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Tabagismo
A
revolta dos fumantes
Governo
francês
aumenta o preço
dos cigarros, e tabacarias reagem
com greve
e protestos
AP
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| Vendedores
de tabaco queimam caixas em Estrasburgo: mais de sessenta protestos
contra aumento |
A
França parecia imune às medidas antitabagistas adotadas
nos Estados Unidos, no Canadá e até mesmo no Brasil.
Na terra dos cafés enfumaçados e dos fortíssimos
cigarros Gauloises, fumar é considerado chique e é
tarefa quase impossível encontrar uma área exclusiva
para não-fumantes em um restaurante. Embora existam leis
de restrição, fuma-se em toda parte: nas estações
de trem, nas plataformas do metrô, nas áreas de espera
dos aeroportos. Pedir que alguém apague o cigarro é
considerado um ato de agressão. Agora, parece que a farra
dos fumantes vai acabar até na França. Na semana passada,
o governo aumentou o preço dos cigarros em 20%. O reajuste
um maço passou a custar, em média, 4,60 euros,
um dos mais caros da Europa é o segundo do ano e faz
parte da mais agressiva campanha antitabagista já realizada
pelo governo francês.
Em
resposta ao aumento, as tabacarias fizeram uma inédita e
insólita greve. Houve protestos em todo o país e 90%
das 34.000 tabacarias fecharam as portas por um dia. Representantes
da Confederação Nacional dos Vendedores de Tabaco
acusam o governo de não estar preocupado com a saúde
da população, mas sim em tapar um rombo no Orçamento,
usando o imposto punitivo como pretexto. Os vendedores de cigarros
têm bons argumentos, difíceis de contestar: afirmam
que a alta dos preços vai incrementar o contrabando e fazer
com que mais pessoas cruzem a fronteira para comprar cigarros da
Espanha, muito mais baratos. Tudo isso provavelmente vai ocorrer
mesmo assim, o governo não deixa de ter razão
quando diz que somente no ano passado 66.000 franceses morreram
de doenças ligadas ao fumo e que elevar os preços
é uma das medidas mais efetivas para reduzir o consumo. "Um
aumento de 25% significa redução de 10% no consumo
de cigarros", diz o ministro da Saúde, Jean-François
Mattei. "E isso vai evitar 10.000 mortes por ano."
Fotos divulgação
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| Novas
imagens que estarão estampadas nos maços de cigarro brasileiros:
a idéia é causar mais impacto e divulgar mais informações sobre
os efeitos negativos do fumo |
Por
enquanto, os números parecem dar razão ao ministro:
nos primeiros oito meses deste ano, depois do primeiro aumento nos
impostos, as vendas de cigarro caíram 8,2%. Apesar da greve,
não houve falta do produto. Os cafés parisienses continuaram
a vender cigarros. Fumando tranqüilamente no Café Washington,
no Champs-Élysées, a estudante Nina Carlondes dizia
que o aumento de preços não fará com que ela
largue o vício. "Viajo muito para a Espanha e vou aproveitar
para comprar meus cigarros quando estiver lá", afirmou. Ao
mesmo tempo em que aumentam o preço, as autoridades francesas
adotam outras medidas para combater o fumo: a compra de tabaco por
menores de 16 anos foi proibida e os maços menores e mais
baratos, os preferidos pelos jovens, não serão mais
vendidos. O governo francês também está pressionando
a indústria de cinema a parar de exibir fumantes com glamour.
A preocupação com os jovens é justificada porque,
embora a porcentagem total de fumantes franceses tenha caído
de 45% para 32% nos últimos dez anos, entre eles e as mulheres
a taxa aumentou. Na população com idade de 12 a 25
anos, a proporção de garotas que fumam (36,5%) já
é praticamente igual à dos rapazes (36,8%). O número
total de mulheres fumantes passou de 10% para 26%. Os médicos
estimam que um terço delas continue fumando mesmo durante
a gravidez.
A
ofensiva contra o cigarro, antes uma mania americana, atinge toda
a Europa Ocidental. No fim de 2002, a União Européia
decidiu que, a partir de julho de 2005, serão proibidas propagandas
de cigarro em rádio, TV, jornais e revistas. A Irlanda proibirá
que se fume nos pubs a partir de janeiro. Na Noruega, o fumo será
banido de bares e restaurantes. A mesma restrição
começa a vigorar na Holanda em 2005. "Em breve, o cigarro
será banido de bares, cafés e restaurantes de toda
a Europa", afirma o comissário de saúde da União
Européia David Byrne. "É apenas uma questão
de tempo." Em outubro do ano que vem, os países da Europa
começarão a usar nas embalagens imagens associadas
aos malefícios do cigarro semelhantes às que os fumantes
brasileiros estão acostumados a ver desde o ano passado.
Na última quarta-feira, o ministro da Saúde, Humberto
Costa, anunciou que, em um prazo de nove meses, dez novas imagens,
ainda mais contundentes, serão estampadas nos maços,
que também trarão novas informações
sobre os danos ao organismo causados pelo fumo. Para o ministério,
as imagens atuais já estariam perdendo o impacto.
Na França, a briga entre governo e fumantes deve ter um novo
capítulo no início do próximo ano, para quando
está programado um novo aumento no preço dos cigarros.
O valor médio chegará a 5,40 euros. Atingidos duramente
no lugar mais sensível, o bolso, talvez os fumantes franceses
finalmente se convençam de que fumar pode de fato causar
sérios problemas à saúde. Nem que seja a saúde
financeira.
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