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André
Petry
Os Michéis Têmeres
"O que intriga é
que os dois Michéis
Têmeres poderiam vir a público
revelar
sua dupla existência. Qual o
problema?
Gêmeos não podem ser
políticos?"
Estão fazendo uma injustiça tremenda
com o deputado Michel Temer, o presidente do PMDB. E tudo porque
ele apoiou o tucano Geraldo Alckmin até o último minuto
da campanha presidencial e acaba de declarar apoio ao petista Luiz
Inácio Lula da Silva antes de começar o primeiro minuto
de seu segundo mandato. É uma injustiça porque, nos
bastidores da política em Brasília, se comenta abertamente
que Michel Temer não é um só. Pois é:
existem dois Michéis Têmeres. Ambos têm 66 anos,
ambos presidem o PMDB, ambos se elegeram agora para deputado federal
com 99 000 votos mas são dois.
No peito de um Michel Temer sempre bateu um
coração meio petista. Há um Michel Temer que
sempre quis integrar o governo de Lula. Sempre. No início
do primeiro mandato, quando o então todo-poderoso José
Dirceu negociava a adesão do PMDB ao governo, um entusiasta
da negociação era justamente Michel Temer, o petista.
E na semana passada quem se sentou à mesa com Lula e anunciou
a adesão do PMDB ao governo foi o mesmo Michel Temer, o petista.
Não se deve confundi-lo com o outro Michel Temer, em cujo
peito sempre bateu um coração meio tucano. Esse outro
Michel Temer é que subiu no palanque de Geraldo Alckmin.
São dois. São gêmeos.
O que intriga a política brasiliense
é que os Michéis Têmeres poderiam vir a público
revelar sua dupla existência. Qual o problema? Gêmeos
não podem ser políticos? Gêmeos não podem
ter preferências políticas diferentes? Em vez disso,
os dois Michéis Têmeres insistem em tentar enganar
a platéia como se fossem um só. Não se dão
conta de que é esse disfarce que gera a injustiça.
Agora mesmo, antes de ser chamado para conversar com Lula no Palácio
do Planalto, Michel Temer andava irritado. Irritado porque o presidente
não o chamava nunca. Alguém lembrou: "Ele também
não pode querer que o Lula esqueça que menos de um
mês atrás ele estava com Alckmin no Vale do Anhangabaú".
Injustiça. Quem estava lá era Michel Temer, o tucano.
Quem andava irritado com a demora de Lula era outro Michel Temer,
o petista.
Um dos mandamentos básicos para esconder
a existência de dois Michéis Têmeres é
nunca, jamais, dizer qualquer coisa que seja muito clara. Assim,
um Michel Temer não compromete o outro Michel Temer. Confira
no seguinte diálogo:
Veja Por que o senhor apoiou
Alckmin?
Temer Eu ouvia dizer que o partido
inteiro estava com Lula. Como não era assim, resolvi restabelecer
a verdade. O PMDB ficou dividido e declarei o meu apoio ao Geraldo
Alckmin, a quem eu sempre fui mais ligado.
Veja Por que o senhor agora
apóia Lula?
Temer Agora, identifiquei que
a grande maioria gostaria de atender aos apelos do presidente para
que o PMDB ingressasse no governo. O que eu fiz foi ser coerente
com a decisão do PMDB de apoiar o governo.
Os dois Michéis Têmeres estão
sempre a serviço de evidenciar a vontade partidária:
vira tucano para mostrar a divisão, vira petista para mostrar
a união.
Não é um disfarce perfeito?
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