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Queixas, tiros e socos
Na
Argentina, a imprensa enfrenta processos
de Menem e ataques clandestinos
Paulo
Moreira Leite, de Buenos Aires
Quando se fala em
lei de imprensa no Brasil, convém prestar atenção na
Argentina. A legislação, ali, é uma perfeição
democrática. Nem sequer existe uma lei específica para
a imprensa os crimes e as penas
estão definidos na legislação comum. Não se admite
censura prévia. Quem pretende condenar um jornalista e
colocá-lo na cadeia precisa demonstrar que ele não
apenas publicou uma notícia falsa, mas também provar
que agiu de má-fé. Ainda assim, a situação da
imprensa na Argentina é um escândalo internacional e
motivo de zangados editoriais do jornal The New York
Times, o mais influente do planeta. Quando cobrem uma
passeata, os repórteres e fotógrafos argentinos correm
o risco de ser atacados de surpresa pelos cassetetes da
polícia, também recebem ameaças de morte pelo
telefone, às vezes são seguidos e espancados. Nos
tribunais, o presidente Carlos Menem mantém uma guerra
de processos contra jornalistas. Em seus pronunciamentos,
o presidente atravessou a fronteira do decoro
democrático ao dizer, em 1995, quando conseguiu seu
segundo mandato, "que havia vencido a oposição e
também a imprensa". Na semana passada, às
vésperas de um pleito duríssimo marcado para domingo,
no qual estava em jogo o controle da Assembléia
Nacional, foi a vez de o ministro da Economia, Roque
Fernández, partir para o ataque, dizendo que a Argentina
vivia sob um "golpe de Estado da mídia",
empenhada, segundo ele, em esconder as virtudes do
governo.
Quando esteve em
Buenos Aires, há pouco, o presidente americano Bill
Clinton tomou uma atitude que humilhou seu anfitrião.
Clinton encontrou-se com um grupo de jornalistas de
primeira linha para dizer que aplaudia seu trabalho.
"É preciso parar com as ameaças", disse.
"É bom que a imprensa seja livre e é ruim que haja
quem se sinta de mãos livres para agredir
jornalistas." A situação é tão dramática que o
novo mártir das lutas democráticas na Argentina não é
um ativista operário nem um militante estudantil
mas um fotógrafo. Em janeiro deste ano, José Luis
Cabezas, da revista Noticias, a de maior
circulação, foi algemado, tomou um golpe que partiu sua
mandíbula, outro que lhe quebrou a omoplata, levou dois
tiros que o mataram e por fim teve o corpo incendiado. De
lá para cá, todos os meses
sempre no dia 25 ocorrem protestos na
Argentina. Uma vez, em Buenos Aires, 20.000 pessoas foram
à rua. É comum encontrar fotógrafos que carregam um
pequeno retrato de Cabezas na lapela, acompanhado por uma
frase cunhada pelo escritor Ernesto Sábato, guardião
moral da Argentina desde que se tornou o principal
tribuno das denúncias sobre os desaparecidos dos anos
70: "Não se esqueçam de Cabezas". O
fotógrafo era um profissional sem militância conhecida
esforçado e ambicioso, tinha uma natural preocupação
com o sucesso e a carreira. Cem jornalistas foram mortos
na Argentina pelo terror militar dos anos 70
eram pessoas ligadas a partidos esquerdistas, sindicatos
e organizações armadas. A morte de Cabezas é
diferente. "É o primeiro caso conhecido de um
jornalista assassinado apenas porque exercia sua
profissão", afirma Hector D'Amico, o diretor de Noticias.
Navalhadas
Nove meses depois do crime, uma rede de suspeitos já foi
apanhada, inclusive um policial apontado como o executor.
Falta, contudo, o mandante. O fotógrafo morreu quando
investigava o empresário Alfredo Yabrán, um amigo de
ministros e do próprio Menem, a quem o ex-czar da
Economia argentina Domingo Cavallo definiu como o
"chefe das máfias do governo". Vivendo na
sombra, onde construiu uma fortuna imensa nas dobras da
máquina do Estado, explorando concessões postais,
armazéns de fronteira, empresas de segurança privada e
duty-free, Yabrán deu poucas entrevistas na vida e nunca
permitiu que a imprensa o fotografasse. Certa vez, quando
lhe perguntaram se autorizava uma foto, teve uma reação
de submundo: disse que quem fizesse isso levaria um tiro
na testa. Cabezas foi quem montou uma equipe que fez uma
primeira foto do empresário em muitos anos. Depois disso
vivia em seu encalço
chegou a fazer uma segunda foto. Por intermédio de seu
porta-voz, Yabrán tem obviamente negado a mais remota
vinculação com o assassinato, mas até o chefe de sua
equipe de guarda-costas se encontra atrás das grades.
A morte de Cabezas
é símbolo de um quadro de tragédia, violência e
pressões impensáveis num país com renda per capita de
8400 dólares, índices de analfabetismo na faixa de 5%.
Um levantamento da União dos Trabalhadores de Imprensa
de Buenos Aires registra mais de 800 ataques contra
jornalistas durante o governo de Menem
aí estão incluídas agressões físicas, ameaças de
morte por telefone e também queixas de autoridades na
Justiça. Fundada há dois anos, uma entidade chamada
Periodistas (Jornalistas, em castelhano) fez um
levantamento detalhado de todos os casos ocorridos no
primeiro semestre deste ano. Exemplos:
Em
janeiro, em Santiago del Estero, um jornalista que
denunciou um deputado por corrupção foi ameaçado de
morte pelo próprio parlamentar, que lhe apontou um
revólver.
Em
fevereiro, um jornalista de San Miguel de Tucumán foi
seqüestrado e espancado por três indivíduos que se
queixavam de "coisas ruins" que publicara.
Em
março, um radialista que denunciara corrupção foi
ferido a bala quando viajava por uma estrada no interior.
Em
abril, em Córdoba, a segunda cidade do país, um câmara
de TV foi atingido por uma bomba de gás jogada por um
policial quando filmava um protesto.
Em maio,
seis jornalistas foram feridos por policiais durante a
repressão a uma manifestação em Jujuy. Mesmo depois de
se identificar, um deles foi obrigado a ajoelhar-se,
sendo espancado nas costas.
Em
junho, a irmã de um repórter de TV teve o rosto cortado
a navalhadas em Palermo Chico, um dos melhores bairros de
Buenos Aires. A mensagem que os animais lhe deram: seu
irmão, que andava no encalço de policiais suspeitos
pelo crime de Cabezas, tinha 48 horas para se afastar do
caso.
A mais vigorosa
usina de ataques à imprensa
pelas vias legais, naturalmente
é o governo de Carlos Menem, o amigo de Yabrán. Muitos
jornais têm um caso ou outro, mas existem publicações
em situação pior. Apenas a revista Noticias se
tornou alvo de dezesseis queixas, movidas pelo
presidente, seus auxiliares próximos e familiares. O
jornalista Miguel Wiñazki, por exemplo, acumulou três
casos. Num deles, o assunto é Eduardo Menem, senador e
irmão do presidente, que adquiriu uma mansão de 1
milhão de dólares, embora seu salário seja de 5.000
dólares por mês. Outro jornalista, Fernando Fideleff,
levantou os gastos dos filhos do presidente, Zulemita e
Carlos Jr., este morto num acidente de helicóptero, e
descobriu despesas impagáveis como a casa do tio
45.000 dólares por mês. Apontando ligações estranhas
entre um empresário ligado ao craque Maradona e um
auxiliar direto do presidente, Edy Zunino também tem um
processo a responder. Jornal pioneiro em investigações
profundas, o Página 12 acumula duas dezenas de
processos desde a posse de Menem
oito ainda estavam em andamento na semana passada.
"O
presidente é tolerante"
Pela legislação argentina, existem acusações de
injúria, em que a pena é de um ano de prisão, e
também de calúnia, cuja pena é de três anos. Nas
ações civis, pode-se pedir indenização por
desrespeito à imagem ou invasão de privacidade. A
maioria das multas fica na faixa dos 50.000 dólares,
equivalentes a pelo menos dois anos de salário de um
jornalista em estágio médio na carreira, mas já
apareceram pedidos que passam de 2 milhões de dólares.
Só para ter uma idéia: no Brasil, nenhum órgão de
imprensa é alvo de processo de Fernando Henrique.
Fernando Collor, submetido às denúncias que levariam a
seu impeachment, processou apenas um jornal em sua
passagem pelo Planalto. Em 1995, quatro jornalistas foram
assassinados no Brasil
uma barbaridade. Um foi morto no interior de Goiás,
outro em Minas e dois em pequenas cidades do Estado do
Rio de Janeiro. Essa circunstância não diminui a dor
nem a gravidade dos crimes
mas seria absurdo imaginar que amigos do presidente da
República pudessem estar entre os suspeitos. É toda a
diferença.
Num escritório no
centro de Buenos Aires, o advogado Ricardo Jorge Klass,
que defende Carlos Menem em boa parte de suas causas,
expõe o ponto de vista do cliente: "O presidente é
tolerante". Klass lembra que Menem conduziu a
privatização das rádios e das TVs estatais sem
estabelecer limite às novas propriedades. Permitiu a
formação de grupos gigantescos como o Clarín, com o
maior jornal do país
circulação superior a 1 milhão de exemplares aos
domingos e ainda investimentos em TV, rádio
e cabo. Corporações multinacionais que estão chegando
para atuar nessa área também ficam à vontade -- não
há restrição de nenhuma natureza. "Nos Estados
Unidos, não se permite a formação de grupos de
comunicação, que podem constituir monopólios",
diz Klass, com um sorriso irônico nos lábios.
"Aqui, isso é permitido." É um bom argumento
para explicar a lógica do comportamento de Menem, que
processa jornalistas mas procura manter política de boa
vizinhança com os empresários da área.
Aponta-se como
exemplo de tolerância de Menem o caso do veterano
jornalista Jacobo Timerman, sobrevivente da barbárie
militar. Menem deu queixa contra ele em duas ocasiões.
Numa porque Timerman disse que por trás do projeto de
criação de uma zona de exportação se escondia o apoio
ao tráfico de drogas. Em outra, porque afirmou que Menem
não tinha princípios morais. "Um presidente pode
ouvir uma acusação dessas e ficar calado?",
pergunta o advogado. Menem bateu às portas da Justiça,
ganhou e só não levou porque não quis. Os advogados de
Timerman propuseram um acordo e Menem aceitou. "Isso
é uma prova de boa vontade", diz Klass. Mais certo
é que tenha sido também prova de um cálculo político.
Com grandes conexões na comunidade judaica americana,
Timerman se tornaria um caso internacional no minuto
seguinte à sua entrada no cárcere.
"Como
um maricón" É falsa a idéia de que Menem
investe contra jornalistas quando eles erram. Se assim
fosse, não estaria processando Marisa Grinstein, autora
de uma entrevista em que o cineasta Fernando Solanas se
refere à equipe do presidente como uma
"quadrilha"
teria então limitado sua queixa, em sendo o caso, a quem
fez as acusações. Em 1994, em novo afago ao porão
militar, Menem tentou promover dois oficiais da Marinha
com notória ficha de torturadores. A reação foi de
choque. Para justificar-se, o presidente argumentou, em
tom apaziguador, que ele também havia sido torturado na
prisão, dando a entender que aprendera a perdoar.
Acontece que, embora tenha passado uma temporada na
cadeia sob a ditadura, Menem simplesmente não foi
torturado lembrou, no Página 12, o
jornalista Horacio Verbitsky, antigo dirigente da
organização armada Montoneros que se tornou uma das
estrelas de primeira grandeza do atual jornalismo
argentino. Enquanto Menem procurava tirar proveito
político de sua passagem pela prisão, Verbitsky
publicou o depoimento de um sindicalista que o encontrou
na cadeia: "Chorava como um maricón".
Na queixa, os
advogados de Menem alegaram injúria, ofensa à honra do
presidente. Em sua sentença, a juíza Maria Laura
Garrigós de Rebori não só considerou a ação de Menem
sem fundamento mas até o obrigou a arcar com as custas
do processo foram 28.000 dólares apenas para os
advogados da parte contrária. A juíza considerou, em
primeiro lugar, que Verbitsky não reproduzira a palavra
"maricón" para fazer qualquer insinuação
sobre os hábitos sexuais de Menem
mas para deixar claro qual era seu estado de ânimo ao
ser feito prisioneiro. Em segundo lugar, explicou a
juíza, quando lembrou a frase do sindicalista, Verbitsky
alertava o leitor para o fato de que o presidente faltara
com a verdade ao rememorar sua passagem pela cadeia e
dessa maneira não apenas exercia um direito como
jornalista mas até cumpria um dever profissional.
"Sem
democracia, sem governo estáveis, a imprensa argentina
passou décadas dominada pela cultura do medo", diz
Verbitsky. "Isso mudou." A imprensa argentina
é verborrágica e barulhenta, mas faz hoje um serviço
melhor do que há duas décadas. Cem jornalistas
morreram, mas a maioria dos jornais do país passou em
branco pela brutalidade da ditadura militar. É difícil
falar o que foi cautela, o que foi covardia, o que foi
sobrevivência. Mas nem todos fizeram tão pouco. O
modesto Buenos Aires Herald, publicado em inglês,
divulgava denúncias constantes e nada lhe acontecia. La
Prensa, um dos mais tradicionais e conservadores,
também publicou alguns casos, e até determinações da
censura, na primeira página e
ficou tudo por isso mesmo. "Menem está sendo
agressivo", afirma a advogada Alícia Oliveira,
aplicada defensora de jornalistas. "Mas temos de
reconhecer que a imprensa argentina nunca foi tão
atuante."
Até agora o
governo conseguiu apenas uma condenação, numa denúncia
em que se afirmava que o círculo presidencial estava
envolvido na venda de vistos de residência para
imigrantes cubanos num tipo de mau
jornalismo sem testemunhos nem provas, que seria punido
em qualquer tribunal decente. Os advogados dos jornais
dizem que a outra parte prefere empurrar os casos sem
pressa, como uma forma de manter profissionais e
empresários em estado de tensão o
risco de uma condenação, afinal, é sempre uma arma.
Jornalistas que têm um processo no currículo se tornam
mais cuidadosos, empresários cujo cofre está na mira de
uma multa pesada se tornam menos agressivos. "Quem
diz que um processo não incomoda não sabe do que está
falando", diz Miguel Wiñazki. "Uma
condenação não ajuda ninguém a conseguir emprego. Em
geral, só atrapalha. E, se o caso for indenização em
dinheiro, o sujeito pode ter de vender a casa onde
mora." Até agora, a maioria das empresas anuncia
que irá bancar multas de seus funcionários. É difícil
garantir que todas manterão essa política
caso as indenizações se multipliquem e a conta se torne
salgada.
"Apenas
má vontade" "A imprensa argentina não é
uma maravilha: é sensacionalista, não tem memória e
parece estar sempre atrás de um novo escândalo, mas
não há dúvida de que está funcionando melhor do que
outras instituições", afirma o jurista Ricardo
Monner Sans, com um escritório com causas a favor e
contra jornalistas. "O erro de um jornal é ruim,
mas a autocensura é pior. Quando ela se instala, é
porque, sutilmente, todos ficaram de acordo que não vão
mais dizer a verdade, mas nem sequer têm a coragem de
dizer isso." A maioria dos escândalos politícos do
governo Menem começou na imprensa, e isso é um elogio
ao trabalho dos jornalistas. Para quem gosta de analogias
entre os dois países, a chuva de denúncias contra Menem
é mais espessa do que aquela que atingiu Fernando Collor
antes do impeachment. Tornou-se uma tempestade quando foi
engordada por uma voz autorizada. Não era um irmão
corajoso, como Pedro, mas um superministro, Domingo
Cavallo. A CIA fez chegar aos ouvidos de Cavallo a
informação de que seria possível implicar Menem em
irregularidades que poderiam tornar impossível a
continuação de seu mandato. O ex-ministro foi em frente
em suas denúncias, publicou um livro de ataques
duríssimos mas nada aconteceu. A
explicação política é que, ao contrário de Collor,
Menem tem maioria no Congresso o
que impede qualquer investigação no estilo CPI de PC
Farias. Outra razão é que Menem fez uma cirurgia na
Justiça. Nove em cada dez juízes encarrregados de
examinar denúncias contra funcionários federais
inclusive ele próprio
foram nomeados por seu governo e têm pelo menos essa
lembrança agradável no momento em que se debruçam
sobre uma denúncia. "Cada caso é um caso, mas é
certo que essas nomeações criam uma situação
favorável ao governo", afirma o advogado Oscar
Pellicori.
"Não faltam
denúncias, falta vontade de apurar", diz o advogado
Luis Moreno Ocampo. No fim do regime militar, Moreno
Ocampo integrou a equipe de procuradores responsável
pela proeza de mandar para a cadeia a trinca de generais
assassinos. Procurador-geral no início do governo Menem,
Moreno Ocampo arregaçou as mangas, convencido de que
teria muito trabalho pela frente, mas logo percebeu que
se enganara. "Não havia colaboração de ninguém,
apenas má vontade. Quem queria fazer o serviço direito
era transferido, colocado em lugar onde não pudesse
fazer nada", lembra ele, que preferiu deixar o cargo
e agora faz fortuna na iniciativa privada. Com sua
metralhadora de processos no varejo, Menem também tentou
virar o jogo no atacado em duas oportunidades. Fez
circular rascunhos que logo receberam um mesmo apelido,
"Lei Mordaça" e
ali, curiosamente, surgem pontos que guardam parentesco
com o que se debate em Brasília. Numa delas, a idéia
era restabelecer a censura prévia, autorizando o governo
a vetar a publicação de determinados assuntos
considerados delicados demais. Sob determinadas
circunstâncias, os jornalistas poderiam ser obrigados a
revelar suas fontes de informação
em caso de recusa, a pena seria de seis anos de prisão.
Outra proposta foi alcançar as empresas de comunicação
no bolso, criando multas tão pesadas que até para poder
lançar um jornal de bairro um cidadão seria obrigado a
fazer um seguro preventivo
tão caro que publicações menores, que já circulam na
Argentina, não teriam dinheiro para pagar o prêmio e
seriam obrigados a fechar as portas caso a legislação
entrasse em vigor. Esses projetos foram derrotados e
abandonados porque houve protesto e também porque eram
ridículos. Mas todos os dias os argentinos redescobrem
como é difícil conviver com um governo que não fica à
vontade com a liberdade de imprensa. Imagine-se se, além
disso, houvesse uma legislação ruim para atrapalhar.

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