Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Ministério
Devo, não nego e devolvo
quando for pilhado

Autoridade restitui dinheiro de
viagem aos cofres públicos. Não,
não é Benedita. É Agnelo Queiroz


Fabio Motta/AE
Agnelo Queiroz, do Esporte: reembolso
de 5400 reais


Notícias diárias sobre o governo Lula

O ministro Agnelo Queiroz, do Esporte, devolveu 5.400 reais aos cofres públicos na semana passada. O dinheiro restituído corresponde ao que o ministro gastou em diárias quando esteve em Santo Domingo, prestigiando a equipe brasileira que disputava os Jogos Pan-Americanos, em agosto passado. Dias antes, divulgou-se que a hospedagem do ministro fora paga pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). De modo que, se não fizesse a devolução, o ministro estaria, na verdade, faturando uma graninha por fora. "Só agora tomei ciência disso", explicou Agnelo, ao referir-se ao pagamento de sua hospedagem pelo COB. Distraído, hein? Logo ele que, no governo anterior, se celebrizou por fazer uma minuciosa fiscalização de gastos públicos de cuja ira moralizadora jamais escapavam justamente despesas com viagens ao exterior. É uma situação constrangedora para o ministro, mas, pelo que se tem visto, está se tornando corriqueira no governo. Até agora, a regra parece ser a seguinte: ministros fazem uso, digamos, heterodoxo de verbas públicas e, se descobertos, devolvem o dinheiro – e fica tudo bem.

Sergio Amaral
Benedita da Silva, da Assistência Social: devolução de 4800 reais


Ou quase. A ministra Benedita da Silva, da Assistência Social, foi o caso inaugural. Fez uma viagem de um dia a Buenos Aires em cuja agenda pública havia apenas um compromisso religioso – e, portanto, de caráter privado. Na última hora, para emprestar um verniz oficial à visita à Argentina, e assim justificar o uso de dinheiro público, Benedita arranjou um compromisso oficial: uma audiência com a ministra Alicia Kirchner, do Desenvolvimento. Desde que o caso veio a público, Benedita agarra-se à audiência com Kirchner para dizer que a viagem foi oficial, mas acabou devolvendo 4.800 reais ao Erário – embora continue insistindo que não fez nada de errado. A ministra parece ignorar que todo mundo já sabe, pela cronologia da história, que ela criou um novo tipo de agenda: o compromisso-laranja, que serve apenas para ocultar a verdadeira motivação da viagem. A ministra Benedita permanece no cargo, mas não está valendo a pena sua insistência em se pendurar no poder. Quando aparece em público, é vaiada e virou alvo de programas humorísticos, como o Casseta & Planeta.

Na semana passada, num sinal epidêmico, o secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, pediu demissão depois de enrolar-se numa situação um pouco diferente, mas igualmente constrangedora. Descobriu-se que Soares contratara sua mulher, Miriam Guindani, para prestar uma consultoria de 40.000 reais, e também sua ex-mulher, a socióloga Bárbara Soares, cujos serviços estavam cotados em 24.000 reais. Os dois contratos foram cancelados, Miriam Guindani chegou a devolver a parcela de 4.200 reais que já havia recebido e o secretário, constrangido, entregou o cargo. É inadequada a contratação de mulher ou ex-mulher, mas, no caso do secretário, é preciso considerar que talvez tenha se sentido à vontade para fazê-lo depois de olhar para os ocupantes dos mais altos cargos do governo. Afinal, as respectivas esposas de alguns dos mais destacados ministros de Lula arranjaram rapidamente emprego público assim que os maridos se instalaram em Brasília. Soares pode ter caído na ingenuidade de pensar: se eles podem, por que eu não posso?

 
 
 
 
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