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Mulher
O
sonho das feministas
É
a sociedade sonhada pelas mulheres.
Na Finlândia, elas estão por toda parte
e comandam até o governo

Daniela
Pinheiro, de Helsinque
Reuters
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| Tarja
Halonen: a primeira presidente do país é um fenômeno de popularidade
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Nesta quinta-feira, a presidente da Finlândia, Tarja Halonen,
um fenômeno de popularidade em seu país, desembarca
no Brasil para uma visita de cinco dias. Acompanhada de uma comitiva
de sessenta pessoas, ela vai se encontrar com o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e com uma dezena de empresários
e políticos. Na prática, nada de retumbante acontecerá.
Não se assinará nenhum acordo nem se discutirá
nenhum tema de relevância internacional. A viagem é
somente um rito protocolar de uma nação que nos últimos
anos passou a investir pesado em solo brasileiro. Mas a visita pode
deixar lições. Há que prestar atenção
na presidente e em seu país. Menos pelo lado econômico
e mais pelo político. Assim, pode-se ter idéia de
como o debate sobre igualdade entre os sexos atingiu sua excelência.
A Finlândia é o país onde mais mulheres ocupam
altos cargos na burocracia interna. Em geral, mulheres em funções
de tamanha responsabilidade são exceção mesmo
em países do Primeiro Mundo. Na Finlândia, são
quase uma regra.
São mulheres: a presidente, a prefeita da capital e a governadora
da Finlândia Oriental, a maior província. Elas também
são 75 dos 200 parlamentares e dez dentre os dezoito ministros
de Estado. Ali, também já foram ministras da Defesa,
das Finanças, primeira-ministra e presidente do Parlamento.
É um feito notável. Países como a Suécia
e a Dinamarca contam com um conjunto expressivo de parlamentares
mulheres e algumas ministras, mas o comando dos países é
masculino. O mais curioso é que, para alcançar tal
patamar, não se precisou queimar sutiãs em praça
pública nem fazer uma revolução feminista na
Finlândia. "Foi um processo natural, já que as mulheres,
desde que o país era basicamente agrário, dividiram
o trabalho igualmente com os homens e participaram de sindicatos
e organizações de classe. A voz feminina sempre foi
ouvida", diz Leila Räsänen, responsável pelas questões
de gênero no governo. É raro. Nos Estados Unidos, por
exemplo, o número de mulheres no poder é ainda pífio.
A presença no Parlamento não passa dos 14%. Na França,
elas são apenas 12% e, no Brasil, menos de 10%.
A social-democrata Halonen é considerada a maior formadora
de opinião do país. Durante a campanha eleitoral,
que disputou com três homens e outras três mulheres,
ela seduziu os finlandeses (principalmente as finlandesas) por seu
discurso ligado a causas sociais, além de ter um perfil muito
parecido com o da maioria das compatriotas: era mãe solteira
e mantinha uma relação de anos com um homem que era
seu vizinho e com quem veio a se casar formalmente depois
de eleita, a pedido do cerimonial, para que ele não fosse
tratado apenas como um "acessório" nas solenidades oficiais.
"Muitas mulheres votaram em Halonen pelo simples fato de ela ser
mulher, o que não deixa de ser legítimo", disse a
VEJA Leena Ruusuvuori, secretária-geral do Conselho Nacional
de Mulheres da Finlândia.
A importância da presença feminina é visível
no governo, a começar pela composição do ministério.
Dentre as dez ministras, sem dúvida a figura mais popular
é a da Cultura, a ex-miss Finlândia Tanja Karpela,
de 33 anos. Ex-modelo de anúncios de lingerie, ela é
uma sensação nacional. Suas roupas, seu cabelo e seu
perfume costumam repercutir mais do que suas reuniões políticas.
Muitos afirmam que a escolha foi mais uma jogada de marketing do
que mérito. Na época de sua nomeação,
um jornal sensacionalista de Helsinque estampou na primeira página
a seguinte manchete: "Alguém acredita que ela já foi
a uma ópera?".
AFP
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| A
jovem ministra Lehtomäki: currículo brilhante e pose ousada
em revista masculina |
Outra
ministra pop é a jovem Paula Lehtomäki, de apenas 30
anos, da pasta de Comércio e Desenvolvimento. Com um perfil
de solteira workaholic e um currículo invejável, ela
surpreendeu os finlandeses ao posar para a capa de uma revista masculina
(vestida, claro, mas com um decote ousadíssimo para uma autoridade).
"Acho que a capa ficou chamativa, mas na entrevista só falei
do meu trabalho. Muita gente achou chato, preferia que eu tivesse
falado de mim", disse a ministra a VEJA. Acostumada a ser a única
mulher em reuniões internacionais de sua área, ela
não reclama: "Pelo menos, todo mundo decora quem é
a ministra do Comércio". A presença feminina seria
ainda mais contundente no atual governo se a primeira-ministra Anneli
Jäätteenmäki não tivesse renunciado ao cargo.
Acusada de mentir sobre a origem de informações confidenciais
usadas durante sua campanha eleitoral, ela renunciou dois meses
depois da posse, no início do ano.
Estudiosos do tema arriscam teorias para explicar as razões
do sucesso das finlandesas na vida pública. Além do
passado de trabalhar fora desde sempre, um fato determinante são
as eficientes creches municipais previstas em lei, que permitem
à mãe (depois de uma licença-maternidade de
onze meses, prorrogável por até três anos) trabalhar
fora sem remorso. Outro fator, segundo especialistas, é o
próprio temperamento nórdico, que faz com que a mulher
não se sinta obrigada a assumir as funções
domésticas. Nem mais nem menos que os homens. Fora isso,
há imenso interesse nacional em promover a questão
feminina. "O político ou o empresário que não
enfatiza esse assunto não tem futuro", afirma a historiadora
Päivi Setälä, mulher do ex-premiê Paavo Lipponen,
especialista no assunto.
Reprodução Revista Mies
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| A
ministra Karpela: criticada por já ter estrelado anúncios de
lingerie |
Curiosamente, a supremacia no setor público não se
repete no âmbito das empresas privadas. Elas ocupam apenas
2% dos cargos de presidente, por exemplo. "As mulheres ainda são
maioria nas áreas de humanas. Acredito que teriam de reorientar
desde cedo seus interesses para áreas consideradas masculinas,
como a engenharia, para ser CEOs de empresas de tecnologia, as maiores
que temos por aqui", afirma Eric Forsman, diretor da Confederação
da Indústria e dos Empregadores, a Fiesp de lá. Há
também uma diferença salarial entre homens e mulheres.
O salário delas é 20% menor. É por isso que
a executiva Sari Baldauf, presidente da Nokia Networks, um negócio
de 7 bilhões de dólares, se tornou uma referência
no país. Considerada uma das quinze mulheres mais poderosas
do mundo, segundo a revista Fortune, seu maior feito foi
ter livrado a empresa de um grande desastre financeiro mantendo
empregos e o prestígio da companhia no momento de maior crise
do setor.
Se a Finlândia detém indicadores expressivos de progresso
no campo político, no de consumo em comunicação
(é a campeã em inscrições na internet
e 90% da população tem celular) e no de honestidade
(é tida como o país menos corrupto do mundo, de acordo
com estudo da ONG Transparência Internacional), no que diz
respeito à vida privada há um esqueleto enterrado
no jardim. Ali, os índices de violência doméstica
explodem a cada ano. Segundo pesquisa recente, 25% das mulheres
apanham do marido, um dos maiores porcentuais do mundo. E note-se:
o perfil do agressor é o jovem casado, na faixa de 35 anos,
de classe média alta. "Os indícios apontam que a razão
da agressão não é o alcoolismo, também
um problema sério no país, mas, sim, uma tentativa
de homens inseguros de controlar e subjugar sua mulher, em geral
independente e bem-sucedida", diz Leena Ruusuvuori, do Conselho
Nacional de Mulheres da Finlândia.
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Elas
têm o poder
O
quadro mostra como as mulheres atuam nas
diversas esferas da sociedade finlandesa
Elas estão à frente da Presidência
do país, da prefeitura da capital e do governo
da principal província
Entre os 200 deputados, 75 são mulheres
Elas ocupam 10 de 18 ministérios
Foram as primeiras a ter direito a voto na Europa, em
1906
Têm direito a onze meses de licença-maternidade,
prorrogável por até três anos
São maioria na universidade, principalmente em
cursos de medicina e direito
Ganham 80% do salário deles
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