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As marcas do MarkaEscândalo
do Marka assusta o
Policarpo Junior, de Brasília A ajuda do Banco Central aos bancos Marka e FonteCindam, concedida em janeiro de 1999, tem uma peculiaridade: é um caso que desde sua origem tem produzido mais perguntas que respostas e sempre que alguma resposta aparece ela desencadeia reações furiosas. Na semana passada, VEJA apresentou novidades sobre o caso. Em reportagem de capa, a revista estampou as mais fortes evidências até agora de como o ex-diretor e ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes repassava informações privilegiadas num esquema que utilizava três aparelhos celulares. A reportagem informa ainda como o banqueiro Salvatore Cacciola, então dono do Marka, grampeou as conversas telefônicas das pessoas que falavam com Chico Lopes. Conta também como Cacciola, quando quebrou na virada da política cambial, usou as fitas dos telefonemas para chantagear o Banco Central e arrancar um socorro bilionário, mantido em sigilo até ser descoberto pela imprensa. As autoridades classificaram a reportagem como "fantasia", "absurda", "leviana", "venenosa", "primária" e "irresponsável".
Pego em
meio ao turbilhão de amarguras que a crise energética está
produzindo na opinião pública, que se soma às iniqüidades
próprias das oposições nos períodos pré-eleitorais,
o presidente Fernando Henrique Cardoso ficou especialmente irritado com
a narração da chantagem de que Chico Lopes foi vítima.
Num desabafo, chegou a dizer que não admitia ser apontado como
suspeito de acobertar um crime, tendo nomeado e mantido no comando do
BC alguém que soubesse desonesto. Cabe esclarecer que a reportagem
seja diretamente, seja por sugestão não contém
a afirmação que o presidente rebateu: VEJA não disse
que ele nomeou Chico Lopes sabendo do esquema de vazamento, muito menos
que o manteve no cargo apesar de conhecer as irregularidades. A reportagem
informa que o governo o demitiu poucos dias depois de nomeá-lo.
Fernando Henrique, na entrevista à jornalista Tereza Cruvinel,
do jornal O Globo, diz que o fez porque Chico Lopes era "estúpido,
e não um canalha". Ou seja, Lopes foi demitido porque sua gestão
à frente do BC estava sendo desastrosa, e não porque se
duvidava de sua idoneidade. É bom relembrar um pouco aqueles tempos
bicudos e o papel de Chico Lopes neles. Tecnicamente o presidente tem
razão em considerar que o gestor do BC estava enfiando os pés
pelas mãos. Em 1998, Gustavo Franco era presidente do Banco Central
e Chico Lopes, diretor de Política Monetária. O dólar
e o real estavam atados. O câmbio variava numa faixa estreita
o valor do dólar flutuava entre 1,18 e 1,23 real. O Brasil vivia
um período complicado. Com as crises asiática e russa, o
país perdeu reservas (já que investidores estrangeiros retiraram
seus dólares do mercado financeiro) e as exportações
caíram. Havia grande pressão de empresários para
que o real fosse desvalorizado. A situação ficou insustentável
para o governo, que decidiu desvalorizar a moeda. Franco não concordou
e saiu. Chico Lopes assumiu. Sua proposta era de que o governo decretasse
uma desvalorização de 7% e que aos poucos a banda de flutuação
se tornasse mais flexível, até que o câmbio fosse
totalmente liberado. O BC desvalorizou o real e estabeleceu o teto de
flutuação em 1,32 real. O mercado entrou em pânico.
Achava-se que a desvalorização seria muito maior. Houve
uma corrida para comprar dólares e, se o Banco Central decidisse
manter o limite que havia estabelecido, teria de sangrar demasiadamente
as reservas, justamente o que tentava evitar com a mudança cambial.
A situação ficou crítica. A saída foi decretar
a livre flutuação do câmbio. Foi nesse instante que
Chico Lopes foi aliviado de suas funções. A reportagem de
VEJA, no entanto, apresentou elementos novos que permitem analisar com
seriedade outra versão, a de que Lopes perdeu seu posto não
por incompetência, mas porque fora chantageado por banqueiros desonestos
e vinha lhes passando informações e concedendo benefícios,
na melhor das hipóteses, pouco ortodoxos.
Há quatro meses, o Ministério Público do Rio de Janeiro pediu ao Ministério da Justiça que obtivesse informações sobre uma suposta conta de Luiz Augusto Bragança, um dos investigados, no banco da corretora americana Merrill Lynch. O pedido tinha por base dois dados. O primeiro é que uma pessoa próxima de Bragança informara aos procuradores que ele tinha uma conta não declarada à Receita Federal no Merrill Lynch que foi fechada após o surgimento do caso Marka. O segundo dado é que os procuradores tiveram acesso a um fax em que o Merril Lynch fazia uma reserva de hotel para Bragança na Europa um serviço que o banco costuma oferecer a clientes importantes. O pedido dos procuradores foi aprovado pela Justiça e encaminhado ao Ministério da Justiça em janeiro passado, mas ainda não houve resposta. A Justiça também espera extratos dos cartões de crédito que Bragança usou depois de sua súbita prosperidade. As operadoras dos cartões não responderam ainda. Com delegados sendo trocados a cada três meses e uma burocracia indolente, é natural que o caso patine, e os avanços que teve até agora se devam ao Ministério Público e, com perdão da má palavra, à imprensa. Em janeiro de 1999, o Banco Central deu a ajuda de pai para filho ao Marka na surdina. Na edição do dia 17 de fevereiro daquele ano, VEJA publicou a primeira reportagem a respeito. Sob o título "Caça à fraude cambial", uma reportagem revelava que o BC dera uma ajuda estranhíssima aos dois bancos. Dois meses depois, VEJA publicou nova reportagem contando, pela primeira vez, que Cacciola dizia que a cúpula do BC vazava informação privilegiada. Daí em diante, além das costumeiras acusações à imprensa por publicar leviandades venenosas e dos conhecidos ataques de desqualificação de fontes, o caso rendeu uma CPI, a prisão de Cacciola e a apreensão de um bilhete explosivo no apartamento de Chico Lopes no Rio. No bilhete, seu sócio Sérgio Bragança informava ter em suas contas no exterior 1,675 milhão de dólares que pertenciam ao ex-presidente do Banco Central. O bilhete é um só, mas as versões não. No final de 1999, o ex-ministro Clóvis Carvalho disse em depoimento à Polícia Federal que ouvira de Chico Lopes que o dinheiro no exterior era fruto de herança paterna. Nas palavras do escrivão que tomou seu depoimento, Clóvis Carvalho disse que "posteriormente à apreensão conversou com Francisco Lopes sobre o teor desse documento, ocasião em que ele declarou que os mesmos são originários de uma herança paterna, ou seja, Francisco Lopes recebeu tais recursos de seu pai, a título de herança". O problema é que, mais tarde, o Ministério Público descobriu um acordo de partilha de bens, assinado pelo pai de Chico Lopes, e ali não havia menção a esse dinheiro. Chico Lopes disse que jamais falara a Clóvis Carvalho que o dinheiro do bilhete se referia à herança de seu pai. "Falei que era uma questão de família", disse Chico Lopes, na época, insinuando que, a partir daí, Clóvis Carvalho concluiu por conta própria que "questão de família" só podia ser herança. Em março passado, quando depôs na polícia, Chico Lopes apresentou sua versão. Disse que a quantia se referia ao preço que Sérgio Bragança se comprometia a pagar por sua parte na Macrométrica, sua empresa de consultoria econômica no Rio. Como o negócio acabou não se consumando, o dinheiro nunca existiu, e Chico Lopes se esqueceu de rasgar o bilhete. Essa versão requer que a platéia se convença do seguinte: a prova material é falsa, foi mantida guardada a sete chaves mas a versão oral, precedida por uma versão distinta de um ex-ministro, é verdadeira. Ainda assim, a explicação pode ser a mais pura expressão da verdade, mas faltou explicar por que Sérgio Bragança nunca se preocupou em pedir a eliminação de um bilhete em que confessava uma dívida que jamais contraíra. Não se sabe, também, por que a possível venda de suas ações na Macrométrica levou Chico Lopes a dizer a Clóvis Carvalho que o bilhete tratava de "questão de família". Por fim, não se entende por que, se era só isso, Bragança e Chico Lopes se recusaram a oferecer material grafotécnico, dificultando o trabalho da polícia, que teve de confirmar que a letra era deles mesmos por comparação. Além do bilhete de 1,675 milhão de dólares, apreendeu-se na casa do economista um saco plástico com 26 000 reais em dinheiro vivo. Araci Pugliese, mulher de Chico Lopes, disse que os 26 000 reais eram fruto de economias pessoais. Na semana passada, a mulher do economista prestou esclarecimentos na Sexta Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. Ela disse aos investigadores que era sócia da empresa do marido, a Macrométrica, "apenas no papel". A resposta levou os procuradores a anunciar um novo inquérito contra Lopes, por improbidade administrativa. Chico Lopes nunca negou que continuou a orientar seus sócios na Macrométrica, em questões de conjuntura econômica, no tempo em que ficou no BC. Achava isso tão normal que até dava entrevistas na empresa. Não se provou que ele orientasse a Macrométrica usando as mesmas informações que amealhava no BC. Mas esse caso é tão estranho que se pode querer fazer crer que ele preferisse esquecer tudo o que tinha feito de segunda a quinta-feira no BC e recomeçasse na sexta-feira do zero para fazer aos sócios da Macrométrica uma análise diferente da sigilosa e oficial. O Senado resolveu ouvir sobre o caso três autoridades da área econômica: o ministro da Fazenda, Pedro Malan, o atual presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e a diretora de fiscalização, Tereza Grossi, que se encarregou de negociar a carta da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), que o BC usou mais tarde como álibi técnico para a ajuda bilionária dada ao Marka e ao FonteCindam. Até hoje ninguém entendeu por que aquelas instituições tiveram um tratamento tão especial do Banco Central. Desde a implantação do Plano Real, em julho de 1994, 55 bancos foram à lona. Destes, 53 foram liquidados, sofreram intervenção ou foram submetidos ao chamado Regime de Administração Especial Temporário (Raet). Só dois não passaram por essas agruras: Marka e FonteCindam. A deferência livrou seus donos, Cacciola e Luis Antônio Gonçalves, de ficar com bens indisponíveis e de sofrer processo punitivo por parte do Banco Central. Descobriu-se, na semana passada, um outro dado que pode vir a ter algum significado no curso das investigações. No dia 14 de outubro de 1999, nove meses depois da ajuda de pai para filho que recebeu do BC, Cacciola reuniu-se no Rio de Janeiro com o gerente técnico do BC, Altemir Garcia, e com o então supervisor de fiscalização, Claudio Filgueiras Moreira. A certa altura, Cacciola conversou por celular com um funcionário do Marka, identificado apenas como Maurício. Seu celular, sem que o banqueiro soubesse, estava sendo monitorado pela Polícia Federal com autorização judicial. VEJA teve acesso à transcrição da conversa grampeada pelos policiais federais. Cacciola falava com os técnicos sobre como alterar o balanço do Marka encerrado em 1998 um mês antes de ir à lona. Referindo-se a um dos técnicos do BC, Cacciola diz a seu funcionário: "Ele tá colocando extra-oficialmente isso pra mim..." Pela reação de Cacciola, percebe-se que o banqueiro estava recebendo instruções e as repassando a um funcionário seu mas por enquanto os policiais não podem precisar os reais motivos da conversa. "Faça os ajustes no balanço e faça os ajustes no diário criando novas folhas", explica ao telefone Cacciola. "Só que, agora, daí o problema é nosso, em termos fiscais o problema é nosso." Dias depois, numa conversa com a diretora jurídica do Marka, Cacciola estava discutindo de novo a questão do balanço de 1998 e relembrou a conversa que tivera com os técnicos do BC. Ele faz um comentário enigmático: "Pô, o cara do Banco Central, eu tô raciocinando agora, o cara tava corretíssimo. Me deu uma dica importante pra caramba, sem interesse nenhum. Sabe como é que é: qual o interesse do Banco Central? Nenhum, né?". Cacciola efetivamente fez ajustes. A Receita Federal considerou as alterações de balanço irregulares, entendeu que estava subtraindo impostos e multou o banco em 26 milhões de reais. Há, ainda, outro dado a esclarecer. Em março de 1998, os auditores do BC no Rio de Janeiro realizaram uma fiscalização no FonteCindam. Descobriram que o banco estava muito alavancado. No jargão de mercado, isso significa que o banco estava apostando muito além de sua capacidade. Os técnicos fizeram um relatório e o encaminharam a Brasília. Em condições normais, o BC alerta o banco alavancado para que mude suas posições e, com isso, não corra o risco de falir e desestabilizar o sistema bancário. No caso do FonteCindam, nenhuma providência foi tomada. Numa teleconferência do próprio BC, ainda em 1998, Tereza Grossi foi indagada sobre o problema, mas disse que não havia nada a fazer e que, além do mais, o FonteCindam era um banco pequeno que não oferecia risco à estabilidade do sistema bancário. Como se sabe, o FonteCindam continuou assim, alavancado, até se estatelar no chão com a mudança cambial de janeiro de 1999 e ainda recebeu ajuda, segundo a explicação do BC na ocasião, justamente porque sua quebra ameaçaria o sistema bancário. O deputado Aloizio Mercadante (PT-SP) pediu ao BC os relatórios da fiscalização de março de 1998 e as transcrições da teleconferência. Só para conferir.
Com reportagem de Felipe Patury, de São Paulo
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