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Sem
lenço e
sem documento
Reverenciado
pela vanguarda
dos anos 60, Agrippino de Paula
parece um artista maldito.
Mas sua realidade é mais triste
Carlos Graieb
Ed Viggiani
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| Agrippino:
esquizofrênico, ele passa os dias confinado num quarto |
Nos
anos 60, o paulistano José Agrippino de Paula encenou peças,
dirigiu filmes, deu forma a espetáculos musicais e publicou dois
romances: Lugar Público (1965) e PanAmérica
(1967). O primeiro foi saudado pelo jornalista Carlos Heitor Cony como
"o que de mais moderno existia em ficção". O segundo é
um clássico underground. Narrado em frases despojadas, sem nenhuma
concessão ao beletrismo, o livro é protagonizado por ícones
da cultura de massa como Marilyn Monroe e Che Guevara, que participam
de uma fantástica filmagem de episódios da Bíblia.
PanAmérica acaba de ser relançado pela editora Papagaio
(258 páginas; 25 reais), com um prefácio assinado pelo cantor
e compositor Caetano Veloso. "Não há nada que seja tão
radical quanto esse livro", afirma Caetano. A opinião é
partilhada pelo escritor Sérgio Sant'Anna, para quem PanAmérica
é uma obra "espetacular em todos os sentidos". Fora da literatura,
Agrippino também deixou marcas. O filme Hitler Terceiro Mundo
(1968), a peça Rito do Amor Selvagem (1969) e o show
Planeta dos Mutantes (1969) são considerados pérolas
de vanguarda no cinema, no teatro e no show biz brasileiros. Nada disso
fez com que seu nome ficasse gravado na memória do público.
Aos 64 anos, ele é mais um anônimo habitante da cidade de
Embu, nas cercanias de São Paulo. Agrippino parece ser um daqueles
casos de artista maldito que, de tanto apostar no estranho, ficou à
margem. Mas sua história, infelizmente, é mais triste.
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| Cena
de Rito do Amor Selvagem: peça de 1969 é tida
como um marco do teatro de vanguarda |
Em 1981, Agrippino sofreu um colapso. Achava que estava sendo perseguido
e que queriam matá-lo. Foi internado num hospital psiquiátrico.
Diagnóstico: esquizofrenia. A Justiça o declarou incapaz
e sua tutela foi entregue ao irmão mais novo, Guilherme. Embora
nunca mais tenha tido surtos violentos, Agrippino apresenta aquilo que
os especialistas chamam de "sintomas negativos" da esquizofrenia
retraimento social e incapacidade para ordenar o cotidiano. Ele vive numa
casa modesta, quase desprovida de mobília, cujas portas e janelas
mantém fechadas. Veste-se com roupas puídas e freqüentemente
passa o dia embrulhado em lençóis. Não tem telefone,
televisão nem rádio. Seu interesse pelo presente é
nulo tanto assim que ele mal registrou a morte de sua filha, Manhã,
então uma jovem de 18 anos, num acidente de carro em 1993. Agrippino
se apega a eventos do passado, sobretudo das décadas em que foi
ativo como artista. Fala de pessoas que já morreram, como o físico
Mário Schenberg, como se ainda estivessem vivas. A idéia
de reencontrar amigos o perturba. "Não estou muito bem para sair
de casa", desconversa.
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| Jô
Soares interpreta um samurai no filme Hitler Terceiro Mundo,
de 1968: cinema atrevido |
Relacionar loucura e arte há muito já virou clichê.
Clichê que tanto se aplica a doentes verdadeiros, como o pintor
holandês Van Gogh, quanto a talentos que apenas fogem do convencional.
Agrippino se enquadra no primeiro caso algo que precisará
ser levado em conta por seus futuros intérpretes, sobretudo agora
que a editora Papagaio se prepara para relançar todos os seus textos.
"Os distúrbios neuroquímicos responsáveis pela esquizofrenia
quase sempre têm raiz genética. A praxe é que se manifestem
no fim da adolescência e no começo da idade adulta", explica
o psiquiatra Itiro Shirakawa, professor da Escola Paulista de Medicina.
Dadas essas características da doença, é muito provável
que Agrippino já exibisse traços dela quando lançou
suas primeiras obras. Seu jeitão calado, porém, nunca causou
estranheza entre seus companheiros de estripulias estéticas. "Naquela
época todo mundo dava um jeito de parecer maluco", brinca o pintor
José Roberto Aguilar, em cujo ateliê Agrippino conheceu a
bailarina e coreógrafa Maria Esther Stockler, sua futura mulher,
parceira de experimentos artísticos e mecenas. Filha dos donos
da caderneta de poupança Haspa, ela financiou viagens e projetos
do marido até a separação, em 1978. O humorista Jô
Soares, que encarnou um estranhíssimo samurai em Hitler Terceiro
Mundo, lembra da inteligência aguçada de Agrippino. "Ele
era um ouvinte fantástico. Esperava o momento certo para fazer
um comentário contundente", diz Jô. É uma descrição
que coincide com a de Caetano Veloso em seu livro de memórias,
Verdade Tropical: "Agrippino jamais explicava suas opiniões:
ele impunha sua presença pétrea e deixava suas conclusões
caírem como tijolos no meio de uma roda de conversa".
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| O
cantor Caetano Veloso, em 1966: em suas memórias, ele diz que
Agrippino foi uma enorme influência |
Agrippino pode ser esquizofrênico, mas seu pensamento é cristalino
quando o assunto é arte. Ele ainda é capaz de falar longamente
sobre livros. São muito pertinentes, por exemplo, as relações
que tece entre PanAmérica e a pop art americana. "Ao citar
Marilyn Monroe, eu queria fazer como Andy Warhol: criticar os mitos cotidianos
criados pela indústria cultural", comenta. No quesito cinema, seu
discurso não é diferente do de um diretor em atividade.
"Criar no Brasil sempre foi um ato de atrevimento, por causa das condições
precárias", diz ele. "Como é que você podia fazer
cinema nos anos 60 sem se intimidar com aquele aparato todo de que Hollywood
já dispunha? Só sendo um pouco displicente, um pouco impulsivo
como eu fui." Assim como o poeta alemão Friedrich Hölderlin
"o maior dos esquizofrênicos", segundo o crítico russo
Roman Jakobson , Agrippino continua a escrever mesmo sob o signo
da doença. No quartinho onde vegeta, há vários cadernos
repletos de anotações. Seriam o germe de um romance, com
o título provisório de Os Favorecidos de Madame Estereofônica.
"É um livro realista", antecipa. Mas a realidade de Agrippino
sempre foi especial.
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| O
grupo Os Mutantes: show roteirizado pelo artista, em 1969 |
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