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De la
Rúa & filhos
Com
o presidente estranhamente
alheio à crise
argentina, sua família
dá palpite na política
e aproveita o
poder para se divertir
Raul
Juste Lores
Editorial Perfil
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| De
la Rúa: um paizão |
Durante uma década, a família Menem soube entreter a Argentina
com um coquetel de sexo, infidelidade e ostentação, digno
de show biz. Cansados do presidente festeiro e do declínio
econômico, os argentinos elegeram um sujeito sem graça, Fernando
de la Rúa, para colocar ordem no país. Deu tudo errado.
A recessão piorou, o desemprego cresceu e o (des)governo De la
Rúa, com apenas um ano e meio, é fracasso de crítica
e público. O mais surpreendente é que nem assim os argentinos
se livraram de uma primeira-família que se diverte em meio ao caos
e tira desavergonhado proveito do poder. Não fosse o bastante,
na hora de escolher seus auxiliares diretos, o presidente prefere a própria
prole e os amigos dos filhos. "Não agüentava ver os filhos
do presidente dando palpite em tudo", reclamou o ex-vice-presidente Chacho
Alvarez, que renunciou em outubro do ano passado.
Antonito
de la Rúa tinha apenas 24 anos quando dirigiu a campanha eleitoral
que levou papai à Casa Rosada. Hoje, ele participa de reuniões
do ministério (com direito a dar palpites) e indicou diversos amigos
para cargos-chave do governo. Seu namoro com a cantora colombiana Shakira
fez que pulasse das colunas políticas para as capas das revistas
de fofoca. Em respeito à penúria econômica do país,
Menem decidiu casar-se com a ex-miss Universo Cecilia Bolocco numa cerimônia
discreta, no sábado 26. Sem o mesmo cuidado com a sensibilidade
popular, Antonito e Shakira pretendem comprar o antigo apartamento do
milionário Eduardo Costantini, em Buenos Aires, por 2,8 milhões
de dólares. O primeiro-filho não tem cargo no governo, mas
no início do mês encontrou-se em Nova York com executivos
dos bancos internacionais para "saber sobre a situação econômica
argentina". Domingo Cavallo, o ministro da Economia, ficou furioso, desconfiando
de que Antonito investigava a eficácia de suas medidas.
Editorial Perfil
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A
MAIS VELHA
Agustina,
29 anos, dois filhos. Ninguém consegue explicar em que trabalha o
marido, Juan Petracchi. Moram com os sogros na Quinta de Olivos, residência
oficial do presidente. O casal viajou nas comitivas oficiais para
a China, para o Vaticano e para os Estados Unidos. |
O
caçula, Aíto, de 25 anos, foi nomeado diretor executivo
do site educativo do governo argentino, com salário de 5.000
dólares mensais. Ele quase já não aparece na Universidade
de Buenos Aires, onde há sete anos cursa direito, sem conseguir
formar-se. Diploma não conta muito para quem é amigo do
filho do presidente. O melhor amigo de Antonito, Darío Lopérfido,
não tem o 2º grau completo e foi nomeado ministro da Cultura.
A filha mais velha de De la Rúa, Agustina, de 29 anos, mudou-se
com o marido, Juan Petracchi, e os dois filhos pequenos para a Quinta
de Olivos, e viaja com freqüência nas comitivas do pai. O marido
vai junto, evidentemente. Aliás, um mistério cerca Petracchi:
ninguém sabe em que ele trabalha, se trabalha.
Lucy Nicholson/AFP
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O
DO MEIO
Antonito, 26 anos, namora a cantora colombiana
Shakira. Foi marqueteiro da campanha do pai, indicou amigos para altos
postos, como os ministros da Educação, da Cultura e do Trabalho. Fala
em nome do governo com executivos de bancos americanos. Cavallo que
se cuide |
A primeira-dama, Inés Pertiné, não perde viagem internacional.
Foi a única primeira-dama não-européia no enterro
da mãe do rei Juan Carlos, da Espanha, no ano passado. O irmão
caçula do presidente, Jorge de la Rúa, também conseguiu
uma boquinha. Começou no governo como secretário-geral da
Presidência, cargo em que não impressionou ninguém.
Agora é ministro da Justiça. Aliás, um dos poucos
empossados em dezembro de 1999 que ainda não caíram. Estranhamente
alheio à seriedade da crise, De la Rúa mantém uma
agenda folgadíssima. Deixa o batente por conta de Cavallo (imprudência
que está azedando as relações com o Brasil) e se
ocupa com irrelevâncias, como receber a visita de uma delegação
de surdos-mudos. No início de abril, enquanto o mundo inteiro temia
um iminente calote na dívida externa argentina, De la Rúa
levava toda a família para visitar o papa. Viajou a bordo do Tango
Uno, o luxuoso avião da Presidência, o mesmo que prometeu
que venderia, porque era um símbolo da ostentação
menemista. O encontro no Vaticano durou vinte minutos, mas a família
dedicou seis dias ao dolce far niente em Roma. Vários encontros
com empresários italianos foram cancelados a pedido da primeira-dama.
"Temos de descansar", justificou dona Inés.
Editorial Perfil
|
O
CAÇULA
Depois de sete anos na faculdade de direito, Aíto de la Rúa,
de 25 anos, ainda não conseguiu o diploma. Isso não impede que ele
seja o diretor-executivo do site educativo do governo argentino, com
salário de 5000 dólares. Criou com o irmão uma empresa de consultoria
a grandes empresas, Justa Mente. Na foto, ele dá conselhos a Domingo
Cavallo. |
A explicação dessa igrejinha no poder está na trajetória
do presidente, um peso-leve na política. Ao contrário de
Menem e Raúl Alfonsín, caciques indiscutíveis de
seus partidos, De la Rúa lidera apenas uma facção
minoritária dentro da União Cívica Radical, na qual
Alfonsín ainda dá as cartas. Só mesmo com a impopularidade
dos dois grandes caudilhos e a fragmentação do peronismo
De la Rúa conseguiu chegar lá. Ao que parece, aconselhar-se
com a própria família não adianta muito. Segundo
uma pesquisa do Estudio Broda, uma das maiores consultorias do país,
no mandato do apagado presidente a produção industrial caiu
4,7%, o PIB encolheu 1,7%, a arrecadação diminuiu 4,5%,
apesar de novos impostos, e o déficit fiscal aumentou em 1 bilhão
de dólares se comparado o de janeiro e abril do ano passado ao
deste ano.

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