Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os livros mais vendidos
 
 

Mulher
O sonho das feministas

É a sociedade sonhada pelas mulheres.
Na Finlândia, elas estão por toda parte
e comandam até o governo


Daniela Pinheiro, de Helsinque

 
Reuters
Tarja Halonen: a primeira presidente do país é um fenômeno de popularidade

Nesta quinta-feira, a presidente da Finlândia, Tarja Halonen, um fenômeno de popularidade em seu país, desembarca no Brasil para uma visita de cinco dias. Acompanhada de uma comitiva de sessenta pessoas, ela vai se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com uma dezena de empresários e políticos. Na prática, nada de retumbante acontecerá. Não se assinará nenhum acordo nem se discutirá nenhum tema de relevância internacional. A viagem é somente um rito protocolar de uma nação que nos últimos anos passou a investir pesado em solo brasileiro. Mas a visita pode deixar lições. Há que prestar atenção na presidente e em seu país. Menos pelo lado econômico e mais pelo político. Assim, pode-se ter idéia de como o debate sobre igualdade entre os sexos atingiu sua excelência. A Finlândia é o país onde mais mulheres ocupam altos cargos na burocracia interna. Em geral, mulheres em funções de tamanha responsabilidade são exceção mesmo em países do Primeiro Mundo. Na Finlândia, são quase uma regra.

São mulheres: a presidente, a prefeita da capital e a governadora da Finlândia Oriental, a maior província. Elas também são 75 dos 200 parlamentares e dez dentre os dezoito ministros de Estado. Ali, também já foram ministras da Defesa, das Finanças, primeira-ministra e presidente do Parlamento. É um feito notável. Países como a Suécia e a Dinamarca contam com um conjunto expressivo de parlamentares mulheres e algumas ministras, mas o comando dos países é masculino. O mais curioso é que, para alcançar tal patamar, não se precisou queimar sutiãs em praça pública nem fazer uma revolução feminista na Finlândia. "Foi um processo natural, já que as mulheres, desde que o país era basicamente agrário, dividiram o trabalho igualmente com os homens e participaram de sindicatos e organizações de classe. A voz feminina sempre foi ouvida", diz Leila Räsänen, responsável pelas questões de gênero no governo. É raro. Nos Estados Unidos, por exemplo, o número de mulheres no poder é ainda pífio. A presença no Parlamento não passa dos 14%. Na França, elas são apenas 12% e, no Brasil, menos de 10%.

A social-democrata Halonen é considerada a maior formadora de opinião do país. Durante a campanha eleitoral, que disputou com três homens e outras três mulheres, ela seduziu os finlandeses (principalmente as finlandesas) por seu discurso ligado a causas sociais, além de ter um perfil muito parecido com o da maioria das compatriotas: era mãe solteira e mantinha uma relação de anos com um homem que era seu vizinho – e com quem veio a se casar formalmente depois de eleita, a pedido do cerimonial, para que ele não fosse tratado apenas como um "acessório" nas solenidades oficiais. "Muitas mulheres votaram em Halonen pelo simples fato de ela ser mulher, o que não deixa de ser legítimo", disse a VEJA Leena Ruusuvuori, secretária-geral do Conselho Nacional de Mulheres da Finlândia.

A importância da presença feminina é visível no governo, a começar pela composição do ministério. Dentre as dez ministras, sem dúvida a figura mais popular é a da Cultura, a ex-miss Finlândia Tanja Karpela, de 33 anos. Ex-modelo de anúncios de lingerie, ela é uma sensação nacional. Suas roupas, seu cabelo e seu perfume costumam repercutir mais do que suas reuniões políticas. Muitos afirmam que a escolha foi mais uma jogada de marketing do que mérito. Na época de sua nomeação, um jornal sensacionalista de Helsinque estampou na primeira página a seguinte manchete: "Alguém acredita que ela já foi a uma ópera?".

 
AFP
A jovem ministra Lehtomäki: currículo brilhante e pose ousada em revista masculina

Outra ministra pop é a jovem Paula Lehtomäki, de apenas 30 anos, da pasta de Comércio e Desenvolvimento. Com um perfil de solteira workaholic e um currículo invejável, ela surpreendeu os finlandeses ao posar para a capa de uma revista masculina (vestida, claro, mas com um decote ousadíssimo para uma autoridade). "Acho que a capa ficou chamativa, mas na entrevista só falei do meu trabalho. Muita gente achou chato, preferia que eu tivesse falado de mim", disse a ministra a VEJA. Acostumada a ser a única mulher em reuniões internacionais de sua área, ela não reclama: "Pelo menos, todo mundo decora quem é a ministra do Comércio". A presença feminina seria ainda mais contundente no atual governo se a primeira-ministra Anneli Jäätteenmäki não tivesse renunciado ao cargo. Acusada de mentir sobre a origem de informações confidenciais usadas durante sua campanha eleitoral, ela renunciou dois meses depois da posse, no início do ano.

Estudiosos do tema arriscam teorias para explicar as razões do sucesso das finlandesas na vida pública. Além do passado de trabalhar fora desde sempre, um fato determinante são as eficientes creches municipais previstas em lei, que permitem à mãe (depois de uma licença-maternidade de onze meses, prorrogável por até três anos) trabalhar fora sem remorso. Outro fator, segundo especialistas, é o próprio temperamento nórdico, que faz com que a mulher não se sinta obrigada a assumir as funções domésticas. Nem mais nem menos que os homens. Fora isso, há imenso interesse nacional em promover a questão feminina. "O político ou o empresário que não enfatiza esse assunto não tem futuro", afirma a historiadora Päivi Setälä, mulher do ex-premiê Paavo Lipponen, especialista no assunto.

Reprodução Revista Mies
A ministra Karpela: criticada por já ter estrelado anúncios de lingerie


Curiosamente, a supremacia no setor público não se repete no âmbito das empresas privadas. Elas ocupam apenas 2% dos cargos de presidente, por exemplo. "As mulheres ainda são maioria nas áreas de humanas. Acredito que teriam de reorientar desde cedo seus interesses para áreas consideradas masculinas, como a engenharia, para ser CEOs de empresas de tecnologia, as maiores que temos por aqui", afirma Eric Forsman, diretor da Confederação da Indústria e dos Empregadores, a Fiesp de lá. Há também uma diferença salarial entre homens e mulheres. O salário delas é 20% menor. É por isso que a executiva Sari Baldauf, presidente da Nokia Networks, um negócio de 7 bilhões de dólares, se tornou uma referência no país. Considerada uma das quinze mulheres mais poderosas do mundo, segundo a revista Fortune, seu maior feito foi ter livrado a empresa de um grande desastre financeiro mantendo empregos e o prestígio da companhia no momento de maior crise do setor.

Se a Finlândia detém indicadores expressivos de progresso no campo político, no de consumo em comunicação (é a campeã em inscrições na internet e 90% da população tem celular) e no de honestidade (é tida como o país menos corrupto do mundo, de acordo com estudo da ONG Transparência Internacional), no que diz respeito à vida privada há um esqueleto enterrado no jardim. Ali, os índices de violência doméstica explodem a cada ano. Segundo pesquisa recente, 25% das mulheres apanham do marido, um dos maiores porcentuais do mundo. E note-se: o perfil do agressor é o jovem casado, na faixa de 35 anos, de classe média alta. "Os indícios apontam que a razão da agressão não é o alcoolismo, também um problema sério no país, mas, sim, uma tentativa de homens inseguros de controlar e subjugar sua mulher, em geral independente e bem-sucedida", diz Leena Ruusuvuori, do Conselho Nacional de Mulheres da Finlândia.

 

Elas têm o poder

O quadro mostra como as mulheres atuam nas
diversas esferas da sociedade finlandesa

Elas estão à frente da Presidência do país, da prefeitura da capital e do governo da principal província

Entre os 200 deputados, 75 são mulheres

Elas ocupam 10 de 18 ministérios

Foram as primeiras a ter direito a voto na Europa, em 1906

Têm direito a onze meses de licença-maternidade, prorrogável por até três anos

São maioria na universidade, principalmente em cursos de medicina e direito

Ganham 80% do salário deles

 
 
 
 
topo voltar