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Arquitetura
Como
uma rosa
de
aço
Com
a assinatura do arquiteto Frank Gehry
e um investimento de 274 milhões de dólares,
o Walt Disney Concert Hall é a aposta mais
ambiciosa de Los Angeles musical e urbanística

Sérgio
Martins, de Los Angeles
AP
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UMA
FLOR PARA LILIAN DISNEY
A fachada de aço homenageia a paixão da viúva
de Walt Disney por rosas. E tem também fascinado os visitantes,
que não conseguem deixar de tocá-la |
A nova
sede da Filarmônica de Los Angeles, inaugurada com um concerto
de gala na última quinta-feira, está para a arquitetura
assim como uma sinfonia de Stravinsky já esteve para a música:
sua dissonância é harmonia. No caso, harmonia em aço
reluzente. O nome da mais nova maravilha americana é Walt
Disney Concert Hall e, com ela, foi dado um passo crucial na revitalização
do centro de Los Angeles faz parte de um plano da prefeitura
da cidade para levar os turistas de volta a essa região,
que à noite costuma ser freqüentada por meliantes. A
municipalidade gastou um total de 1,2 bilhão de dólares
na reconstrução do entorno. O Walt Disney Concert
Hall, porém, é a peça mais vistosa desse plano:
274 milhões de dólares foram consumidos no projeto
assinado pelo arquiteto canadense Frank Gehry responsável
por marcos arquitetônicos do calibre do Museu Guggenheim de
Bilbao (ao qual o novo projeto se assemelha muito) e do Museu Vitra
Design, na Alemanha.
Com
27.000 metros quadrados de área
e as paredes externas de aço que são a marca registrada
de Gehry, a edificação tem fascinado de tal forma
os visitantes que muitos deles não se furtam a "vê-la"
também com as mãos, manchando a fachada com suas impressões
digitais. "Não se pode culpá-los. Essa construção
provoca sensações estranhas na gente", diz Deborah
Borda, presidente da Associação da Filarmônica
de Los Angeles. A construção do conjunto, composto
de uma sala de concerto com capacidade para 2.265
pessoas, além de dois pequenos anfiteatros e uma galeria
de arte, foi iniciada em 1987, quando Lilian Disney, viúva
de Walt Disney, doou 50 milhões de dólares para a
obra com a qual desejava homenagear seu marido. Frank Gehry, então
já considerado um arquiteto de primeira linha, derrotou os
outros 72 candidatos inscritos na licitação promovida
pelo Condado de Los Angeles. Mas talvez não seja equivocado
dizer que seu maior desafio foi superar as reservas da patrocinadora,
que morreu em 1997. "Lilian queria que houvesse espaços verdes
e muitas rosas. Além disso, achou as formas que desenhei
excessivamente ousadas", diz Gehry. Para persuadi-la, ele lançou
mão de um artifício cavalheiresco, entre argumentos
mais racionais. "Dei a ela um buquê de rosas brancas e disse
que a sala imitaria uma dessas flores", lembra.
Divulgação
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UM
TUFO DE JUNCOS
A atração da sala principal, para até 2
265 pessoas, é o órgão desenhado por Gehry,
que se projeta em direção à platéia
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Realmente,
se visto das vias expressas que cortam Los Angeles, o Walt Disney
Concert Hall se assemelha a uma gigantesca rosa de aço. As
proporções do edifício são monumentais.
Dentro da sala, a acústica planejada pelo engenheiro japonês
Yasuhisa Toyota é perfeita. De qualquer ponto, é possível
ouvir tudo até o mínimo ruído das cadeiras,
o que pede uma platéia bem-educada. "Quando me perguntam
qual o melhor local para assistir a um concerto no Walt Disney Concert
Hall, respondo que qualquer lugar é o ideal", diz o maestro
finlandês Esa-Pekka Salonen, diretor artístico e titular
da filarmônica. No interior da sala, as poltronas têm
cores vivas. São "rosas abstratas", na definição
de Gehry, que com elas quis fazer mais uma homenagem a Lilian Disney.
As poltronas foram dispostas de forma a que qualquer assento proporcione
uma visão completa da orquestra. Outro detalhe que chama
atenção é o órgão. Também
desenhado pelo arquiteto, ele lembra um tufo de juncos e seus tubos
parecem cair sobre a platéia. Gehry o encomendou a uma empresa
alemã.
A
construção do Walt Disney Concert Hall foi marcada
por uma série de empecilhos. O primeiro, e mais curioso,
é que a família Disney teve de pedir autorização
à companhia que leva seu nome para usá-lo na nova
sala. Bem mais sérias foram as dificuldades financeiras que,
em 1996, levaram Gehry a abandonar a empreitada. Quando a retomou,
o arquiteto foi acometido por uma série de dúvidas,
na maioria relativas à acústica da sala. Essas foram
resolvidas com dois testes. No primeiro, Salonen e seu primeiro-violino
executaram parte de um concerto para violino de Bach. No segundo,
a orquestra inteira tocou uma sinfonia de Mozart. Em ambas as ocasiões,
o arquiteto derramou-se em lágrimas.
As
festividades de inauguração do Walt Disney Concert
Hall se estenderam de quinta-feira a sábado e incluíram
a estréia de obras do compositor contemporâneo John
Adams e de John Williams, mais conhecido pelas trilhas que criou
para os filmes de Steven Spielberg. Foi a apoteose de Salonen. Deve-se
ao regente boa parte da articulação que permitiu a
construção da sede da filarmônica. Tanto que
a imprensa americana o comparou ao austríaco Herbert von
Karajan e ao inglês Simon Rattle não musicalmente,
enfatize-se. Karajan acompanhou cada detalhe da construção
da sede da Filarmônica de Berlim, cuja acústica é
reconhecidamente uma das melhores do mundo, e Rattle convenceu a
prefeitura de Birmingham a construir uma sala de concertos com um
órgão grandioso para aconchegar sua sinfônica.
Salonen, de 45 anos, assumiu a Filarmônica de Los Angeles
em 1984 e tem aumentado a qualidade e o prestígio da orquestra
no que a inauguração de uma sede, historicamente,
é sempre um grande impulso. Seus projetos incluem apresentações
de música contemporânea e outras, mais populares, com
temas de cinema. "O público de Los Angeles pede eventos dessa
natureza", diz. Salonen, cujo estilo de regência é
chamado jocosamente de "extravagante" pelos jornais locais, pode
não ser tão bom quanto Karajan e Rattle. Mas sabe
fazer um barulho danado.
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