Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Receita para ser Gisele

Costanza Pascolato lança livro com
dicas para quem sonha em ser modelo


Thaís Oyama

Claudio Rossi
Costanza: bom humor ajuda na carreira; plástica atrapalha


Deve ser mais procurado do que garrafinha de água mineral em bastidores de desfile de moda. Como Ser uma Modelo de Sucesso (Editora Jaboticaba, 25 reais), escrito pela empresária e consultora de moda Costanza Pascolato, em parceria com a jornalista Milly Lacombe, promete contar tudo aquilo que as meninas que sonham em ser Gisele Bündchen sempre quiseram saber. Em formato de bolso, propõe-se a cumprir duas tarefas: desfazer as ilusões de lindinhas que acreditam ser as lentes das câmeras o portal para um mundo glorioso, povoado por Leonardos DiCaprio, e mostrar o que aumenta – e o que derruba – as chances de rostinhos bonitos se transformarem em bem remuneradas Vênus das passarelas.

Entre o óbvio ("vida de modelo é mais dura do que se pensa") e o ululante (o sucesso não chega de jatinho), a autora, com a experiência de seus 64 anos, se esforça para aproximar da terra as cabecinhas que se comprazem em permanecer nas nuvens com afirmações como: "Você é uma mercadoria, igual a uma calça jeans" ou "Não espere encontrar profissionais ternos e gentis, prontos para aplaudir de pé a sua formosura". Dito isso, passa a contar o que de fato interessa às leitoras: o que fazer para dar certo. Na tarefa, mistura dicas práticas (veja quadro abaixo) com histórias ilustrativas vividas por modelos de sucesso: Gisele cansou de ouvir que seu nariz era grande demais e a hoje top Caroline Ribeiro vagou de casting em casting durante cinco anos até emplacar o primeiro contrato, por exemplo.

A intimidade da autora com o assunto não é coisa recém-adquirida. Quando, nos anos 70, a italiana Costanza Pascolato trabalhava como produtora de moda, o mercado brasileiro era tão incipiente que não dispunha de uma única agência de modelos. "Os fotógrafos tinham de descobrir talentos ao acaso. Eu mesma vivia procurando meninas bonitas na fila do cinema", lembra. Hoje, o interesse pela moda é um fenômeno em expansão, a indústria do vestuário é o segundo maior empregador do país e a procura pela carreira nas passarelas é tanta que o último concurso do Riachuelo Mega Model recebeu 650.000 inscrições. Com o crescimento do setor, aumentou a exigência de profissionalismo. "Já tive de mandar parar uma sessão de fotos porque estava todo mundo muito louco, do fotógrafo à modelo. Hoje, isso dificilmente ocorreria. Num mercado em que circulam bilhões de dólares, atitudes assim passaram a ser intoleráveis", diz Costanza. Donas de personalidades instáveis e hábitos duvidosos, portanto, não têm mais espaço. "Kate Moss e Naomi Campbell sobrevivem porque deixaram de ser modelos para se transformar em personagens", explica, citando duas das mulheres mais belas – e malcomportadas – do mundo da moda.

Estrelismo, chiliques e destemperos foram características da geração das supermodels, estrelas dos anos 80 e 90. Hoje, estão em baixa – embora a prática de trocar os sapatos da colega por um par de número menor, segundos antes do desfile, ainda persista (diz-se que a inglesa Jacquetta Wheeler cansou de aplicar a tática contra Gisele). Em alta, garante a consultora, estão atitude, bom humor e bom caráter. Não por coincidência, tudo aquilo que ela vê sobrar em três das mais famosas modelos brasileiras: Gisele – sempre Gisele –, Mariana Weickert e Fernanda Tavares. Inteligência também ajuda, como em qualquer atividade, embora não seja requisito obrigatório no mundo da moda, esclarece. No último desfile de Dolce & Gabbana, o stylist, responsável por "traduzir" o espírito da coleção, orientou as meninas para que desfilassem como se fossem uma mistura de Marlene Dietrich (atriz, cantora e diva) com Courtney Love (atriz, roqueira e armadora de barracos). "As mais burrinhas não entenderam nada", suspira Costanza.

O corpo é de gazela, a cintura tem praticamente a circunferência de um prato de sobremesa e o rosto, bem, só falta corrigir aquele pequeno detalhezinho? Cuidado, aconselha a empresária, lamentando os indícios de cirurgias plásticas e de Botox (em meninas praticamente recém-entradas na adolescência!) detectados na última edição da São Paulo Fashion Week. Certas coisas deveriam ser intocáveis, acredita, lembrando o caso de uma modelo em ascensão, ex-namorada de um ator e empresário (cláusula que praticamente inclui toda a categoria). "É uma menina que aprendeu a ser até sofisticada e que tem um rosto muito contemporâneo, mas o problema é que o seu nariz não pára de diminuir", afirma. "Na moda, esse tipo de intervenção é terrível. Você percebe a artificialidade. E tudo o que é artificial perde valor." Pode até não ser comprovado pela prática, mas acreditem, meninas, palavra de Costanza merece ser levada a sério.

 
Os conselhos de Costanza

Dicas da especialista para as meninas
que só pensam naquilo

Enviar fotos a uma agência é o primeiro passo. Bastam duas: uma de rosto e outra de biquíni. Dispense fotógrafos profissionais e superproduções. Quanto mais natural for o retrato, melhor

Olheiros profissionais jamais andam sem cartão de visita. Lembre-se disso quando for abordada por um suposto caça-talentos. Pode ser um aproveitador

Originalidade é bom, mas magreza é fundamental. O mercado estabelece como medidas-padrão mais de 1,70 metro e 15 quilos a menos do que a altura (por exemplo: se você mede 1,72, deverá pesar 57 quilos; de preferência, menos)

Modelo mal-humorada tem vida curta. "Em moda, do fotógrafo à produtora, todo mundo vive estressado", diz Costanza. "Uma modelo que destrói um bom clima ou piora aquele que já está ruim certamente não será lembrada num segundo trabalho"

Profissional é aquela que sabe lidar com a rejeição. Significa não fazer bico, não cruzar os braços nem fazer cara de ofendida quando alguém a reprovar em um teste

Estilo também conta. "Ser modelo é aceitar o título de ícone da elegância", escreve a empresária. "Portanto, cuide da sua imagem sempre. Se você se destacar por saber se vestir, vai se valorizar"

 
 
 
 
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