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Data
e hora marcadas
para
renúncia
Depois da despedida de Arruda,
ACM promete
abandonar o
mandato e ameaça tocar o
trombone contra o governo
Alexandre
Oltramari, de Brasília
Ruy Baron/Valor DF
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Em
sua vertiginosa carreira política, o senador Antonio Carlos Magalhães,
do PFL da Bahia, acostumou-se à vitória. De todas as eleições
em que submeteu seu nome ao veredicto popular, nunca perdeu nenhuma. Em
47 anos de vida pública, influente na democracia e na ditadura,
já foi prefeito, deputado, senador, ministro e, até seis
meses atrás, era uma espécie de primeiro-ministro informal
do governo de Fernando Henrique Cardoso. Na semana passada, Antonio Carlos
sofreu seu mais duro revés em quase cinco décadas de política.
Por 10 votos a 5, o Conselho de Ética decidiu pedir a abertura
do processo de cassação contra ele e o ex-tucano e ex-líder
do governo José Roberto Arruda que, um dia depois, em mais
um discurso lacrimoso, renunciou ao mandato para evitar a cassação
e a perda dos direitos políticos. Aos 73 anos, 5 quilos mais magro
e abatido, ACM deixou Brasília na quinta-feira disposto a enveredar
pelo mesmo caminho. Seu gesto tem data e hora marcadas: na quarta-feira,
às 15h30, ele planeja subir à tribuna do Senado para renunciar
ao mandato que obteve com 1,9 milhão de votos.
Pilhado no episódio da violação do painel eletrônico
do Senado, ACM preserva uma estatura política que lhe permite permanecer
na vida pública ainda que não tenha um mandato e
o tom de seu discurso de renúncia já é motivo de
expectativa. "Será um discurso à moda Lacerda", antecipa
um amigo, referindo-se a Carlos Lacerda, político morto em 1977
que foi dono de retórica corrosiva e celebrizou a expressão
"mar de lama", com a qual definia a corrupção que cercava
o governo de Getúlio Vargas. Até a semana passada, ACM ainda
preparava o texto do discurso. Se a cúpula do PFL não conseguir
demovê-lo, ACM atacará o governo de Fernando Henrique, disparará
petardos na direção de seu desafeto Jader Barbalho e relembrará,
uma a uma, as acusações que vinha fazendo nos últimos
meses. Seu objetivo é voltar a enrolar-se na bandeira da moralidade
e tentar convencer a opinião pública a baiana, em
especial de que a tentativa de lhe cassar o mandato não
passa de retaliação às denúncias de corrupção
que vem trombeteando.
Por mais que se esforce em dizer o contrário, o senador baiano
começou a cair sem que ninguém precisasse empurrá-lo
para o precipício. Há três meses, ele encontrou-se
com três procuradores da República, em Brasília. Queria
informações sobre um grampo telefônico que a Polícia
Federal instalara em quatro Estados para desvendar o esquema de corrupção
na Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam),
feudo político de Jader Barbalho. A certa altura da conversa, num
ato de jactância, deu início ao seu calvário. ACM
disse aos procuradores que lera a lista com os nomes dos senadores que
votaram contra e a favor da cassação de Luiz Estevão.
A conversa foi gravada. Só que o trecho em que ACM afirmava ter
lido a lista nunca veio a público. Mas, quando técnicos
da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) confirmaram a violação
do painel, dois funcionários do Senado admitiram ter extraído
a relação de votos. A lista acabou nas mãos de Arruda,
que, em seguida, a repassou a ACM. Flagrado na mentira, o baiano não
teve outra saída a não ser admitir o que negara até
então.
Rei
sem cetro Renunciando ao mandato, ACM perderá a insígnia,
mas não abandonará a trincheira em Brasília. Seu
suplente, o filho Antonio Carlos Magalhães Júnior, ocupará
a cadeira do pai no Senado. De Salvador, ACM pretende iniciar uma romaria
por cidades do interior da Bahia, participar de inaugurações
e, como rei sem cetro, continuar dando as cartas na política baiana
em despachos diários com prefeitos do interior. Seu objetivo é
preservar seu patrimônio eleitoral para vencer a próxima
eleição ao governo da Bahia ou, opção pela
qual tem demonstrado preferência, voltar ao Senado. Para quê?
"Para me vingar", diz ACM. Dos 417 municípios baianos, nada menos
que 125, ou cerca de 30%, são comandados diretamente pelo PFL de
ACM. Estima-se que na Bahia apenas duas dezenas de prefeitos tenham sido
eleitos sem o apoio do senador.
A favor de ACM já existem pesquisas indicando que ele tem 70% das
intenções de voto para o governo do Estado. Por outro lado,
no entanto, são cada vez mais freqüentes em Salvador as manifestações
públicas exigindo sua cassação um sinal inequívoco
de que a Bahia de ACM já não é mais a mesma. Na semana
passada, pela quarta vez em apenas quinze dias, cerca de 15.000 pessoas
foram às ruas exigir a cassação do senador. Sobre
uma carroça puxada por um cavalo, um homem com barriga postiça,
máscara e chicote na mão representava ACM. "Boi, boi, boi,
boi da cara preta / prenda ACM que é um grande picareta", cantavam
os manifestantes. O prefeito de Juazeiro, Joseph Bandeira, do PT, dava
declarações exaltadas. "A cassação sai por
bem ou por mal", afirmou. Num sinal dos novos tempos, a manifestação
terminou com um show da cantora Juliana Caymmi, neta de Dorival Caymmi,
que recentemente saiu em defesa do senador baiano.
Em conversas reservadas, ACM tem-se queixado de um de seus mais fiéis
colaboradores, o governador César Borges, da Bahia. Ele acha que
Borges foi "inábil" ao mandar a PM baiana reprimir as primeiras
manifestações a favor de sua cassação
o que, em sua avaliação, aumentou ainda mais a ira da opinião
pública. Em meio a protestos e discursos acalorados, o baiano recebeu
na semana passada o apoio público de dois presidenciáveis:
o tucano Tasso Jereissati, governador do Ceará, e Ciro Gomes, do
PPS. "Ele errou, mas, daí à cassação, eu tenho
minhas dúvidas. Acontece cada coisa horrorosa no Senado, muito
mais grave, coisas que não são levadas com essa seriedade",
disse o tucano. Já Ciro Gomes afirmou que a imprensa tem exagerado
na cobertura ao dar muito espaço para o caso da violação
do painel eletrônico do Senado. "Não estou advogando a impunidade,
mas a violação do painel só justifica meia página
nos jornais", declarou Ciro Gomes, surpreendendo a oposição
durante um encontro em Brasília. A declaração de
Ciro Gomes é tão obtusa que, claramente, é baseada
mais em interesses políticos imediatos do que em princípios.
Embora já estivesse admitindo a hipótese há algumas
semanas, ACM somente decidiu renunciar ao mandato depois da acachapante
derrota que sofreu no Conselho de Ética do Senado. A reunião
dos senadores, que durou sete horas, teve de tudo. ACM esperava que seus
aliados conseguissem alterar o parecer do senador Saturnino Braga, relator
do caso, para retirar do texto a palavra "cassação". Sem
a palavra, o relatório foi votado por quinze senadores. Dos cinco
senadores do PFL que integram o conselho, apenas dois, Paulo Souto e Waldeck
Ornélas, ambos da Bahia, votaram contra o parecer de Saturnino,
que pedia a abertura do processo de cassação por quebra
de decoro. Sem argumentos nem os votos dos próprios pefelistas
para defender ACM, seus dois aliados apostaram em manobras protelatórias.
Brigaram com os colegas, bateram boca, fizeram ameaças. "O senhor
deveria ser mais democrata", disse Ornélas, aos berros, enquanto
se dirigia ao presidente do Conselho de Ética, senador Ramez Tebet,
do PMDB de Mato Grosso do Sul.
A chicana não deu certo. Terminada a sessão, o senador Carlos
Wilson, do PPS de Pernambuco, recebeu um prazo de quinze dias para decidir
se o processo de cassação seria ou não aberto, mas
anunciou que daria a resposta já nesta semana. Até o início
do processo, ACM e Arruda poderiam renunciar sem perder os direitos políticos
até 2011. O baiano optou por adiar a renúncia para quarta-feira
e passar o final de semana ainda como senador. Arruda decidiu pedir o
boné um dia depois da votação no conselho. Na quinta-feira
passada, decorridas apenas dez horas desde a renúncia, o ex-tucano,
ex-líder do governo e já ex-senador José Roberto
Arruda obteve de seus ex-colegas do PSDB manifestações de
apreço e apoio que não recebera durante os últimos
35 dias quando teve o nome envolvido no caso do painel. Logo depois
da renúncia, Arruda recebeu em casa a visita do líder do
governo no Congresso, deputado federal Arthur Virgílio. Como estava
acompanhado, Virgílio fez que ia embora, despachou o vice-líder
do governo, deputado Ricardo Barros, do PPB, e retornou a tempo de filar
o almoço.
Arruda passou a tarde recebendo visitas de ex-colegas. Até o presidente
Fernando Henrique lhe telefonou para, segundo o porta-voz Georges Lamazière,
transmitir "seu abraço pessoal neste momento difícil pelo
qual está passando". À noite, outro tucano de plumagem vistosa,
o senador Teotonio Vilela Filho, que presidiu o PSDB até a semana
passada, telefonou a Arruda para manifestar solidariedade. A cúpula
tucana, que anteontem jogou Arruda na rua da amargura, agora lhe afaga
e conforta a alma por uma única razão: teme que, magoado,
o ex-senador comece a atirar no governo. É uma hipótese.
Na semana passada, em conversas com amigos, Arruda queixou-se do PSDB
e atribuiu seu infortúnio a uma manobra de outro tucanão:
o ministro José Serra, da Saúde, um notório inimigo
de ACM. Arruda está convencido de que o episódio do painel
teve uma repercussão desproporcional à sua verdadeira dimensão
porque o governo em geral e Serra em particular queriam tanto a cassação
do baiano que não se importaram em entregá-lo às
feras. É uma maneira particular de ver as coisas. Foi legítima
e poderosa a repulsa da opinião pública à descoberta
de que a liturgia mais sagrada da democracia, o voto secreto, foi conspurcada
para atender ao interesse mesquinho de dois senadores.

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