Entrevista Eduardo Suplicy

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Desta vez, Lula cá

O senador do PT acredita que na próxima eleição presidencial Lula deve ceder passagem a outro candidato – e é ele quem quer ocupar o espaço

Thaís Oyama

 
Sergio Lima/ Folha Imagem

 

"As pessoas da direção do PT nem sempre gostam de falar coisas desagradáveis para o Lula. Preferem poupá-lo"

O Brasil inteiro sabe que o senador Eduardo Suplicy é um homem teimoso. Quando tem um projeto na cabeça (renda mínima, quem consegue esquecer?), dedica-se a ele com uma insistência que beira a obsessão. Agora, decidido a lançar-se candidato à Presidência da República, não se importa em fazer o que ninguém em seu partido ousou arriscar em vinte anos: desafiar publicamente o presidente de honra e supremo cardeal do PT. Lula, diz o senador, está fazendo ouvidos moucos ao clamor das ruas: "Onde vou, ouço das pessoas que ele não deveria candidatar-se novamente". Em entrevista a VEJA, o senador critica a direção do partido, confessa seu ciúme pela mulher, Marta Suplicy, a prefeita eleita de São Paulo, e reconhece pelo menos uma de suas limitações: afirma que gostaria de falar um pouco mais depressa.

Veja – Por que o senhor acha que Lula não deve candidatar-se à Presidência da República?
Suplicy – Em todos os Estados brasileiros que vamos, nós, parlamentares do PT, ouvimos dezenas de vezes e diariamente: seria bom que o Lula não fosse candidato. Então, penso que é responsabilidade nossa dizer isso.

Veja – Que segmentos defendem essa posição?
Suplicy – Os mais diversos. Se estou sentado no avião, a pessoa ao meu lado com freqüência me diz isso. Se ando na rua, tomo um táxi, ouço isso constantemente. Se vou à porta da fábrica, de diversos operários eu ouço isso.

Veja – Por que esse clamor não chega aos ouvidos dele?
Suplicy – As pessoas da direção do partido nem sempre gostam de falar coisas desagradáveis para o Lula. Preferem poupá-lo.

Veja – O senhor considera isso saudável?
Suplicy – Não. E é por isso que acho bom que eu possa dizer coisas que não vão agradar a todos. Se nenhum de nós tiver coragem de dizer isso, se eu não dissesse agora que me disponho a ser candidato, nós correremos o risco de chegar a meados do ano que vem sem ninguém do PT preparado para disputar a Presidência – se porventura o Lula abrir mão da candidatura.

Veja – Em 1998 ele dizia que não queria concorrer.
Suplicy – Mas acontece que ele não contribuiu para abrir outras possibilidades, novas alternativas.

Veja – Qual foi o motivo?
Suplicy – Porque na verdade ele queria ser candidato. Dizia que não queria, que não tinha toda essa vontade, mas, quando um deputado, um governador ousava dizer que ele não deveria ser candidato, Lula não aceitava isso muito bem. O Rui Falcão (ex-deputado e futuro secretário de governo da prefeita eleita de São Paulo, Marta Suplicy), ele próprio me relatou que, em certa ocasião, disse ao Lula: "Você quer pessoas que digam o que gostaria de ouvir ou quer opiniões sinceras? Porque se você quer uma opinião franca, a minha é de que você não deve ser candidato". E o deputado sentiu que houve uma grande dificuldade do Lula em aceitar esse parecer tão duro.

Veja – O senhor acha que Lula tem dificuldades em aceitar opiniões divergentes?
Suplicy – Todas as pessoas que têm a coragem de assim falar percebem que o Lula não acha isso tão bom, assim como sei que ele não vai adorar o que estou falando agora. Mas estou disposto a me molhar nessa chuva, talvez nessa tempestade.

Veja – Existe um excesso de idolatria no PT em relação ao Lula?
Suplicy – Existe um reconhecimento merecido. Quando o Lula vai a uma reunião do PT, é uma coisa extraordinária – a forma de ele interagir com o partido é tão forte que ele acaba sendo essa unanimidade dentro do PT. Mas daí a ele ter essa mesma aceitação e unanimidade para além do partido é outra coisa – e muito diferente. O Lula precisa estar atento e procurar ouvir os seus amigos leais que lhe digam a verdade. Isso lhe fará muito bem. E precisa dar a oportunidade para que as pessoas contem para ele as coisas como elas são.

Veja – Quando foi que o senhor pensou seriamente em se candidatar à Presidência?
Suplicy – A primeira vez que pensei em ser presidente da República foi aos 17 anos. Foi um momento em que mudei bastante a minha vida. Era um estudante no Colégio São Luís, tive uma formação católica muito intensa e comecei a notar que aquilo que meus pais me transmitiam e que eu achava tão bonito não acontecia fora dos muros da minha casa. Era um mundo de conflitos, de desigualdade.

Veja – Que exemplos o senhor percebia?
Suplicy – Quando eu tinha 10 anos de idade, às vezes era acordado à noite pelos gritos das mulheres que estavam no Parque Siqueira Campos. Os policiais davam borrachadas nelas e as levavam para o distrito. O que me chamava muito a atenção era o fato de que dois dias depois elas estavam lá novamente, fazendo trottoir. Ficava pensando como é que aquelas mulheres se sujeitavam àquela condição de humilhação, de precisar sobreviver vendendo o corpo, apanhando, sendo presas e depois voltando. Era uma situação de não liberdade determinada pela precariedade daquela situação econômica.

Veja – Sua mulher, a prefeita eleita Marta Suplicy, disse que uma vez o senhor a convidou para morar numa vila operária e ela não aceitou. Ainda pensa nisso?
Suplicy – É um projeto que até hoje não tinha dado certo. Mas agora em dezembro vou passar um breve período morando na favela de Heliópolis (a maior de São Paulo, na Zona Sul da cidade), interagindo com os moradores, para concluir o livro que eu estou fazendo: Em Direção a uma Renda de Cidadania. Acho que seria interessante que eu pudesse escrever num ambiente de pobreza. Esse livro está ligado ao meu projeto de renda mínima, que garante a todas as pessoas residentes no Brasil o direito a uma renda, que pode começar modesta, mas que, gradualmente, será suficiente para a sobrevivência de cada um. É um instrumento que possibilitará tirar as pessoas dessa condição de falta de liberdade à qual me referi.

Veja – O senhor ainda gosta de cantar?
Suplicy – Gosto de cantar, assim, por diversão. Em quatro ocasiões fiz aulas com uma professora de canto. Eu tenho uma vontade muito grande de participar do coral do Senado. Em determinado momento, eles me convidaram e eu aprendi a cantar O Cio da Terra, de Milton Nascimento. Ensaiamos a música e chegamos a apresentá-la no Teatro Nacional de Brasília. A maestrina inclusive disse que eu tinha voz boa. Mas eu canto mais em festas de família. Por várias vezes cantei com meus filhos: "And so this is Christmas...", do John Lennon. No último aniversário de minha mãe, cantei sozinho uma canção, mas me esqueci qual foi. Também gosto muito das músicas que meus filhos Supla e João fazem. Tenho muito orgulho de meus três filhos.

Veja – Causou certo mal-estar o fato de seu filho Supla ter dito num programa de TV que era pago pela máfia colombiana para jogar futebol.
Suplicy – Não me preocupou o que o Edu falou com tanta sinceridade. Enquanto viveu nos Estados Unidos, nós mandávamos uma ajuda modesta e ele procurava complementá-la com os trabalhos informais que fazia, entre os quais jogar futebol num time cujo dono era da máfia colombiana. O trabalho era jogar futebol, não tinha nada a ver com o narcotráfico. Se você quer saber, achei isso muito engraçado.

Veja – Há pouco tempo correram boatos de que o fato de sua mulher ter a intenção de contratar o franco-argentino Luis Favre (ex-militante trotskista que atuou como colaborador da campanha de Marta à prefeitura) como seu conselheiro teria despertado ciúme da parte do senhor. É verdade?
Suplicy – Ele exerceu uma influência que a Marta considerou positiva. Acho que houve uma certa diferença na maneira como todos os assessores faziam sugestões a Marta e a maneira como ele se fez presente nas últimas semanas de campanha. Mas ele sempre teve uma atitude de respeito, e eu avaliei que teve uma contribuição positiva.

Veja – Mas houve ciúme?
Suplicy – Pode ter havido um sentimento normal.

Veja – Que sentimento?
Suplicy – Um sentimento de preocupação da minha parte com respeito à presença muito forte dele na equipe. Acho que o amor ou o sentimento de paixão que as pessoas possam vir a ter... Quando você é capaz de compreender os sentimentos que possam ocorrer com sua companheira, isso faz você amar o outro de uma maneira mais sólida, de uma forma que faz inclusive você compreender algumas coisas. Agora eu vou dizer uma palavra final: as coisas que são importantes em defesa do interesse público eu falei. Avalio que falar dos mais profundos sentimentos de minha alma, de meu coração, de minha cabeça, a esta altura, eu não vou. Então, acho que o que você perguntou está bem respondido. Mas se a intenção for prosseguir perguntando sobre as coisas que aconteceram na vida, no casamento e tudo, então eu acho que encerramos a entrevista aqui.

Veja – Não é essa a intenção.
Suplicy – Então, está bem.

Veja – O senhor se considera um puro, como disse certa vez o ex-deputado Hélio Rosas?
Suplicy – Absolutamente. Eu sou um ser humano cheio de problemas e defeitos.

Veja – O senhor diz que não é vaidoso, não é ciumento.
Suplicy – Quando você me perguntou se eu tinha ciúme daquela pessoa, minha primeira reação foi dizer que não. Mas não é que eu não tenha ciúme. É que eu não gosto de demonstrar. Para colocar em termos corretos a minha resposta, eu diria que posso ter tido algum ciúme. Pelo fato de essa pessoa ter tido essa influência, essa ascendência sobre a Marta. Mas eu não gosto de demonstrar isso.

Veja – Por orgulho?
Suplicy – Talvez por orgulho. Confesso que sim.

Veja – Qual a sua principal qualidade?
Suplicy – Acho que é minha determinação de fazer as coisas que eu acho importantes na vida. Eu as faço com a maior energia possível, com uma vontade tremenda. Não é à toa que uma das histórias de que eu mais gosto é a do velho que removia montanhas, que está no livro vermelho do Mao Tsé-tung. Eu acho que sou capaz de remover montanhas. No campo do amor, por exemplo: conquistar, reconquistar e reconquistar tantas vezes quanto se fizer necessário o amor de minha mulher. Sou capaz de remover montanhas por ela. Por outro lado, essa perseverança pode transformar-se também num defeito.

Veja – Quando, no seu caso?
Suplicy – A qualidade exagerada provoca, por exemplo, a atitude que você tem para comigo, de não querer que eu fale mais do meu projeto de renda mínima.

Veja – É que, se depender do senhor, só vamos falar disso, e assim a entrevista fica limitada.
Suplicy – Está certo. Mas isso é o que eu chamo de qualidade transformada em defeito. Quando eu acho que alguma coisa é importante, envolvo-me de tal maneira que as pessoas que estão próximas de mim, minha mulher e meus filhos, por exemplo, me dizem: "Eduardo, chega de falar nesse assunto porque eu não agüento mais". Fico enchendo a paciência das pessoas, falando a toda hora das coisas nas quais acredito – isso perturba muito. Tem pessoas que não querem me ver pela frente. Tanto no governo quanto no PT: "Lá vem o Eduardo falar das idéias dele. E agora, ainda por cima, quer ser presidente da República".

Veja – Qual o seu principal defeito, senador?
Suplicy – Eu tenho consciência de que, se fosse uma pessoa que falasse mais rapidamente e fosse sempre ao ponto, isso poderia agradar mais às pessoas. Mas também tenho consciência de que minha forma de falar melhorou bastante ao longo dos anos. Em alguns momentos, as pessoas podem achar que eu me prendo a detalhes e, segundo alguns interlocutores mais amigos, eu, de fato, trato muito de detalhes que não precisariam ser tratados.

Veja – O senhor concorda com isso?
Suplicy – Acho que posso melhorar. Quando em 1995 eu, como senador, fui enviado à reunião de cúpula da ONU para um encontro de chefes de Estado, fiquei impressionado com os oradores. Estavam lá o presidente Fidel Castro, o presidente François Mitterrand e a Hillary Clinton, entre outros. Todos, até Fidel, que é famoso por suas falas muito longas, falaram por exatamente três minutos e fizeram discursos fantásticos. Quando voltei ao Brasil, cheguei ao meu gabinete e disse: daqui para a frente, vou tentar fazer somente discursos de três minutos, porque percebi que dá para dizer coisas relevantes em apenas três minutos.

Veja – O senhor não cumpriu a promessa.
Suplicy – Não. Mas tenho feito exercícios e procurado melhorar. Há algum tempo, li uma entrevista com o Reinaldo Polito (autor do livro Como Falar Corretamente e sem Inibições) em que ele dizia que, se eu fizesse o curso dele, poderia melhorar muito. Há dois meses, decidi procurá-lo. Foi ótimo. Aprendi, sobretudo, a usar bem o tempo definido. Fiz exercícios de expor uma idéia em trinta minutos, depois a mesma idéia em vinte, e assim sucessivamente, até chegar a três minutos.

Veja – Dois meses atrás foi justamente quando o senhor lançou sua pré-candidatura. Uma coisa tem a ver com a outra?
Suplicy – Tem a ver com o fato de eu estar querendo me preparar para a missão que considero ser a mais importante da minha vida.

 
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