Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Arquitetura
Como uma rosa de aço

Com a assinatura do arquiteto Frank Gehry
e um investimento de 274 milhões de dólares,
o Walt Disney Concert Hall é a aposta mais
ambiciosa de Los Angeles – musical e urbanística


Sérgio Martins, de Los Angeles


AP
UMA FLOR PARA LILIAN DISNEY
A fachada de aço homenageia a paixão da viúva de Walt Disney por rosas. E tem também fascinado os visitantes, que não conseguem deixar de tocá-la


Galeria de imagens
DA INTERNET
Site oficial

A nova sede da Filarmônica de Los Angeles, inaugurada com um concerto de gala na última quinta-feira, está para a arquitetura assim como uma sinfonia de Stravinsky já esteve para a música: sua dissonância é harmonia. No caso, harmonia em aço reluzente. O nome da mais nova maravilha americana é Walt Disney Concert Hall e, com ela, foi dado um passo crucial na revitalização do centro de Los Angeles – faz parte de um plano da prefeitura da cidade para levar os turistas de volta a essa região, que à noite costuma ser freqüentada por meliantes. A municipalidade gastou um total de 1,2 bilhão de dólares na reconstrução do entorno. O Walt Disney Concert Hall, porém, é a peça mais vistosa desse plano: 274 milhões de dólares foram consumidos no projeto assinado pelo arquiteto canadense Frank Gehry – responsável por marcos arquitetônicos do calibre do Museu Guggenheim de Bilbao (ao qual o novo projeto se assemelha muito) e do Museu Vitra Design, na Alemanha.

Com 27.000 metros quadrados de área e as paredes externas de aço que são a marca registrada de Gehry, a edificação tem fascinado de tal forma os visitantes que muitos deles não se furtam a "vê-la" também com as mãos, manchando a fachada com suas impressões digitais. "Não se pode culpá-los. Essa construção provoca sensações estranhas na gente", diz Deborah Borda, presidente da Associação da Filarmônica de Los Angeles. A construção do conjunto, composto de uma sala de concerto com capacidade para 2.265 pessoas, além de dois pequenos anfiteatros e uma galeria de arte, foi iniciada em 1987, quando Lilian Disney, viúva de Walt Disney, doou 50 milhões de dólares para a obra com a qual desejava homenagear seu marido. Frank Gehry, então já considerado um arquiteto de primeira linha, derrotou os outros 72 candidatos inscritos na licitação promovida pelo Condado de Los Angeles. Mas talvez não seja equivocado dizer que seu maior desafio foi superar as reservas da patrocinadora, que morreu em 1997. "Lilian queria que houvesse espaços verdes e muitas rosas. Além disso, achou as formas que desenhei excessivamente ousadas", diz Gehry. Para persuadi-la, ele lançou mão de um artifício cavalheiresco, entre argumentos mais racionais. "Dei a ela um buquê de rosas brancas e disse que a sala imitaria uma dessas flores", lembra.


Divulgação
UM TUFO DE JUNCOS
A atração da sala principal, para até 2 265 pessoas, é o órgão desenhado por Gehry, que se projeta em direção à platéia

Realmente, se visto das vias expressas que cortam Los Angeles, o Walt Disney Concert Hall se assemelha a uma gigantesca rosa de aço. As proporções do edifício são monumentais. Dentro da sala, a acústica planejada pelo engenheiro japonês Yasuhisa Toyota é perfeita. De qualquer ponto, é possível ouvir tudo – até o mínimo ruído das cadeiras, o que pede uma platéia bem-educada. "Quando me perguntam qual o melhor local para assistir a um concerto no Walt Disney Concert Hall, respondo que qualquer lugar é o ideal", diz o maestro finlandês Esa-Pekka Salonen, diretor artístico e titular da filarmônica. No interior da sala, as poltronas têm cores vivas. São "rosas abstratas", na definição de Gehry, que com elas quis fazer mais uma homenagem a Lilian Disney. As poltronas foram dispostas de forma a que qualquer assento proporcione uma visão completa da orquestra. Outro detalhe que chama atenção é o órgão. Também desenhado pelo arquiteto, ele lembra um tufo de juncos e seus tubos parecem cair sobre a platéia. Gehry o encomendou a uma empresa alemã.

A construção do Walt Disney Concert Hall foi marcada por uma série de empecilhos. O primeiro, e mais curioso, é que a família Disney teve de pedir autorização à companhia que leva seu nome para usá-lo na nova sala. Bem mais sérias foram as dificuldades financeiras que, em 1996, levaram Gehry a abandonar a empreitada. Quando a retomou, o arquiteto foi acometido por uma série de dúvidas, na maioria relativas à acústica da sala. Essas foram resolvidas com dois testes. No primeiro, Salonen e seu primeiro-violino executaram parte de um concerto para violino de Bach. No segundo, a orquestra inteira tocou uma sinfonia de Mozart. Em ambas as ocasiões, o arquiteto derramou-se em lágrimas.

As festividades de inauguração do Walt Disney Concert Hall se estenderam de quinta-feira a sábado e incluíram a estréia de obras do compositor contemporâneo John Adams e de John Williams, mais conhecido pelas trilhas que criou para os filmes de Steven Spielberg. Foi a apoteose de Salonen. Deve-se ao regente boa parte da articulação que permitiu a construção da sede da filarmônica. Tanto que a imprensa americana o comparou ao austríaco Herbert von Karajan e ao inglês Simon Rattle – não musicalmente, enfatize-se. Karajan acompanhou cada detalhe da construção da sede da Filarmônica de Berlim, cuja acústica é reconhecidamente uma das melhores do mundo, e Rattle convenceu a prefeitura de Birmingham a construir uma sala de concertos com um órgão grandioso para aconchegar sua sinfônica. Salonen, de 45 anos, assumiu a Filarmônica de Los Angeles em 1984 e tem aumentado a qualidade e o prestígio da orquestra – no que a inauguração de uma sede, historicamente, é sempre um grande impulso. Seus projetos incluem apresentações de música contemporânea e outras, mais populares, com temas de cinema. "O público de Los Angeles pede eventos dessa natureza", diz. Salonen, cujo estilo de regência é chamado jocosamente de "extravagante" pelos jornais locais, pode não ser tão bom quanto Karajan e Rattle. Mas sabe fazer um barulho danado.

 
 
 
 
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