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O fantasma que
fuma
Afinal,
quem é o dono da Cibrasa,
companhia de cigarros que deve
171 milhões de reais ao governo?
Marcelo Carneiro
Ricardo Fasanello
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Selmy Yassuda

Rodrigues
e os cigarros da Cibrasa: denúncia liga empresário à companhia |
Amigo,
Pullman, Macedônia e Corcel. Haiti, Esplanada, Frevo e Olé.
É assim, com uma escalação no melhor estilo dos times
de várzea, que a indústria da sonegação de
impostos movimenta fortunas no mercado de cigarros. Todas essas marcas,
praticamente desconhecidas e vendidas a menos de 1 real o maço,
pertencem a uma única empresa do Rio de Janeiro, a Cibrasa Indústria
e Comércio de Tabacos. Fundada há vinte anos, a Cibrasa
já foi a líder entre as companhias brasileiras de médio
porte que competem com as multinacionais no comércio do fumo. Hoje,
o faturamento mensal não chega a 750.000 reais, uma gota no oceano
de dívidas que engolfa a empresa. Seu débito com a União
beira 171 milhões de reais e a coloca em 56º lugar no ranking
dos 100 maiores devedores do governo. Boa parte do calote tem origem na
cobrança por sonegação do imposto sobre produtos
industrializados (IPI), que representa cerca de 50% do preço final
do cigarro. Há quase dez anos o governo tenta cobrar o papagaio,
mas esbarra em um mistério insondável: quem é o dono
da Cibrasa?
Selmy Yassuda
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| A
fábrica da empresa, no subúrbio do Rio: campeã em sonegação de IPI |
Para desvendar esse enigma, é preciso mergulhar nos mais de quatro
volumes de um processo em curso na Justiça Federal do Rio de Janeiro.
Do calhamaço emerge a figura de Luiz Felipe da Conceição
Rodrigues, um empresário português de 49 anos. Em uma denúncia
de três páginas datilografadas, um ex-funcionário
da Cibrasa diz que Rodrigues é o verdadeiro dono da empresa. Essa
denúncia serviu de base para uma operação da Receita
Federal que resultou na primeira prisão de Rodrigues, por sonegação
fiscal, em 1995. Hoje, o nome do empresário aparece em mais de
quarenta processos na Justiça Federal e em outros trinta na Justiça
Estadual do Rio. Na época, porém, Rodrigues estava no auge.
Através da Organização Excelsior, um megaescritório
de contabilidade, atendia mais de 1.000 empresas. Tinha dezenas de imóveis
e viajava freqüentemente para a Europa e os Estados Unidos. O problema
é que o principal serviço prestado pela Excelsior a seus
clientes era burlar o Fisco, empregando notas fiscais frias para fraudar
o pagamento de impostos.
Oficialmente, a Cibrasa era uma das empresas cuja contabilidade estava
sob a responsabilidade de Rodrigues. Ele nunca figurou nas diversas alterações
contratuais e jura que apenas prestou serviços à companhia.
Essa versão desmorona quando se conhece a trajetória da
Cibrasa. Em 1992, um dos sócios era Paulo Roberto Alves dos Santos.
Até hoje, nem a Receita nem a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional
conseguiram ficar frente a frente com esse personagem, pelo simples fato
de que se trata de um fantasma. A mesma operação que resultou
na prisão de Rodrigues revelou que Santos aparece como sócio
em 23 outras empresas e, nos contratos dessas firmas, apresentou treze
endereços diferentes. Hoje, a composição societária
da Cibrasa é um desafio à lógica. Mais de 90% do
controle da companhia está nas mãos de uma sociedade anônima
com sede no Uruguai, a Phillterry Corporation.
Outros dois sócios, José Luiz Teixeira e Marco Antônio
Patriarcha, sempre foram funcionários de quinto escalão
da empresa, mas agora ocupam respectivamente a presidência e a vice-presidência.
Na quarta-feira passada, a recepcionista da companhia foi clara sobre
os dois "executivos": "Eles não trabalham aqui há
vários anos". Oficialmente, porém, a empresa tem outra posição.
Lindemberg Silveira, advogado da Cibrasa, explica que Teixeira e Patriarcha
foram indicados pelo Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do
Fumo para participar de um processo de reestruturação da
fábrica. "Eles são pessoas humildes, mas é bom lembrar
que um lenhador já foi presidente dos Estados Unidos", diz Silveira,
comparando a incrível trajetória da dupla à biografia
de Abraham Lincoln. Quanto à suspeita de que Rodrigues seja o dono
da Cibrasa, o advogado é evasivo: "A empresa foi reestruturada
em 1997. Não posso dizer se Luiz Felipe era dono antes dessa data.
Depois, garanto que não, até por causa dos problemas que
passou a enfrentar na Justiça".
O mesmo documento que relaciona Rodrigues à Cibrasa aponta outro
empresário, Dirceu Duarte Ferreira, de São Paulo, como sócio
oculto da companhia. O advogado também nega que Ferreira a controle,
mas VEJA obteve um documento que relaciona o empresário à
Cibrasa. Em dezembro de 1999, Ferreira pagou 605.000 reais por um imóvel
no subúrbio do Rio. Até a data da compra, no endereço
funcionava a fábrica da Cibrasa. Desde setembro do ano passado,
a Cibrasa aderiu ao Refis, programa do governo que prevê o parcelamento
das dívidas fiscais das empresas. Não é a primeira
vez que a companhia renegocia seus débitos. Nas anteriores, o pagamento
das prestações foi interrompido. A adesão ao Refis
prevê a suspensão das ações contra a Cibrasa
na Justiça. Isso significa que, por enquanto, a Fazenda está
impedida de tentar desvendar o mistério que cerca a empresa. E
que Rodrigues poderá continuar na sombra.
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