto", diz o jornalista Luís Nassif, que o entrevistou durante mais de dez anos para uma biografia ainda não publicada. Nassif ficou sabendo por terceiros do namoro do banqueiro com Alzirinha, filha do presidente Getúlio Vargas, e do flerte com Greta Garbo. "Sobre romances, ele só dizia lamentar o fato de os dois primeiros casamentos terem terminado por causa de suas aventuras extraconjugais", afirma. Em 1999, uma senhora de Minas Gerais declarou-se filha do banqueiro, fruto de romance da juventude. Um teste de DNA, no entanto, deu resultado negativo.


Luiz C. Ribeiro
Moreira Salles: romance em Nova York é exposto no processo de paternidade


Quando começou a namorar Moreira Salles, então casado com a elegantíssima Elisinha, Maria da Aparecida trabalhava no Instituto Brasileiro do Café em Nova York. Desiludida, ela acabou o relacionamento e, em 1963, casou-se com José Ildefonso, também funcionário do IBC, que eventualmente chegou a dirigir. Mas, conforme descrito no processo judicial: "Já casada, voltou a se encontrar com o embaixador, a cujos encantos sucumbiu". Maria da Aparecida contou aos advogados do filho que o menino foi concebido no final de 1966 numa suíte do hotel Waldorf Towers. Ildefonso o registrou. Ele sabia do romance anterior da mulher, mas aparentemente não desconfiou de nada. Teria ciúme? A amiga Maria Cora conta que, quando o banqueiro aparecia na TV, Ildefonso olhava para a mulher para ver sua reação. "Eles tinham uma relação sem grandes emoções, mas respeitosa", diz Cora.

Os advogados de José Roberto anexaram ao processo alguns indícios da paternidade. O mais engenhoso são duas fotos postas lado a lado, uma do filho legítimo Waltinho e outra do filho alegado, na mesma pose, com camisa igual e o meio sorriso copiado. "Parecem gêmeos", afirma a peça jurídica. Há também bilhetes de duas amigas da mãe com referências ao caso e mais dois cheques assinados pelo banqueiro – o generoso tio Uni – nominais a José Roberto em datas próximas a seu aniversário. Atualizados, os cheques valeriam 13.000 e 1.350 reais. Como prova final, porém, os advogados pedem um exame de DNA aos quatro filhos oficiais: Fernando, o sócio da editora Companhia das Letras; Pedro, o presidente do banco; o cineasta Waltinho e o documentarista João. Os irmãos devem topar. Se der positivo, a diversidade familiar será enriquecida por um irmão surfista, promotor de campeonatos esportivos na praia, morador de uma cobertura dúplex na Barra da Tijuca, que detesta sapato social, vive de bermuda e, se a Justiça assim decidir, igualmente milionário num futuro próximo.

   
 
   
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