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Estado
Sem medo de ser xerife
Novo
procurador-geral cutuca
o governo, acelera denúncias
e imprime novo ritmo ao MP

Alexandre Oltramari
Luiz Antonio
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| Fonteles,
o procurador-geral: promessa de ficar só dois anos e de recusar
a recondução |
O carioca Cláudio Fonteles, 57 anos, há quatro meses
no comando do Ministério Público Federal, já
produziu alguma história. Primeiro, veio a público
defender as invasões de terra, desde que pacíficas
e em propriedades ociosas, mas, como falou no auge das badernas
dos sem-terra, deixou a impressão de que pretendia defender
a prática do MST. Na semana passada, Fonteles voltou a chamar
a atenção ao tornar-se o primeiro chefe do Ministério
Público a fazer uma advertência direta ao presidente
da República. Em documento de seis páginas, enviado
ao presidente Lula na tarde de quarta-feira, Fonteles recomendou
ao governo que refizesse as contas do Orçamento de 2004 para
acrescentar 4 bilhões de reais às despesas com saúde,
cumprindo assim o que determina a Constituição. No
mesmo dia, os parlamentares ligados à área da saúde
deixaram-se fotografar vestindo jalecos de médico no Congresso,
numa manifestação que pedia o total constitucional
de verbas para o setor ou seja: 32,9 bilhões de reais.
À noite, o governo acatou a recomendação de
Fonteles e adicionou os 4 bilhões que faltavam.
Até agora, Cláudio Fonteles enfrenta sem receio o
governo que o nomeou. Em quatro meses, já apresentou denúncia
contra dezenove deputados e ex-deputados, quatro senadores e três
ex-governadores. Descontados os sábados e domingos, dá
uma média de uma vítima a cada três dias. "Sabe
que eu nunca tinha feito essa conta?", diz. "Problema deles, não
é?", diverte-se. Nesse período, Fonteles também
já cutucou o governo em outras questões, como a liberação
dos transgênicos e o programa de refinanciamento de dívidas
de empresas com a Receita Federal. Atuando com independência,
Fonteles não quer ser reconduzido ao cargo. Ficará
só os dois anos de praxe. "Na medida em que um procurador
sente que pode ser indefinidamente reconduzido, a tendência
é ele vocacionar-se ao silêncio, à omissão",
explica. É tão contra reconduções que,
vascaíno doente, pretende viajar para o Rio de Janeiro em
novembro só para votar em Roberto Dinamite para a presidência
do clube. É contra a recondução de Eurico Miranda.
O ímpeto e a verve com que redige denúncias
sempre a mão, usando uma prosaica caneta esferográfica
contrastam com seu comportamento pessoal. Com forte sotaque
carioca, apesar de suas quatro décadas de Brasília,
Fonteles é suave e atencioso. Trata os 638 procuradores por
"colegas", mesmo os jovens que acabaram de entrar na carreira, e
esforça-se para manter sua devoção a Cristo.
Católico fervoroso, dá aulas de catequese nas tardes
de sábado e jamais perde a missa no domingo. Com o novo cargo,
porém, teve de mudar sua rotina religiosa. Parou com o curso
de teologia, que vinha freqüentando havia dois anos, e deixou
de visitar uma fazenda mantida por franciscanos nos arredores de
Brasília, onde, todas as terças-feiras, passava a
tarde em rodas de oração e evangelizando dependentes
químicos. "Não acredito em recuperação
de drogados sem uma abertura espiritual", diz ele. Na fazenda dos
franciscanos, o índice de recuperação passa
de 70%. "Olhando, ele parece um santo. É incapaz de falar
mal de alguém", elogia o senador gaúcho Pedro Simon,
que também virou franciscano por influência do próprio
Fonteles.
Joedson Alves
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| No
Congresso, a bancada da saúde reage ao corte de verba: governo
recuou no mesmo dia |
Na
vida pessoal o procurador-geral pode até não falar
mal de ninguém, mas nos autos ele não perdoa. As dezenas
de denúncias que já apresentou em quatro meses, por
si sós, não servem de credencial. Afinal, na crônica
brasileira há uma enxurrada de denúncias que acabam
arquivadas por falta de provas, má formulação
ou inépcia dos investigadores. No caso de Fonteles, porém,
talvez isso queira dizer alguma coisa. Nos dois episódios
mais rumorosos em que atuou antes de assumir a chefia do Ministério
Público, ele acertou na mosca: denunciou a ex-ministra da
Fazenda Zélia Cardoso de Mello e o ex-ministro do Trabalho
Antônio Rogério Magri, ambos integrantes do governo
do ex-presidente Fernando Collor. Os dois foram condenados pela
Justiça. Zélia pegou treze anos de xilindró,
e está recorrendo da sentença. Magri ficou com dois
anos de cana, e também recorre.
Filho de um procurador, Fonteles foi uma escolha pessoal do presidente
Lula. Havia outros dois candidatos fortes um apadrinhado
pelo ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, e
outro apoiado pelo ministro José Dirceu, da Casa Civil. Cláudio
Fonteles acabou prevalecendo por decisão pessoal do presidente,
embora nem ele saiba dizer por quê. Ele conta que esteve com
o presidente apenas uma vez, quando Lula ainda era deputado federal,
durante a elaboração da Constituição,
promulgada em outubro de 1988. Na ocasião, almoçou
com Lula e Luiz Gushiken, atual secretário de Comunicação
do governo. Depois disso, nunca mais se encontraram, nem em fins
de semana. Fonteles adora futebol, mas só pratica vôlei,
sempre aos sábados pela manhã, com amigos e familiares.
Afora isso, seu hobby é ler Machado de Assis, Gabriel
García Márquez e Carlos Drummond de Andrade
ou deliciar-se com as letras daquele que considera um compositor
excepcional, o inevitável Chico Buarque.
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