Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Cinema
O amanhã sempre chega

Em As Invasões Bárbaras, o diretor
Denys Arcand retoma com brilhantismo
os personagens de O Declínio
do Império Americano


Isabela Boscov

AFP
Rousseau e Girard, como filho e pai: a necessidade de legar algo ao futuro
Trailer do filme


Em 1986, o cineasta canadense Denys Arcand lançou o que parecia ser uma provocação. Em O Declínio do Império Americano, ele mostrava dois grupos, de quatro homens e quatro mulheres, que trocavam histórias sexuais, e reflexões sobre elas, enquanto se preparavam para se reunir num jantar numa bela casa, à beira de um belo lago, nas proximidades de Montreal. Todos eram intelectuais e amigos de longa data, mas com visões diversas sobre amor, continuidade, fidelidade, família e, naturalmente, sexo. Cada um deles, porém, ilustrava um aspecto da proposição provocativa de Arcand: quando um império atinge seu auge e o declínio então se anuncia, seus integrantes se entregam com afinco redobrado à busca do prazer pessoal. O bem comum deixa de ser uma prioridade, o egoísmo aumenta, a taxa de natalidade diminui, o hedonismo se torna a filosofia dominante. É viver como se não houvesse amanhã. Assim, ainda que se acreditassem agentes de seu tempo, os amigos, com sua busca pela beleza e pela gratificação, eram um legítimo produto dele. Agora, no belíssimo As Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares, Canadá/França, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país, Arcand retoma seus personagens – interpretados pelos mesmos atores de dezessete anos atrás – e o paralelo entre circunstâncias pessoais e históricas, mas com profundidade também ela redobrada. Há um amanhã, sim, diz Arcand, mas ele inevitavelmente abrange tudo aquilo a que se tenta fechar os olhos quando se está na plenitude. O império cai e os bárbaros, sempre à espreita dos sinais de vigor diminuído, começam a atacar.

No caso de Rémy (Rémy Girard), um homem alegre e que sempre amou demais as mulheres – e também amou mulheres demais, razão pela qual perdeu a família –, os bárbaros vêm na forma do câncer, do rancor do filho e da distância da filha, da feiúra, da morte que está se aproximando rapidamente. Não por acaso, Rémy enfrenta os corredores lotados e os recursos insuficientes do sistema público de saúde canadense ao mesmo tempo que os terroristas islâmicos jogam aviões contra as torres do World Trade Center. Os homens não escolhem a época em que vivem, defende o diretor, mas isso não os torna menos representativos dessa época, ou menos circunscritos a ela. Com seu humor pungente, Arcand faz os amigos, reunidos novamente para aliviar a passagem de Rémy, rir das convicções que compartilhavam alguns anos antes. "Existencialismo, comunismo, maoísmo – há algum 'ismo' que não tenhamos adorado?", indagam-se eles. "O cretinismo", retruca alguém.

Não é comum que o cinema se preste a discussões tão complexas e as encene em todos os seus desdobramentos sem deixar de ser cinema. As Invasões Bárbaras é um desses casos raros. Dirigido com maturidade por Arcand e tocante ao extremo no plano dos personagens – em especial na reconciliação de que Rémy e seu filho, Sébastien (o excelente Stéphane Rousseau), tanto precisam –, o filme desenvolve também com brilhantismo a tese com que o diretor acenara em 1986. Assim como as invasões bárbaras que puseram fim ao Império Romano não puderam impedir que os melhores valores que ele representou repercutissem através dos séculos, a reunião do idealista Rémy com seus amigos e a reaproximação com seu filho capitalista significam, para todos eles, um balanço do melhor que foram capazes de produzir e uma transmissão que se sobrepõe à morte – na verdade, que tem força para negá-la. Esta pode ser, de fato, uma civilização em declínio. Mas, no que depender de cineastas como Arcand, ao menos um "ismo" ela há de legar ao que se seguir: o humanismo, na sua forma mais inteligente.

 
 
 
 
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