Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Cinema
Nada de shopping

Em Driblando o Destino, o que
a adolescente indiana Jess quer
é outra coisa: jogar futebol


Isabela Boscov

AFP
Parminder, com as colegas de time: fã do jogo, e não das pernas, de Beckham


Assim como no mercado de livros, um ramo que se fortalece cada vez mais no cinema é o dos filmes com viés de auto-ajuda. O exemplar mais bem-sucedido da tendência, com a assombrosa rentabilidade de 7.000% (custou 5 milhões de dólares e rendeu 356 milhões), é Casamento Grego – que, ao mesmo tempo que animava as balzaquianas a sacudir a poeira e viver a vida, prestava um desserviço aos imigrantes gregos em geral, mostrando-os como pitorescos, atrasados e estridentes. Nesse sentido, Driblando o Destino (Bend It Like Beckham, Inglaterra/Alemanha, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país, se sai muito melhor. O filme da diretora Gurinder Chadha também é um sucesso – custou uma ninharia e já rendeu 77 milhões de dólares em todo o mundo. Mas há algo de diferente na sua protagonista, Jess (Parminder K. Nagra). Londrina de classe média e filha de indianos, Jess é fã de David Beckham. Mais precisamente, do jogo do atacante inglês, e não de seus atrativos como símbolo sexual. Jess joga futebol com os meninos no parque e é boa de bola – tanto que acaba sendo recrutada por outra mocinha, esta inglesa, para um time amador. Os pais de Jess não fazem idéia de sua dedicação, e ela se esforça para que permaneçam na ignorância. Como a filha mais velha vai se casar, eles acham que a caçula tem de começar a se comportar como uma menina de boa família indiana, e não mostrar as pernas para uma arquibancada lotada.

Evidentemente, o filme vai tratar do conflito em que o talento de Jess a lança, aquele entre aspiração pessoal e tradição. E é claro também que a história vai sugerir que sempre é possível achar um meio-termo entre os dois, o que não é necessariamente verdade. Mas, se o filme não é original, nem elaborado, ele ainda assim tem um quê de sinceridade. Driblando o Destino não faz piadas às expensas da comunidade que retrata, como Casamento Grego, nem segue a fórmula americana, em que a menina feiosa e infeliz se descobre bela e, portanto, feliz. Aqui, pelo menos, há uma idéia nova: a de que existe vida fora do shopping center.

 
 
 
 
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