Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Tabagismo
A revolta dos fumantes

Governo francês aumenta o preço
dos cigarros, e tabacarias reagem
com greve
e protestos

 
AP
Vendedores de tabaco queimam caixas em Estrasburgo: mais de sessenta protestos contra aumento


Galeria de fotos: as novas imagens dos maços brasileiros
VEJA Saúde

A França parecia imune às medidas antitabagistas adotadas nos Estados Unidos, no Canadá e até mesmo no Brasil. Na terra dos cafés enfumaçados e dos fortíssimos cigarros Gauloises, fumar é considerado chique e é tarefa quase impossível encontrar uma área exclusiva para não-fumantes em um restaurante. Embora existam leis de restrição, fuma-se em toda parte: nas estações de trem, nas plataformas do metrô, nas áreas de espera dos aeroportos. Pedir que alguém apague o cigarro é considerado um ato de agressão. Agora, parece que a farra dos fumantes vai acabar até na França. Na semana passada, o governo aumentou o preço dos cigarros em 20%. O reajuste – um maço passou a custar, em média, 4,60 euros, um dos mais caros da Europa – é o segundo do ano e faz parte da mais agressiva campanha antitabagista já realizada pelo governo francês.

Em resposta ao aumento, as tabacarias fizeram uma inédita e insólita greve. Houve protestos em todo o país e 90% das 34.000 tabacarias fecharam as portas por um dia. Representantes da Confederação Nacional dos Vendedores de Tabaco acusam o governo de não estar preocupado com a saúde da população, mas sim em tapar um rombo no Orçamento, usando o imposto punitivo como pretexto. Os vendedores de cigarros têm bons argumentos, difíceis de contestar: afirmam que a alta dos preços vai incrementar o contrabando e fazer com que mais pessoas cruzem a fronteira para comprar cigarros da Espanha, muito mais baratos. Tudo isso provavelmente vai ocorrer – mesmo assim, o governo não deixa de ter razão quando diz que somente no ano passado 66.000 franceses morreram de doenças ligadas ao fumo e que elevar os preços é uma das medidas mais efetivas para reduzir o consumo. "Um aumento de 25% significa redução de 10% no consumo de cigarros", diz o ministro da Saúde, Jean-François Mattei. "E isso vai evitar 10.000 mortes por ano."

 
Fotos divulgação
Novas imagens que estarão estampadas nos maços de cigarro brasileiros: a idéia é causar mais impacto e divulgar mais informações sobre os efeitos negativos do fumo

Por enquanto, os números parecem dar razão ao ministro: nos primeiros oito meses deste ano, depois do primeiro aumento nos impostos, as vendas de cigarro caíram 8,2%. Apesar da greve, não houve falta do produto. Os cafés parisienses continuaram a vender cigarros. Fumando tranqüilamente no Café Washington, no Champs-Élysées, a estudante Nina Carlondes dizia que o aumento de preços não fará com que ela largue o vício. "Viajo muito para a Espanha e vou aproveitar para comprar meus cigarros quando estiver lá", afirmou. Ao mesmo tempo em que aumentam o preço, as autoridades francesas adotam outras medidas para combater o fumo: a compra de tabaco por menores de 16 anos foi proibida e os maços menores e mais baratos, os preferidos pelos jovens, não serão mais vendidos. O governo francês também está pressionando a indústria de cinema a parar de exibir fumantes com glamour. A preocupação com os jovens é justificada porque, embora a porcentagem total de fumantes franceses tenha caído de 45% para 32% nos últimos dez anos, entre eles e as mulheres a taxa aumentou. Na população com idade de 12 a 25 anos, a proporção de garotas que fumam (36,5%) já é praticamente igual à dos rapazes (36,8%). O número total de mulheres fumantes passou de 10% para 26%. Os médicos estimam que um terço delas continue fumando mesmo durante a gravidez.

A ofensiva contra o cigarro, antes uma mania americana, atinge toda a Europa Ocidental. No fim de 2002, a União Européia decidiu que, a partir de julho de 2005, serão proibidas propagandas de cigarro em rádio, TV, jornais e revistas. A Irlanda proibirá que se fume nos pubs a partir de janeiro. Na Noruega, o fumo será banido de bares e restaurantes. A mesma restrição começa a vigorar na Holanda em 2005. "Em breve, o cigarro será banido de bares, cafés e restaurantes de toda a Europa", afirma o comissário de saúde da União Européia David Byrne. "É apenas uma questão de tempo." Em outubro do ano que vem, os países da Europa começarão a usar nas embalagens imagens associadas aos malefícios do cigarro semelhantes às que os fumantes brasileiros estão acostumados a ver desde o ano passado. Na última quarta-feira, o ministro da Saúde, Humberto Costa, anunciou que, em um prazo de nove meses, dez novas imagens, ainda mais contundentes, serão estampadas nos maços, que também trarão novas informações sobre os danos ao organismo causados pelo fumo. Para o ministério, as imagens atuais já estariam perdendo o impacto.

Na França, a briga entre governo e fumantes deve ter um novo capítulo no início do próximo ano, para quando está programado um novo aumento no preço dos cigarros. O valor médio chegará a 5,40 euros. Atingidos duramente no lugar mais sensível, o bolso, talvez os fumantes franceses finalmente se convençam de que fumar pode de fato causar sérios problemas à saúde. Nem que seja a saúde financeira.

 
 
 
 
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