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Ponto
de vista: Lya Luft Sem
ritmo nem afinação "Caminhamos
com passos atrapalhados
num samba de incerto destino" Como cidadãos
deste país, devemos dedicar alguns pensamentos a quem comanda nosso destino
cívico: o novo Congresso, onde vão se produzir grandes consensos
o maior deles, o silêncio sobre nossos mais candentes problemas.
Como o fato de que nosso índice de desenvolvimento humano (IDH) desceu
mais uma vez: fomos para a 69ª posição, perdendo para vizinhos
como Uruguai (43ª), Chile (38ª) e Argentina (36ª). Segundo estudos
do Banco Mundial, entre 175 países é no Brasil que se gasta mais
tempo para cumprir obrigações fiscais: 2.600 horas por ano por empresa,
800% a mais do que a média dos outros países. Somos campeões
na desigualdade social e um dos países que menos crescem no mundo, perdendo
só para o Haiti, na América Latina. Embora a equipe do governo trabalhe
para garantir o crescimento de 5% do PIB a partir de 2007, o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento,
estima uma expansão dessa magnitude somente para 2017. O estudo estava
pronto antes das eleições, mas só agora vem sendo divulgado.
Comentário de uma alta autoridade: "Ora, o Ipea é só um órgão
de estudos..."
Ilustração
Atomica Studio
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Nosso
dinheiro duramente ganho (quando temos emprego) vai sobretudo para os impostos,
que comem 113 dias de trabalho da classe média, a qual, embora seja a menor
parcela da população, é responsável por 60% da arrecadação.
O que resta entra no ralo dos serviços que o Estado deveria fornecer de
boa qualidade, mas que nós pagamos: gastos com saúde, educação,
segurança, previdência privada e pedágios devoraram 31% dos
ganhos da tão atacada classe média em 2006. Nós, os professores,
bancários, jornalistas, donas-de-casa, balconistas, secretárias,
motoristas, que mantemos este país andando.
Na corrupção, segue animado o baile de máscaras: ninguém
fornece dados que permitam processar responsáveis pelo dossiê Cuiabá.
Há um assunto de cartilhas que mal consegue emergir; é logo abafado.
Sem falar no mensalão, nos sanguessugas, no dinheiro mal aplicado de muitas
ONGs, nos escândalos do INSS e outros. Naturalmente o Brasil só podia
ter piorado nesse ranking: segundo a Transparência Internacional, passamos
para o septuagésimo lugar entre os países mais corruptos, acima
apenas da Argentina, do Paraguai, da Venezuela e do Equador.
Com o país caindo aos pedaços, aviões começaram a
fazer o mesmo, ou quase. Nota atualíssima nos diz que só neste ano
houve iminência de três colisões nos céus brasileiros
fato gravíssimo! O que está acontecendo em aeroportos e nos
ares é o inimaginável fruto do descaso, da desorganização,
da falta de autoridade e consenso, brincando com vidas humanas: a próxima
pode ser a minha, a sua, a de pessoas que amamos. O governo reduziu gastos com
a segurança aérea e vai investir só 40% do necessário
em infra-estrutura nesse setor. Sofrendo pela falta de preparo (só 3% falam
inglês elementar), treinamento e atividade mais racionalizada, os controladores
de vôo afirmam que trabalhar nas condições em que trabalham
é um pesadelo. Tendo diminuído também
os gastos em educação, que deveria ser, junto com saúde e
segurança, nossa prioridade absoluta, descemos mais um lance dessa ladeira
íngreme. Aumenta o número de jovens chegando ao mercado de trabalho
sem qualificação, portanto desempregados. Da população
entre 15 e 25 anos, quase 40% não completaram nem o ensino fundamental.
Nem vão concluir: o número de jovens assassinados é maior
do que nas guerras. Nunca vimos tanta gente morando nas ruas e praças,
tantas crianças e jovens pedintes, tantos drogados criminosos, jamais a
insegurança grassou de tal maneira em nossas cidades e no campo, nunca
fomos tão claramente reféns da violência quase descontrolada.
O Brasil também atrai menos investimentos estrangeiros, e caiu do sexto
para o 13º lugar na lista dos que mais receberam projetos. A falta de investimento
estrangeiro no Brasil colabora para o desemprego, e o país vai perdendo
cada vez mais a corrida da competitividade. Energia
elétrica, rodovias, portos, aeroportos, vivem sob a ameaça de apagão
geral. A participação da iniciativa privada em obras foi regulamentada
neste ano, mas nenhum processo foi concluído: vivemos no reino do papel,
como é de fantasia a riqueza que os políticos querem distribuir
e ainda nem foi gerada. Quem pode foge, como os imigrantes da Grande São
Paulo que começam a retornar às terras de origem, no Norte e no
Nordeste: lá, afirmam, podem viver do Bolsa Família.
Comentários de uma inesperada catastrofista? Engano: nada do que escrevi
acima é meu. Como qualquer alfabetizado pode fazer, colhi frases recentes
de nossa imprensa que precisamos cada vez mais livre, para iluminar nossos
passos atrapalhados num samba de incerto destino, sem ritmo nem afinação.
Lya Luft é escritora
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