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Cinema
O
amanhã sempre chega
Em
As Invasões Bárbaras, o diretor
Denys Arcand retoma com brilhantismo
os personagens de O Declínio
do Império Americano

Isabela Boscov
AFP
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| Rousseau
e Girard, como filho e pai: a necessidade de legar algo ao futuro
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Em 1986, o cineasta canadense Denys Arcand lançou o que parecia
ser uma provocação. Em O Declínio do Império
Americano, ele mostrava dois grupos, de quatro homens e quatro
mulheres, que trocavam histórias sexuais, e reflexões
sobre elas, enquanto se preparavam para se reunir num jantar numa
bela casa, à beira de um belo lago, nas proximidades de Montreal.
Todos eram intelectuais e amigos de longa data, mas com visões
diversas sobre amor, continuidade, fidelidade, família e,
naturalmente, sexo. Cada um deles, porém, ilustrava um aspecto
da proposição provocativa de Arcand: quando um império
atinge seu auge e o declínio então se anuncia, seus
integrantes se entregam com afinco redobrado à busca do prazer
pessoal. O bem comum deixa de ser uma prioridade, o egoísmo
aumenta, a taxa de natalidade diminui, o hedonismo se torna a filosofia
dominante. É viver como se não houvesse amanhã.
Assim, ainda que se acreditassem agentes de seu tempo, os amigos,
com sua busca pela beleza e pela gratificação, eram
um legítimo produto dele. Agora, no belíssimo As
Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares,
Canadá/França, 2003), que estréia nesta sexta-feira
no país, Arcand retoma seus personagens interpretados
pelos mesmos atores de dezessete anos atrás e o paralelo
entre circunstâncias pessoais e históricas, mas com
profundidade também ela redobrada. Há um amanhã,
sim, diz Arcand, mas ele inevitavelmente abrange tudo aquilo a que
se tenta fechar os olhos quando se está na plenitude. O império
cai e os bárbaros, sempre à espreita dos sinais de
vigor diminuído, começam a atacar.
No caso de Rémy (Rémy Girard), um homem alegre e que
sempre amou demais as mulheres e também amou mulheres
demais, razão pela qual perdeu a família , os
bárbaros vêm na forma do câncer, do rancor do
filho e da distância da filha, da feiúra, da morte
que está se aproximando rapidamente. Não por acaso,
Rémy enfrenta os corredores lotados e os recursos insuficientes
do sistema público de saúde canadense ao mesmo tempo
que os terroristas islâmicos jogam aviões contra as
torres do World Trade Center. Os homens não escolhem a época
em que vivem, defende o diretor, mas isso não os torna menos
representativos dessa época, ou menos circunscritos a ela.
Com seu humor pungente, Arcand faz os amigos, reunidos novamente
para aliviar a passagem de Rémy, rir das convicções
que compartilhavam alguns anos antes. "Existencialismo, comunismo,
maoísmo há algum 'ismo' que não tenhamos
adorado?", indagam-se eles. "O cretinismo", retruca alguém.
Não é comum que o cinema se preste a discussões
tão complexas e as encene em todos os seus desdobramentos
sem deixar de ser cinema. As Invasões Bárbaras
é um desses casos raros. Dirigido com maturidade por Arcand
e tocante ao extremo no plano dos personagens em especial
na reconciliação de que Rémy e seu filho, Sébastien
(o excelente Stéphane Rousseau), tanto precisam , o
filme desenvolve também com brilhantismo a tese com que o
diretor acenara em 1986. Assim como as invasões bárbaras
que puseram fim ao Império Romano não puderam impedir
que os melhores valores que ele representou repercutissem através
dos séculos, a reunião do idealista Rémy com
seus amigos e a reaproximação com seu filho capitalista
significam, para todos eles, um balanço do melhor que foram
capazes de produzir e uma transmissão que se sobrepõe
à morte na verdade, que tem força para negá-la.
Esta pode ser, de fato, uma civilização em declínio.
Mas, no que depender de cineastas como Arcand, ao menos um "ismo"
ela há de legar ao que se seguir: o humanismo, na sua forma
mais inteligente.
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