Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os livros mais vendidos
 
 
Conjuntura
À espera do espetáculo
do crescimento

Mesmo com a inflação domada,
a popularidade de Lula e equipe cai
enquanto a economia não cresce


Chrystiane Silva

 
Baptistão
Na ilustração, Lula, como Moisés, deixa o povo impaciente à espera de que ele opere o milagre de abrir caminho para o crescimento econômico no mar da recessão


Notícias diárias

Ao completar dez meses do primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso tinha, na percepção popular medida por pesquisas, um governo ligeiramente melhor do que ele. FHC desfrutava 39% de aprovação pessoal e seu governo, 42%. Luiz Inácio Lula da Silva, decorridos os mesmos dez meses, continua sendo a estrela da popularidade em Brasília. Lula é considerado ótimo e bom por 70,6% dos brasileiros ouvidos pela pesquisa CNT/Sensus. Seu governo apenas empata com o de FHC no mesmo período, ambos vistos em perspectiva positiva por cerca de 42% dos entrevistados. Os médicos gostam de dizer que, para as pessoas, "a vida começa aos 40, justamente quando acaba a garantia". Para os governos, a realidade começa quando eles se aproximam do fim do primeiro ano, quando já se passou tempo suficiente para se esgotarem as garantias e imunidades conseguidas com a vitória eleitoral. Portanto, não é inexato dizer que para o governo Lula a prova real de sua capacidade de governar será a partir de agora. A queda de popularidade que as pesquisas mostram são decorrência natural da descoberta da população de que, se os governos podem fazer o mal muito rápida e eficientemente, eles são lentos e desentrosados quando se trata de promover mudanças positivas na sociedade. "A queda de Lula decorre da adaptação das expectativas, pois as pessoas estão descobrindo que é muito improvável, nas condições atuais, que o governo tenha um desempenho bom ou ótimo", diz Marcos Coimbra, do instituto de pesquisa Vox Populi.

É um milagre que Lula esteja ainda tão bem avaliado pelos brasileiros. FHC tinha 39% em um momento econômico extremamente positivo na economia, com um plano econômico radical e bem-sucedido, inflação em queda e crescimento do PIB de quase 4%. Lula tem apoio de sete em cada dez brasileiros, com uma economia que está saindo agora de um período doloroso de ajuste. O desemprego em 12,9% bate recordes históricos. A renda nacional caiu 14,6% em setembro, comparada à do mesmo período do ano passado. Depois de cortar em viagens, carros e artigos de luxo, o brasileiro passou a podar sua lista de supermercado. Na semana passada, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) divulgou que houve uma queda no consumo de 10% quando se compara setembro de 2003 com o mesmo mês de 2002. As principais redes de supermercado do país, Pão de Açúcar e Carrefour, acusam a queda de demanda de forma diferenciada. As vendas do Carrefour desde janeiro caíram 21%. No Pão de Açúcar, as vendas líquidas – quando se desconsidera o efeito da inflação – caíram 9,3% em setembro em relação a setembro de 2002. Por enquanto, o resfriamento da economia ainda não pegou os alimentos. Saíram da lista de compras principalmente os eletroeletrônicos e roupas. No Pão de Açúcar, de todas as vendas feitas entre abril e junho, 82,4% foram de alimentos, número pouco acima do resultado do primeiro trimestre.

Paulo Pinto/AE
O ministro Palocci em rede de TV e rádio: "Finalmente, a inflação está controlada"


O governo Lula iniciou uma ofensiva de propaganda para explicar que a política econômica adotada até agora foi a mais adequada e que os resultados estão a caminho. Em rede de rádio e televisão formada na sexta-feira passada, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o integrante do governo Lula com melhores índices de aprovação nas pesquisas, pediu cooperação aos empresários e um pouco mais de paciência aos brasileiros. "O Brasil agora está pronto para voltar a crescer. O governo está cumprindo a promessa de garantir a estabilidade econômica e agora é preciso que os empresários respondam com o investimento", disse Palocci. Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou pelo quinto mês consecutivo a taxa básica de juros do Banco Central. Ela caiu 1 ponto porcentual, sendo fixada em 19% ao ano. Foi a reafirmação do gradualismo que vem sendo mantido pelas autoridades monetárias brasileiras desde a adoção da política de metas inflacionárias, em 1999. Essa estratégia coloca o controle da inflação como o principal alvo da política monetária, de modo que todos os benefícios e ônus para a economia decorrem do bom senso com que a meta é definida e da exatidão com que é atingida.

Quando Lula assumiu, o país estava diante da ameaça do estouro inflacionário. Havia dois caminhos. O primeiro era apostar na estratégia do crescimento a qualquer custo, pagando o preço em inflação. A rota escolhida foi fazer um aperto monetário com a alta dos juros e um superávit primário de 4,25% do PIB. "A primeira duraria uns dois meses e depois seria só infelicidade. O governo decidiu pela segunda e aproveitou o capital político do presidente", diz Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. Palocci e seus auxiliares conseguiram domar a inflação. Com os recentes cortes de juros espantaram o fantasma da recessão, mas, por enquanto, não conseguiram fazer a economia decolar. Lula prometeu para este ano "o espetáculo do crescimento". Ele não veio e não virá até dezembro. As condições materiais estão lançadas para que ele ocorra em 2004, mas, ainda assim, os analistas têm corrigido para baixo suas expectativas de aumento do PIB no próximo ano. Na média recolhida pelo Relatório de Mercado do Banco Central, que ouve cerca de noventa instituições no país, eles baixaram esse número de 4,5% para 3,2%.

Muitos economistas que apóiam a estratégia de Palocci criticam o excesso de zelo da política gradualista de redução dos juros básicos. Cita-se com freqüência o exemplo de países que subiram violentamente os juros para segurar a inflação e, depois, cortaram as taxas radicalmente para voltar a crescer. Melhor exemplo disso foi dado pela Coréia do Sul na crise asiática de 1997. Ameaçada por uma crise no sistema financeiro, a Coréia colocou os juros nas nuvens. Resultado: a economia afundou. O PIB coreano chegou a cair 7% e o consumo da população teve corte de 11%. No espaço de seis meses, a Coréia cortou 25 pontos porcentuais nos juros e, como conseqüência, no ano seguinte apurou-se um crescimento de 11% do PIB. O Brasil não estaria melhor se em vez do gradualismo tropical adotasse o radicalismo asiático? Os analistas são unânimes em dizer que sim, mas também concordam que os riscos seriam muito maiores. Um estudo feito por Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e Ilan Goldfajn, ex-diretor de Política Econômica do BC, mostra que a adoção da estratégia asiática seria inaplicável no Brasil. A Coréia tinha exportações quase quatro vezes maiores do que as brasileiras. A taxa de juros necessária para dar ao Brasil um choque equivalente ao coreano teria dinamitado a dívida pública. Além disso, nem toda a popularidade de Lula teria tido força para segurar a crise social que o tratamento de choque do tipo asiático provocaria. Se em vez de uma meta de inflação de 8,5% o governo tivesse apontado para uma taxa de 4%, o PIB brasileiro teria mergulhado no abismo. A riqueza nacional encolheria algo como 7% em um ano. Com a política gradualista deve crescer 0,7%. Seja qual for o método, é bom que a economia se reaqueça logo. Nem Lula, com sua popularidade, barba e aura de profeta, pode segurar por muito tempo a insatisfação popular com a estagnação econômica.


Com reportagem de
Leandra Peres

 

 

 

 
 
 
topo voltar