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Edição 1 702 - 30 de maio de 2001
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Data e hora marcadas
para renúncia

Depois da despedida de Arruda,
ACM
promete abandonar o
mandato e ameaça tocar o
trombone contra o governo

Alexandre Oltramari, de Brasília

Ruy Baron/Valor DF

Em sua vertiginosa carreira política, o senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL da Bahia, acostumou-se à vitória. De todas as eleições em que submeteu seu nome ao veredicto popular, nunca perdeu nenhuma. Em 47 anos de vida pública, influente na democracia e na ditadura, já foi prefeito, deputado, senador, ministro e, até seis meses atrás, era uma espécie de primeiro-ministro informal do governo de Fernando Henrique Cardoso. Na semana passada, Antonio Carlos sofreu seu mais duro revés em quase cinco décadas de política. Por 10 votos a 5, o Conselho de Ética decidiu pedir a abertura do processo de cassação contra ele e o ex-tucano e ex-líder do governo José Roberto Arruda – que, um dia depois, em mais um discurso lacrimoso, renunciou ao mandato para evitar a cassação e a perda dos direitos políticos. Aos 73 anos, 5 quilos mais magro e abatido, ACM deixou Brasília na quinta-feira disposto a enveredar pelo mesmo caminho. Seu gesto tem data e hora marcadas: na quarta-feira, às 15h30, ele planeja subir à tribuna do Senado para renunciar ao mandato que obteve com 1,9 milhão de votos.

Pilhado no episódio da violação do painel eletrônico do Senado, ACM preserva uma estatura política que lhe permite permanecer na vida pública ainda que não tenha um mandato – e o tom de seu discurso de renúncia já é motivo de expectativa. "Será um discurso à moda Lacerda", antecipa um amigo, referindo-se a Carlos Lacerda, político morto em 1977 que foi dono de retórica corrosiva e celebrizou a expressão "mar de lama", com a qual definia a corrupção que cercava o governo de Getúlio Vargas. Até a semana passada, ACM ainda preparava o texto do discurso. Se a cúpula do PFL não conseguir demovê-lo, ACM atacará o governo de Fernando Henrique, disparará petardos na direção de seu desafeto Jader Barbalho e relembrará, uma a uma, as acusações que vinha fazendo nos últimos meses. Seu objetivo é voltar a enrolar-se na bandeira da moralidade e tentar convencer a opinião pública – a baiana, em especial – de que a tentativa de lhe cassar o mandato não passa de retaliação às denúncias de corrupção que vem trombeteando.

Por mais que se esforce em dizer o contrário, o senador baiano começou a cair sem que ninguém precisasse empurrá-lo para o precipício. Há três meses, ele encontrou-se com três procuradores da República, em Brasília. Queria informações sobre um grampo telefônico que a Polícia Federal instalara em quatro Estados para desvendar o esquema de corrupção na Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), feudo político de Jader Barbalho. A certa altura da conversa, num ato de jactância, deu início ao seu calvário. ACM disse aos procuradores que lera a lista com os nomes dos senadores que votaram contra e a favor da cassação de Luiz Estevão. A conversa foi gravada. Só que o trecho em que ACM afirmava ter lido a lista nunca veio a público. Mas, quando técnicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) confirmaram a violação do painel, dois funcionários do Senado admitiram ter extraído a relação de votos. A lista acabou nas mãos de Arruda, que, em seguida, a repassou a ACM. Flagrado na mentira, o baiano não teve outra saída a não ser admitir o que negara até então.

Rei sem cetro – Renunciando ao mandato, ACM perderá a insígnia, mas não abandonará a trincheira em Brasília. Seu suplente, o filho Antonio Carlos Magalhães Júnior, ocupará a cadeira do pai no Senado. De Salvador, ACM pretende iniciar uma romaria por cidades do interior da Bahia, participar de inaugurações e, como rei sem cetro, continuar dando as cartas na política baiana em despachos diários com prefeitos do interior. Seu objetivo é preservar seu patrimônio eleitoral para vencer a próxima eleição ao governo da Bahia ou, opção pela qual tem demonstrado preferência, voltar ao Senado. Para quê? "Para me vingar", diz ACM. Dos 417 municípios baianos, nada menos que 125, ou cerca de 30%, são comandados diretamente pelo PFL de ACM. Estima-se que na Bahia apenas duas dezenas de prefeitos tenham sido eleitos sem o apoio do senador.

A favor de ACM já existem pesquisas indicando que ele tem 70% das intenções de voto para o governo do Estado. Por outro lado, no entanto, são cada vez mais freqüentes em Salvador as manifestações públicas exigindo sua cassação – um sinal inequívoco de que a Bahia de ACM já não é mais a mesma. Na semana passada, pela quarta vez em apenas quinze dias, cerca de 15.000 pessoas foram às ruas exigir a cassação do senador. Sobre uma carroça puxada por um cavalo, um homem com barriga postiça, máscara e chicote na mão representava ACM. "Boi, boi, boi, boi da cara preta / prenda ACM que é um grande picareta", cantavam os manifestantes. O prefeito de Juazeiro, Joseph Bandeira, do PT, dava declarações exaltadas. "A cassação sai por bem ou por mal", afirmou. Num sinal dos novos tempos, a manifestação terminou com um show da cantora Juliana Caymmi, neta de Dorival Caymmi, que recentemente saiu em defesa do senador baiano.

Em conversas reservadas, ACM tem-se queixado de um de seus mais fiéis colaboradores, o governador César Borges, da Bahia. Ele acha que Borges foi "inábil" ao mandar a PM baiana reprimir as primeiras manifestações a favor de sua cassação – o que, em sua avaliação, aumentou ainda mais a ira da opinião pública. Em meio a protestos e discursos acalorados, o baiano recebeu na semana passada o apoio público de dois presidenciáveis: o tucano Tasso Jereissati, governador do Ceará, e Ciro Gomes, do PPS. "Ele errou, mas, daí à cassação, eu tenho minhas dúvidas. Acontece cada coisa horrorosa no Senado, muito mais grave, coisas que não são levadas com essa seriedade", disse o tucano. Já Ciro Gomes afirmou que a imprensa tem exagerado na cobertura ao dar muito espaço para o caso da violação do painel eletrônico do Senado. "Não estou advogando a impunidade, mas a violação do painel só justifica meia página nos jornais", declarou Ciro Gomes, surpreendendo a oposição durante um encontro em Brasília. A declaração de Ciro Gomes é tão obtusa que, claramente, é baseada mais em interesses políticos imediatos do que em princípios.

Embora já estivesse admitindo a hipótese há algumas semanas, ACM somente decidiu renunciar ao mandato depois da acachapante derrota que sofreu no Conselho de Ética do Senado. A reunião dos senadores, que durou sete horas, teve de tudo. ACM esperava que seus aliados conseguissem alterar o parecer do senador Saturnino Braga, relator do caso, para retirar do texto a palavra "cassação". Sem a palavra, o relatório foi votado por quinze senadores. Dos cinco senadores do PFL que integram o conselho, apenas dois, Paulo Souto e Waldeck Ornélas, ambos da Bahia, votaram contra o parecer de Saturnino, que pedia a abertura do processo de cassação por quebra de decoro. Sem argumentos nem os votos dos próprios pefelistas para defender ACM, seus dois aliados apostaram em manobras protelatórias. Brigaram com os colegas, bateram boca, fizeram ameaças. "O senhor deveria ser mais democrata", disse Ornélas, aos berros, enquanto se dirigia ao presidente do Conselho de Ética, senador Ramez Tebet, do PMDB de Mato Grosso do Sul.

A chicana não deu certo. Terminada a sessão, o senador Carlos Wilson, do PPS de Pernambuco, recebeu um prazo de quinze dias para decidir se o processo de cassação seria ou não aberto, mas anunciou que daria a resposta já nesta semana. Até o início do processo, ACM e Arruda poderiam renunciar sem perder os direitos políticos até 2011. O baiano optou por adiar a renúncia para quarta-feira e passar o final de semana ainda como senador. Arruda decidiu pedir o boné um dia depois da votação no conselho. Na quinta-feira passada, decorridas apenas dez horas desde a renúncia, o ex-tucano, ex-líder do governo e já ex-senador José Roberto Arruda obteve de seus ex-colegas do PSDB manifestações de apreço e apoio que não recebera durante os últimos 35 dias – quando teve o nome envolvido no caso do painel. Logo depois da renúncia, Arruda recebeu em casa a visita do líder do governo no Congresso, deputado federal Arthur Virgílio. Como estava acompanhado, Virgílio fez que ia embora, despachou o vice-líder do governo, deputado Ricardo Barros, do PPB, e retornou a tempo de filar o almoço.

Arruda passou a tarde recebendo visitas de ex-colegas. Até o presidente Fernando Henrique lhe telefonou para, segundo o porta-voz Georges Lamazière, transmitir "seu abraço pessoal neste momento difícil pelo qual está passando". À noite, outro tucano de plumagem vistosa, o senador Teotonio Vilela Filho, que presidiu o PSDB até a semana passada, telefonou a Arruda para manifestar solidariedade. A cúpula tucana, que anteontem jogou Arruda na rua da amargura, agora lhe afaga e conforta a alma por uma única razão: teme que, magoado, o ex-senador comece a atirar no governo. É uma hipótese. Na semana passada, em conversas com amigos, Arruda queixou-se do PSDB e atribuiu seu infortúnio a uma manobra de outro tucanão: o ministro José Serra, da Saúde, um notório inimigo de ACM. Arruda está convencido de que o episódio do painel teve uma repercussão desproporcional à sua verdadeira dimensão porque o governo em geral e Serra em particular queriam tanto a cassação do baiano que não se importaram em entregá-lo às feras. É uma maneira particular de ver as coisas. Foi legítima e poderosa a repulsa da opinião pública à descoberta de que a liturgia mais sagrada da democracia, o voto secreto, foi conspurcada para atender ao interesse mesquinho de dois senadores.

 
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