Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Livros
Mulherzinhas que sofrem

A irlandesa Marian Keyes faz
sucesso com suas protagonistas tão
desestruturadas quanto divertidas


Marcelo Marthe

Jerry Bauer/Opale
Marian Keyes: de alcoólatra mal-amada a uma das mulheres mais ricas da Irlanda – e mais bem-amadas também
Trechos do livro


Dez anos atrás, a irlandesa Marian Keyes estava no fundo do poço. Infeliz em sua profissão de advogada e malsucedida no amor, ela afogava as mágoas na bebida. Em depressão, tentou o suicídio ingerindo uma dose cavalar de calmantes. "Foi um período tenebroso. Mas aquele sofrimento teve alguma utilidade, pois se revelou uma inspiração preciosa", declarou ela anos mais tarde. E bota inspiração nisso. Enquanto se tratava numa clínica de reabilitação, Marian deu os primeiros passos numa atividade que faria dela uma das maiores fortunas da Irlanda: a de escritora de um gênero que os críticos rotulam de "literatura de mulherzinha". Assim como a inglesa Helen Fielding, criadora da personagem Bridget Jones e expoente mais conhecida do estilo, Marian alcançou o sucesso com romances que satirizam as inseguranças e desventuras da mulher moderna. Desde 1995, lançou seis títulos que venderam 6 milhões de exemplares. As mulheres de suas histórias são mais velhas e enfrentam carmas bem piores que os da abilolada Bridget Jones. Em Melancia, seu primeiro livro, que atingiu a vendagem de 50.000 cópias no Brasil, a mal-amada Claire cai na bebedeira depois de ser abandonada pelo marido no dia em que deu à luz sua primeira filha. No recém-lançado Férias! (tradução de Heloisa Maria Leal; Bertrand Brasil; 564 páginas; 49 reais), a protagonista é Rachel, uma das quatro irmãs daquela personagem – e dona de uma vida igualmente desestruturada.

Férias! é o livro mais autobiográfico da autora. Viciada em álcool e cocaína, Rachel abandona a rotina agitada em Nova York e volta para a casa da família católica, na Irlanda, depois de quase morrer de overdose de antidepressivos. É internada numa clínica de desintoxicação e, entre progressos e recaídas, aos poucos tenta reconstruir a vida e reconquistar o namorado que perdera por causa de seus porres. O texto de Marian contém os lugares-comuns típicos desse gênero de literatura. Mas, graças a seu humor, ela passa longe do tom boboca. Narradora da história, Rachel não perde uma chance de caçoar de seus próprios problemas. No final, recobra sua auto-estima e encontra a redenção pessoal. Exatamente como ocorreu com Marian Keyes. Rica e famosa aos 40 anos, a escritora conquistou algo com que suas personagens – e leitoras – sonham: um marido que se dedica à mulher em tempo integral. Tony, o executivo com quem se casou após largar a bebida (até então Marian só fisgava homens "lunáticos e autodestrutivos"), é quem administra sua agenda. "Sinto remorso por tê-lo feito abandonar a carreira para ser meu secretário. Mas Tony não reclama", brinca ela.

 
Vida bandida

"No fim daquela semana, ficou claro que meus horrores não tinham desaparecido. Era como jogar um videogame. As lembranças voavam na minha direção em alta velocidade, como mísseis. Brigit me implorando às lágrimas que eu parasse de me drogar. Destruí-a com um POW! Eu recobrando os sentidos no chão do banheiro, sem saber se amanhecia ou anoitecia. ZAP! Acordando numa cama desconhecida com um homem idem, sem me lembrar se tinha transado com ele – opa, perdi uma vida com essa. Ou ainda bebendo uma garrafa de champanhe que José deu para Brigit no seu aniversário, e depois negando que tivesse sido eu. CRASH!"

Trecho de Férias!

 
 
 
 
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