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Livros
Mulherzinhas
que sofrem
A irlandesa Marian Keyes faz
sucesso
com suas protagonistas tão
desestruturadas quanto divertidas

Marcelo
Marthe
Jerry Bauer/Opale
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| Marian
Keyes: de alcoólatra mal-amada a uma das mulheres mais ricas
da Irlanda – e mais bem-amadas também |
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Dez anos atrás, a irlandesa Marian Keyes estava no fundo
do poço. Infeliz em sua profissão de advogada e malsucedida
no amor, ela afogava as mágoas na bebida. Em depressão,
tentou o suicídio ingerindo uma dose cavalar de calmantes.
"Foi um período tenebroso. Mas aquele sofrimento teve alguma
utilidade, pois se revelou uma inspiração preciosa",
declarou ela anos mais tarde. E bota inspiração nisso.
Enquanto se tratava numa clínica de reabilitação,
Marian deu os primeiros passos numa atividade que faria dela uma
das maiores fortunas da Irlanda: a de escritora de um gênero
que os críticos rotulam de "literatura de mulherzinha". Assim
como a inglesa Helen Fielding, criadora da personagem Bridget Jones
e expoente mais conhecida do estilo, Marian alcançou o sucesso
com romances que satirizam as inseguranças e desventuras
da mulher moderna. Desde 1995, lançou seis títulos
que venderam 6 milhões de exemplares. As mulheres de suas
histórias são mais velhas e enfrentam carmas bem piores
que os da abilolada Bridget Jones. Em Melancia, seu primeiro
livro, que atingiu a vendagem de 50.000 cópias no Brasil,
a mal-amada Claire cai na bebedeira depois de ser abandonada pelo
marido no dia em que deu à luz sua primeira filha. No recém-lançado
Férias! (tradução de Heloisa
Maria Leal; Bertrand Brasil; 564 páginas; 49 reais), a protagonista
é Rachel, uma das quatro irmãs daquela personagem
e dona de uma vida igualmente desestruturada.
Férias!
é o livro mais autobiográfico da autora. Viciada em
álcool e cocaína, Rachel abandona a rotina agitada
em Nova York e volta para a casa da família católica,
na Irlanda, depois de quase morrer de overdose de antidepressivos.
É internada numa clínica de desintoxicação
e, entre progressos e recaídas, aos poucos tenta reconstruir
a vida e reconquistar o namorado que perdera por causa de seus porres.
O texto de Marian contém os lugares-comuns típicos
desse gênero de literatura. Mas, graças a seu humor,
ela passa longe do tom boboca. Narradora da história, Rachel
não perde uma chance de caçoar de seus próprios
problemas. No final, recobra sua auto-estima e encontra a redenção
pessoal. Exatamente como ocorreu com Marian Keyes. Rica e famosa
aos 40 anos, a escritora conquistou algo com que suas personagens
e leitoras sonham: um marido que se dedica à
mulher em tempo integral. Tony, o executivo com quem se casou após
largar a bebida (até então Marian só fisgava
homens "lunáticos e autodestrutivos"), é quem administra
sua agenda. "Sinto remorso por tê-lo feito abandonar a carreira
para ser meu secretário. Mas Tony não reclama", brinca
ela.
| Vida
bandida
"No
fim daquela semana, ficou claro que meus horrores não
tinham desaparecido. Era como jogar um videogame. As
lembranças voavam na minha direção em alta velocidade,
como mísseis. Brigit me implorando às lágrimas que eu
parasse de me drogar. Destruí-a com um POW! Eu recobrando
os sentidos no chão do banheiro, sem saber se amanhecia
ou anoitecia. ZAP! Acordando numa cama desconhecida
com um homem idem, sem me lembrar se tinha transado
com ele – opa, perdi uma vida com essa. Ou ainda bebendo
uma garrafa de champanhe que José deu para Brigit no
seu aniversário, e depois negando que tivesse sido eu.
CRASH!"
Trecho
de Férias!
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