|
|
Cinema
Nada de shopping
Em Driblando o Destino, o que
a adolescente indiana Jess quer
é outra coisa: jogar futebol

Isabela
Boscov
AFP
 |
| Parminder,
com as colegas de time: fã do jogo, e não das
pernas, de Beckham |
Assim como no mercado de livros, um ramo que se fortalece cada vez
mais no cinema é o dos filmes com viés de auto-ajuda.
O exemplar mais bem-sucedido da tendência, com a assombrosa
rentabilidade de 7.000% (custou 5 milhões de dólares
e rendeu 356 milhões), é Casamento Grego
que, ao mesmo tempo que animava as balzaquianas a sacudir a poeira
e viver a vida, prestava um desserviço aos imigrantes gregos
em geral, mostrando-os como pitorescos, atrasados e estridentes.
Nesse sentido, Driblando o Destino (Bend It Like
Beckham, Inglaterra/Alemanha, 2002), que estréia nesta
sexta-feira no país, se sai muito melhor. O filme da diretora
Gurinder Chadha também é um sucesso custou
uma ninharia e já rendeu 77 milhões de dólares
em todo o mundo. Mas há algo de diferente na sua protagonista,
Jess (Parminder K. Nagra). Londrina de classe média e filha
de indianos, Jess é fã de David Beckham. Mais precisamente,
do jogo do atacante inglês, e não de seus atrativos
como símbolo sexual. Jess joga futebol com os meninos no
parque e é boa de bola tanto que acaba sendo recrutada
por outra mocinha, esta inglesa, para um time amador. Os pais de
Jess não fazem idéia de sua dedicação,
e ela se esforça para que permaneçam na ignorância.
Como a filha mais velha vai se casar, eles acham que a caçula
tem de começar a se comportar como uma menina de boa família
indiana, e não mostrar as pernas para uma arquibancada lotada.
Evidentemente, o filme vai tratar do conflito em que o talento de
Jess a lança, aquele entre aspiração pessoal
e tradição. E é claro também que a história
vai sugerir que sempre é possível achar um meio-termo
entre os dois, o que não é necessariamente verdade.
Mas, se o filme não é original, nem elaborado, ele
ainda assim tem um quê de sinceridade. Driblando o Destino
não faz piadas às expensas da comunidade que retrata,
como Casamento Grego, nem segue a fórmula americana,
em que a menina feiosa e infeliz se descobre bela e, portanto, feliz.
Aqui, pelo menos, há uma idéia nova: a de que existe
vida fora do shopping center.
|