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Conjuntura
À
espera do espetáculo
do crescimento
Mesmo com a inflação domada,
a popularidade de Lula e equipe cai
enquanto a economia não cresce

Chrystiane
Silva
Baptistão
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| Na
ilustração, Lula, como Moisés, deixa o povo impaciente à espera
de que ele opere o milagre de abrir caminho para o crescimento
econômico no mar da recessão |
Ao
completar dez meses do primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso
tinha, na percepção popular medida por pesquisas,
um governo ligeiramente melhor do que ele. FHC desfrutava 39% de
aprovação pessoal e seu governo, 42%. Luiz Inácio
Lula da Silva, decorridos os mesmos dez meses, continua sendo a
estrela da popularidade em Brasília. Lula é considerado
ótimo e bom por 70,6% dos brasileiros ouvidos pela pesquisa
CNT/Sensus. Seu governo apenas empata com o de FHC no mesmo período,
ambos vistos em perspectiva positiva por cerca de 42% dos entrevistados.
Os médicos gostam de dizer que, para as pessoas, "a vida
começa aos 40, justamente quando acaba a garantia". Para
os governos, a realidade começa quando eles se aproximam
do fim do primeiro ano, quando já se passou tempo suficiente
para se esgotarem as garantias e imunidades conseguidas com a vitória
eleitoral. Portanto, não é inexato dizer que para
o governo Lula a prova real de sua capacidade de governar será
a partir de agora. A queda de popularidade que as pesquisas mostram
são decorrência natural da descoberta da população
de que, se os governos podem fazer o mal muito rápida e eficientemente,
eles são lentos e desentrosados quando se trata de promover
mudanças positivas na sociedade. "A queda de Lula decorre
da adaptação das expectativas, pois as pessoas estão
descobrindo que é muito improvável, nas condições
atuais, que o governo tenha um desempenho bom ou ótimo",
diz Marcos Coimbra, do instituto de pesquisa Vox Populi.
É
um milagre que Lula esteja ainda tão bem avaliado pelos brasileiros.
FHC tinha 39% em um momento econômico extremamente positivo
na economia, com um plano econômico radical e bem-sucedido,
inflação em queda e crescimento do PIB de quase 4%.
Lula tem apoio de sete em cada dez brasileiros, com uma economia
que está saindo agora de um período doloroso de ajuste.
O desemprego em 12,9% bate recordes históricos. A renda nacional
caiu 14,6% em setembro, comparada à do mesmo período
do ano passado. Depois de cortar em viagens, carros e artigos de
luxo, o brasileiro passou a podar sua lista de supermercado. Na
semana passada, a Associação Brasileira de Supermercados
(Abras) divulgou que houve uma queda no consumo de 10% quando se
compara setembro de 2003 com o mesmo mês de 2002. As principais
redes de supermercado do país, Pão de Açúcar
e Carrefour, acusam a queda de demanda de forma diferenciada. As
vendas do Carrefour desde janeiro caíram 21%. No Pão
de Açúcar, as vendas líquidas quando
se desconsidera o efeito da inflação caíram
9,3% em setembro em relação a setembro de 2002. Por
enquanto, o resfriamento da economia ainda não pegou os alimentos.
Saíram da lista de compras principalmente os eletroeletrônicos
e roupas. No Pão de Açúcar, de todas as vendas
feitas entre abril e junho, 82,4% foram de alimentos, número
pouco acima do resultado do primeiro trimestre.
Paulo Pinto/AE
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| O
ministro Palocci em rede de TV e rádio: "Finalmente, a inflação
está controlada" |
O governo Lula iniciou uma ofensiva de propaganda para explicar
que a política econômica adotada até agora foi
a mais adequada e que os resultados estão a caminho. Em rede
de rádio e televisão formada na sexta-feira passada,
o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o integrante do governo
Lula com melhores índices de aprovação nas
pesquisas, pediu cooperação aos empresários
e um pouco mais de paciência aos brasileiros. "O Brasil agora
está pronto para voltar a crescer. O governo está
cumprindo a promessa de garantir a estabilidade econômica
e agora é preciso que os empresários respondam com
o investimento", disse Palocci. Na semana passada, o Comitê
de Política Monetária (Copom) cortou pelo quinto mês
consecutivo a taxa básica de juros do Banco Central. Ela
caiu 1 ponto porcentual, sendo fixada em 19% ao ano. Foi a reafirmação
do gradualismo que vem sendo mantido pelas autoridades monetárias
brasileiras desde a adoção da política de metas
inflacionárias, em 1999. Essa estratégia coloca o
controle da inflação como o principal alvo da política
monetária, de modo que todos os benefícios e ônus
para a economia decorrem do bom senso com que a meta é definida
e da exatidão com que é atingida.
Quando Lula assumiu, o país estava diante da ameaça
do estouro inflacionário. Havia dois caminhos. O primeiro
era apostar na estratégia do crescimento a qualquer custo,
pagando o preço em inflação. A rota escolhida
foi fazer um aperto monetário com a alta dos juros e um superávit
primário de 4,25% do PIB. "A primeira duraria uns dois meses
e depois seria só infelicidade. O governo decidiu pela segunda
e aproveitou o capital político do presidente", diz Mailson
da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. Palocci e seus auxiliares
conseguiram domar a inflação. Com os recentes cortes
de juros espantaram o fantasma da recessão, mas, por enquanto,
não conseguiram fazer a economia decolar. Lula prometeu para
este ano "o espetáculo do crescimento". Ele não veio
e não virá até dezembro. As condições
materiais estão lançadas para que ele ocorra em 2004,
mas, ainda assim, os analistas têm corrigido para baixo suas
expectativas de aumento do PIB no próximo ano. Na média
recolhida pelo Relatório de Mercado do Banco Central, que
ouve cerca de noventa instituições no país,
eles baixaram esse número de 4,5% para 3,2%.
Muitos economistas que apóiam a estratégia de Palocci
criticam o excesso de zelo da política gradualista de redução
dos juros básicos. Cita-se com freqüência o exemplo
de países que subiram violentamente os juros para segurar
a inflação e, depois, cortaram as taxas radicalmente
para voltar a crescer. Melhor exemplo disso foi dado pela Coréia
do Sul na crise asiática de 1997. Ameaçada por uma
crise no sistema financeiro, a Coréia colocou os juros nas
nuvens. Resultado: a economia afundou. O PIB coreano chegou a cair
7% e o consumo da população teve corte de 11%. No
espaço de seis meses, a Coréia cortou 25 pontos porcentuais
nos juros e, como conseqüência, no ano seguinte apurou-se
um crescimento de 11% do PIB. O Brasil não estaria melhor
se em vez do gradualismo tropical adotasse o radicalismo asiático?
Os analistas são unânimes em dizer que sim, mas também
concordam que os riscos seriam muito maiores. Um estudo feito por
Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e Ilan Goldfajn,
ex-diretor de Política Econômica do BC, mostra que
a adoção da estratégia asiática seria
inaplicável no Brasil. A Coréia tinha exportações
quase quatro vezes maiores do que as brasileiras. A taxa de juros
necessária para dar ao Brasil um choque equivalente ao coreano
teria dinamitado a dívida pública. Além disso,
nem toda a popularidade de Lula teria tido força para segurar
a crise social que o tratamento de choque do tipo asiático
provocaria. Se em vez de uma meta de inflação de 8,5%
o governo tivesse apontado para uma taxa de 4%, o PIB brasileiro
teria mergulhado no abismo. A riqueza nacional encolheria algo como
7% em um ano. Com a política gradualista deve crescer 0,7%.
Seja qual for o método, é bom que a economia se reaqueça
logo. Nem Lula, com sua popularidade, barba e aura de profeta, pode
segurar por muito tempo a insatisfação popular com
a estagnação econômica.
Com reportagem de Leandra Peres
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