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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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Sem lenço e
sem documento

Reverenciado pela vanguarda
dos anos 60, Agrippino de Paula
parece um artista maldito.
Mas sua realidade é mais triste

Carlos Graieb

Ed Viggiani
Agrippino: esquizofrênico, ele passa os dias confinado num quarto

Nos anos 60, o paulistano José Agrippino de Paula encenou peças, dirigiu filmes, deu forma a espetáculos musicais e publicou dois romances: Lugar Público (1965) e PanAmérica (1967). O primeiro foi saudado pelo jornalista Carlos Heitor Cony como "o que de mais moderno existia em ficção". O segundo é um clássico underground. Narrado em frases despojadas, sem nenhuma concessão ao beletrismo, o livro é protagonizado por ícones da cultura de massa como Marilyn Monroe e Che Guevara, que participam de uma fantástica filmagem de episódios da Bíblia. PanAmérica acaba de ser relançado pela editora Papagaio (258 páginas; 25 reais), com um prefácio assinado pelo cantor e compositor Caetano Veloso. "Não há nada que seja tão radical quanto esse livro", afirma Caetano. A opinião é partilhada pelo escritor Sérgio Sant'Anna, para quem PanAmérica é uma obra "espetacular em todos os sentidos". Fora da literatura, Agrippino também deixou marcas. O filme Hitler Terceiro Mundo (1968), a peça Rito do Amor Selvagem (1969) e o show Planeta dos Mutantes (1969) são considerados pérolas de vanguarda no cinema, no teatro e no show biz brasileiros. Nada disso fez com que seu nome ficasse gravado na memória do público. Aos 64 anos, ele é mais um anônimo habitante da cidade de Embu, nas cercanias de São Paulo. Agrippino parece ser um daqueles casos de artista maldito que, de tanto apostar no estranho, ficou à margem. Mas sua história, infelizmente, é mais triste.


Cena de Rito do Amor Selvagem: peça de 1969 é tida como um marco do teatro de vanguarda

Em 1981, Agrippino sofreu um colapso. Achava que estava sendo perseguido e que queriam matá-lo. Foi internado num hospital psiquiátrico. Diagnóstico: esquizofrenia. A Justiça o declarou incapaz e sua tutela foi entregue ao irmão mais novo, Guilherme. Embora nunca mais tenha tido surtos violentos, Agrippino apresenta aquilo que os especialistas chamam de "sintomas negativos" da esquizofrenia – retraimento social e incapacidade para ordenar o cotidiano. Ele vive numa casa modesta, quase desprovida de mobília, cujas portas e janelas mantém fechadas. Veste-se com roupas puídas e freqüentemente passa o dia embrulhado em lençóis. Não tem telefone, televisão nem rádio. Seu interesse pelo presente é nulo – tanto assim que ele mal registrou a morte de sua filha, Manhã, então uma jovem de 18 anos, num acidente de carro em 1993. Agrippino se apega a eventos do passado, sobretudo das décadas em que foi ativo como artista. Fala de pessoas que já morreram, como o físico Mário Schenberg, como se ainda estivessem vivas. A idéia de reencontrar amigos o perturba. "Não estou muito bem para sair de casa", desconversa.


Jô Soares interpreta um samurai no filme Hitler Terceiro Mundo, de 1968: cinema atrevido

Relacionar loucura e arte há muito já virou clichê. Clichê que tanto se aplica a doentes verdadeiros, como o pintor holandês Van Gogh, quanto a talentos que apenas fogem do convencional. Agrippino se enquadra no primeiro caso – algo que precisará ser levado em conta por seus futuros intérpretes, sobretudo agora que a editora Papagaio se prepara para relançar todos os seus textos. "Os distúrbios neuroquímicos responsáveis pela esquizofrenia quase sempre têm raiz genética. A praxe é que se manifestem no fim da adolescência e no começo da idade adulta", explica o psiquiatra Itiro Shirakawa, professor da Escola Paulista de Medicina. Dadas essas características da doença, é muito provável que Agrippino já exibisse traços dela quando lançou suas primeiras obras. Seu jeitão calado, porém, nunca causou estranheza entre seus companheiros de estripulias estéticas. "Naquela época todo mundo dava um jeito de parecer maluco", brinca o pintor José Roberto Aguilar, em cujo ateliê Agrippino conheceu a bailarina e coreógrafa Maria Esther Stockler, sua futura mulher, parceira de experimentos artísticos e mecenas. Filha dos donos da caderneta de poupança Haspa, ela financiou viagens e projetos do marido até a separação, em 1978. O humorista Jô Soares, que encarnou um estranhíssimo samurai em Hitler Terceiro Mundo, lembra da inteligência aguçada de Agrippino. "Ele era um ouvinte fantástico. Esperava o momento certo para fazer um comentário contundente", diz Jô. É uma descrição que coincide com a de Caetano Veloso em seu livro de memórias, Verdade Tropical: "Agrippino jamais explicava suas opiniões: ele impunha sua presença pétrea e deixava suas conclusões caírem como tijolos no meio de uma roda de conversa".


O cantor Caetano Veloso, em 1966: em suas memórias, ele diz que Agrippino foi uma enorme influência

Agrippino pode ser esquizofrênico, mas seu pensamento é cristalino quando o assunto é arte. Ele ainda é capaz de falar longamente sobre livros. São muito pertinentes, por exemplo, as relações que tece entre PanAmérica e a pop art americana. "Ao citar Marilyn Monroe, eu queria fazer como Andy Warhol: criticar os mitos cotidianos criados pela indústria cultural", comenta. No quesito cinema, seu discurso não é diferente do de um diretor em atividade. "Criar no Brasil sempre foi um ato de atrevimento, por causa das condições precárias", diz ele. "Como é que você podia fazer cinema nos anos 60 sem se intimidar com aquele aparato todo de que Hollywood já dispunha? Só sendo um pouco displicente, um pouco impulsivo como eu fui." Assim como o poeta alemão Friedrich Hölderlin – "o maior dos esquizofrênicos", segundo o crítico russo Roman Jakobson –, Agrippino continua a escrever mesmo sob o signo da doença. No quartinho onde vegeta, há vários cadernos repletos de anotações. Seriam o germe de um romance, com o título provisório de Os Favorecidos de Madame Estereofônica. "É um livro realista", antecipa. Mas a realidade de Agrippino sempre foi especial.

 
O grupo Os Mutantes: show roteirizado pelo artista, em 1969


   
 
   
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