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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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Ele está no lucro

Como tudo o que é ruim para
FHC é bom para ele, Itamar
fatura com a crise de energia

Neide Oliveira

Faltando um ano e cinco meses para o primeiro turno das eleições presidenciais de 1989, Fernando Collor era um político provinciano das Alagoas travando uma batalha contra as mordomias do serviço público estadual. Meses depois, na primeira rodada de pesquisas em que seu nome apareceu, Collor tinha 9% das intenções de votos, muito atrás de Leonel Brizola e Lula. Um ano e cinco meses antes das eleições de 1994, Fernando Henrique Cardoso ocupava o posto de ministro das Relações Exteriores. O sucessor de Itamar Franco seria adivinha quem? Lula. FHC só apareceu nas pesquisas quando já ocupava o posto de ministro da Fazenda. Ao deixar o cargo e entrar na corrida presidencial, Fernando Henrique estava 26 pontos atrás de Lula. Vale dizer: faltando um ano e cinco meses para a eleição, é possível que o nome do novo presidente da República não esteja nas listas dos institutos de opinião. O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, acredita piamente que esse capricho do calendário se repita na eleição de 2002. Na semana passada, dizia a amigos que vai esperar pelo menos até dezembro para anunciar sua candidatura à sucessão de FHC.

Para evitar que uma candidatura nova encontre oxigênio suficiente para prosperar, os nomes já lançados não querem perder tempo. Um dos mais ativos é o governador mineiro Itamar Franco. Nos últimos dias, Itamar saiu em visita às capitais cumprindo uma agenda de encontros com lideranças políticas. Há apenas dois meses, ele se refiliou ao PMDB e anunciou que iria fazer uma peregrinação pelo país para defender a necessidade de o partido ter candidato próprio à Presidência da República em 2002. Naquele momento, sua declaração poderia ser compreendida como um factóide. Tudo indicava que seu partido estava decidido a renovar a aliança com os tucanos. A surpresa veio no final de semana passado. Na eleição para a presidência dos dois diretórios mais importantes do partido, em São Paulo e Minas Gerais, os defensores da tese da candidatura própria venceram. Os candidatos apoiados por Itamar e pelo ex-governador paulista Orestes Quércia bateram surpreendentemente as candidaturas apoiadas pelo ex-presidente da Câmara Michel Temer, o defensor número 1 da aliança com o tucanato.

Na mesma semana, a estrela do governador brilhou em torno de um tema surpreendente: o risco de apagão. Ele foi o único político que conseguiu tirar dividendos eleitorais da crise energética. Com medo de serem tomados como profetas do apocalipse, Ciro Gomes e Lula se calaram. Suas críticas poderiam soar oportunistas num momento muito difícil para a população. Itamar sentiu-se à vontade para atacar o governo. Primeiro, chamou o presidente para um debate sobre a crise. Depois, disse que FHC foi "imprevidente". E por fim ameaçou entrar com uma ação direta de inconstitucionalidade contra as medidas de racionamento. De quebra, ordenou à Cemig que descumpra as medidas do pacote antiapagão até que todas sejam avaliadas pelos tribunais. Itamar sempre se posicionou veementemente contra a privatização das empresas do setor elétrico. Havia defendido suas idéias de forma teatral quando mandou a polícia invadir Furnas. Até ameaçou desviar o curso do rio que abastece a usina caso o governo federal insistisse em sua privatização. "Nessa hora, o eleitor avalia por comparação", diz a professora Maria Victoria Benevides, da cadeira de ciências políticas na Universidade de São Paulo. Ameaçadas pelo apagão, as pessoas começam a lembrar de "como era bom nos tempos do Itamar".

As pesquisas vêm revelando que Itamar tem diferenciais importantes em relação a seus concorrentes situados no lado da oposição. Em um tipo de pesquisa, os institutos listam nove quesitos que os eleitores acham desejáveis em um candidato. Cinco são características pessoais e quatro são atributos políticos. Nas primeiras, os candidatos praticamente empatam. Honestidade, por exemplo, é um atributo que os eleitores identificam nos três: Itamar, Lula e Ciro. É no segundo grupo de atributos que Itamar se distancia dos concorrentes. No total, ele marca 7 pontos contra 4 de Lula e Ciro. Para começar, ele é o único que está ocupando um cargo público importante, dado significativo na opinião do eleitorado. Além disso, é o único que já ocupou a Presidência da República, um detalhe importantíssimo. Segundo as pesquisas, o eleitor tem medo de que Ciro e Lula produzam surpresas, tais como confiscos de poupança e desapropriações. Temores dessa natureza não são listados quando se analisa Itamar. As pessoas acreditam que, se ele quisesse, já poderia ter produzido surpresas negativas. Os candidatos têm grandes desafios à frente. As pesquisas mostram que ninguém está disposto a votar em um candidato apenas porque ele é de oposição. Será preciso mostrar serviço. Como estão as Minas Gerais de Itamar? E os governos do PT? É só isso que interessa. Saber discursar é uma coisa. Ter o que dizer é outra, bem diferente.

 

O capital político da oposição

As fichas listam nove quesitos que influenciam o eleitor na escolha de seu candidato, segundo os institutos de pesquisa. São cinco características de cunho pessoal e quatro políticas – todas muito apreciadas. Neste levantamento qualitativo, Itamar está à frente de Lula e Ciro

Wellington Pedro/divulgação

 


Frederic Jean

 

Juca Varela/Folha Imagem

 

O risco da véspera

O Estado de S. Paulo
Divulgação
As candidaturas de FHC e Collor não existiam um ano e cinco meses antes da eleição. Garotinho espera beneficiar-se desse fenômeno em 2002


 
 
   
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