Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Entrevista: Duda Mendonça
"Se sou problema, adeus"

Magoado com acusações de conflito
de interesses,
o marqueteiro de
Lula
anuncia que não renovará
seu contrato com o PT


Lauro Jardim

 

Luiz Antonio

"Tudo o que você tem de explicar muito não vale a pena. Gosto de criar, e não de ficar dando explicações à imprensa todo dia"

Duda Mendonça, 59 anos, está sob pressão. Dono de influência inequívoca junto ao núcleo do poder, Duda passou a ser conhecido como uma espécie de "ministro da Propaganda", depois de o ministro Luiz Gushiken afirmar que o marqueteiro iria assessorá-lo pessoalmente na tarefa de zelar pela unidade da publicidade governamental. Com isso, Duda acabou sendo alvo da oposição por causa do suposto poder sobre a verba publicitária de 1,5 bilhão de reais por ano. Houve ainda acusação sobre conflito de interesses, por ter fechado um contrato com o PT no valor de 3 milhões de reais. Em sua primeira entrevista desde que Lula assumiu, Duda revela que está abrindo mão de seu contrato com o PT. Diz também que enviou uma carta de seis páginas a Gushiken "renunciando" ao cargo de ministro da Propaganda, "por mais ridículo que possa parecer". "Não estou feliz", desabafa. É uma espécie de inferno astral exatamente um ano após se consagrar como um dos artífices da vitória de Lula na eleição de 2002. Na semana passada, falando rápido e gesticulando muito, Duda recebeu VEJA na sede de sua agência em Brasília para esta entrevista.

Veja – O senhor é uma espécie de ministro da Propaganda do governo Lula, como se chegou a divulgar?
Duda – Isso nunca existiu. Na verdade, foi um apelido que a imprensa me colocou a partir de uma percepção equivocada de um poder que nunca tive, não tenho e não vou ter nunca. Sou um publicitário, é isso que fui a minha vida inteira. Meu trabalho no governo é exclusivamente técnico e submetido às apreciações do ministro Gushiken, que respeito e admiro muito. Esse apelido ganhou uma dimensão na mídia que, sinceramente, me constrange. Misturou verdade com ficção. No dia em que foi publicado pela primeira vez, recebi uma ligação até de minha irmã me parabenizando, veja só. E é óbvio que isso conflita com as minhas funções claramente colocadas no edital de concorrência da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República), no qual minha agência, a Lew, Lara e a Matisse foram vencedoras. E essas coisas criam muitos problemas. Atribuem a mim uma função que não tenho e acabo pagando o preço.

Veja – Mas o próprio ministro Gushiken disse recentemente, por meio de uma nota oficial, que o senhor iria assessorá-lo na tarefa de garantir a unidade do discurso publicitário do governo. E não citou as duas outras agências.
Duda – Todos os presidentes e os ministros da Secom anteriores tiveram publicitários para assessorá-los. Não quero citar nomes. Mas todos tinham. E isso é legítimo, não tem nada de errado. Mas essa resposta passa por outra explicação: a Secom mudou. Isso ainda não foi devidamente esclarecido. Antes, ela era um órgão que apenas homologava, um órgão burocrático. Os ministérios, na verdade, tinham absoluta independência de verba institucional. Cada um dizia quanto queria anunciar, onde anunciava e o que queria. Era como um time de futebol em que cada jogador tem um técnico, cada um veste uma camisa e cada um chuta para um lado. Não havia a transparência de saber quanto o governo gastava em publicidade institucional. Nunca se soube, agora se vai saber.

Veja – O senhor foi acusado pela oposição de estar envolvido em um imenso conflito de interesses. Em resumo, porque venceu uma licitação para prestar serviços de propaganda e depois disso vai decidir sobre as verbas do governo, que giram em torno de 1,5 bilhão de reais por ano.
Duda – Esse é um grande equívoco. Não vou decidir nada. Como é que o cara pode decidir sobre isso e ao mesmo tempo ser fornecedor? Não tenho o poder de verba. O serviço é restrito ao trabalho normal de uma agência de propaganda. Colocaram-me como alvo político. Sou um técnico. Houve exploração política. Às vezes, a política ganha contornos tão esquisitos que nos obriga a tomar decisões inusitadas: decidi entregar ao ministro Gushiken uma carta renunciando a um cargo que na verdade eu nunca tive e que nunca existiu.

Veja – O senhor vai renunciar ao Ministério da Propaganda?
Duda – Sim, por mais ridículo que isso possa parecer. Vou renunciar entre aspas ao Ministério da Propaganda, também entre aspas.

Veja – Exatamente a que o senhor está renunciando?
Duda – Não posso abrir todo o conteúdo da carta, mas lá reitero minha função absolutamente técnica. Minha empresa vai ser consultora do verbo, e não da verba. Não tenho nada a ver com dinheiro nem com poder político. Nunca quis ser político. Meu negócio não é abrir porta nem fazer lobby. Tem muita gente que me procura, fica rodeando, dizendo "eu tenho um projeto assim..." E eu pergunto: "Tem propaganda?" Se não tem, estou fora. Estou comprometido com esse governo, aposto nele e corro os riscos. O que não posso permitir é que a imagem técnica de um publicitário, que a vida inteira só fez isso, seja deturpada.

Veja – O senhor foi o marqueteiro da campanha de Lula, tem hoje um contrato com o PT e, como se não bastasse, o ministro Gushiken diz publicamente que quer seus conselhos. Por que negar seu poder de influência?
Duda – Não tenho poder nenhum na Secom. Todo mundo sabe que no passado tive divergências com Paulo de Tarso (sócio da Matisse e marqueteiro do PT nos anos 90). Se eu tivesse alguma força, a Matisse teria sido escolhida para trabalhar junto de mim? Não. Se eu tivesse alguma força, iria tirar o quarto lugar na concorrência do Banco do Brasil, em que três foram escolhidas? Não. Entrei em todas as concorrências do governo. Vou entrar em todas da melhor maneira que puder e quero concorrer em pé de igualdade. Quero duas, três, quatro contas do governo: as contas que eu merecer ganhar da concorrência. Durante o governo passado, ganhei três. Por que não posso ganhar agora? As dez agências que mais faturaram no governo FHC continuam sendo as dez que mais faturam no governo Lula, o que não inclui a agência Duda Mendonça. Algumas das novas concorrências foram ganhas pelas mesmas agências que já atendiam ao governo passado. Isso significa que este governo não está perseguindo ninguém politicamente, está ganhando quem merece. Quero trabalhar entusiasmado, e neste momento confesso que não estou entusiasmado. Não estou feliz porque minha função está sendo desvirtuada. E não estou habituado a tomar paulada pela imprensa. Quando eu era duro, não fazia nada errado, não é agora que vou fazer. Tudo meu está direitinho, porque sei que sou vulnerável. Dizem que o presidente gosta de mim. Fico muito feliz com isso. E procuro merecer essa amizade. Ele sabe que desde a campanha, desde a transição até hoje, nunca pedi emprego para um motorista. O Lula gosta do que faço, mas acho que ele gosta muito mais do que sabe que eu não sou capaz de fazer.

Veja – Ter fechado neste ano um contrato com o PT e cuidar da propaganda institucional do governo não o torna mais vulnerável a essas críticas?
Duda – Quando fechei o contrato com o PT, fiz um contrato legítimo. O que antigamente se fazia de maneira informal nós procuramos fazer de um modo transparente. É um passo à frente. Mas não vou nadar contra a corrente. Vou encerrar meu contrato com o PT no fim do ano. Não vou renová-lo. Nesta semana, avisei o PT que nosso contrato se encerra e ponto.

Veja – Se é um passo à frente, por que romper o contrato?
Duda – Por causa da idéia errônea, seja por confusão ou má-fé, de que tenho poderes efetivos e de que essas coisas são conflitantes. Tudo o que você tem de explicar muito não vale a pena. Gosto de criar, e não de ficar dando explicações à imprensa todo dia. Estou recuando pela polêmica. Não quero me colocar em vulnerabilidade. Quero renunciar a todas as áreas de conflito, inclusive às consultorias de imagem que pensei em dar às prefeituras petistas. Outro dia, dona Marisa disse assim: "Duda, falaram que a roupa verde e amarela que usei no 7 de Setembro foi você que mandou fazer". Eu não tenho nada a ver com a roupa verde e amarela que ela botou. Muitas das coisas que o Ricardo Kotscho (secretário de Imprensa de Lula) faz acham que fui eu. Na verdade, começam a imaginar coisas, e eu passo a ser pai de tudo, o que não é verdade. Se as pessoas não estão entendendo, vou parar o contrato com o PT. E veja: o faturamento é muito pequeno para a quantidade de atribuições...

Veja – O contrato com o PT é de 3 milhões de reais...
Duda – Sim, mas pode orçar em qualquer lugar e verá que 3 milhões é um preço superjusto.

Veja – O senhor está perdendo dinheiro nos contratos?
Duda – Não estou perdendo. Mas ganho pouco. Meu interesse é estar bem com o PT e com José Genoíno. Isso é uma satisfação para mim. Mas essa história já chegou até a tribuna do Senado. Falaram que havia conflito de interesses. Tenho certeza de que é um avanço. Mas não quero brigar contra a corrente. E, no ano que vem, minha empresa fará a campanha de uns quatro ou cinco candidatos. Nem um a mais. Quer dizer, se a imprensa permitir que eu faça campanha política. Porque, pelo jeito que está indo, daqui a pouco vão dizer que não posso fazer campanha. Bem, aí tenho de fechar minha empresa e me aposentar.

Veja – Em algum momento o senhor imaginou que não seria alvo de cobranças estando tão ligado ao governo desde a campanha?
Duda – Não é isso, mas não tenho vocação para a política. Sei dizer a eles o que fazer, mas não aplico na minha vida, não quero ser político. O que não gosto é de ficar nessa vulnerabilidade nem de ter de me explicar demais. Abrindo mão disso, sinceramente espero que o tiroteio político em cima de mim pare ou diminua.

Veja – E se o senhor ganhar várias concorrências do governo? Abrirá mão para não ser acusado de conflito?
Duda – Jamais. Estou entrando em todas e vou continuar em todas. Não quero ser ajudado, mas também não quero ser castigado. Se for para ser vetado, prefiro que o governo me diga antes "não entre". Estou entrando para ganhar. Isso não é uma capitulação. Nem sou covarde. Muito menos é reconhecimento de culpa. Não serei eu, que tanto prezo, que tanto carinho tenho por esse governo, que vou criar problemas. Ainda que de fato o problema nunca tenha existido. Fui contratado a vida inteira para criar soluções. Se viro problema, só tem uma solução, adeus.

Veja – Por que o senhor contratou o Luis Favre, marido da prefeita Marta Suplicy, para trabalhar em sua empresa?
Duda – Estou num momento em que sou chamado para muitas palestras no exterior, tenho campanhas pela América Latina. Não posso dar conta de tudo. Agora mesmo fui convidado para fazer uma campanha na Argentina. O Favre foi lá e prestou uma consultoria ao candidato. Como não estou podendo viajar, vi uma oportunidade no Favre de fazer esse tipo de trabalho para mim. Mas há um preconceito contra ele. Eu o conheci na campanha do Lula. Quando fui contratá-lo, chamei-o para uma reunião e disse: "Favre, 70% do PT acha que a gente não dura uma semana junto. Os outros 30% apostam em duas semanas. Vai depender de nós que dure até o fim da campanha". Falei para ele que ele seria um auxiliar, não um fiscal do PT. Ele disse: "Perfeitamente". E no final saiu sendo benquisto pela minha equipe.

Veja – Mas o que ele faz exatamente em sua empresa?
Duda – Consultoria. Nessa área, por exemplo, no ano que vem ele pode coordenar alguma campanha. Qualquer contato internacional eu passo para ele. O Favre fala inglês, fala francês. Preciso de um cara assim. Ele tem grande credibilidade no mercado latino. É engraçado... contratei dez pessoas, e só falam do Favre.

Veja – Talvez porque ele inicialmente tenha sido anunciado como assessor da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Depois, a nomeação gorou, e o senhor, muito ligado ao PT, o abrigou em sua empresa...
Duda – Não vou botar um cara em minha empresa com um salário de 20.000 reais para não fazer nada. Não sou dono de orfanato. Não preciso da ajuda política do Favre. Meu trabalho é conhecido do PT, do presidente e de todos os ministros. Ele trabalhou comigo na campanha, tem visão política e estratégica. A vida inteira fez isso, muito antes de mim. Tem uma relação boa com o PT. Na verdade, se tenho uma agência que está atendendo ao PT, ele pode instruir a criação em diversas coisas.

Veja – Como o senhor vai renunciar à conta do PT, qual será, então, o papel dele?
Duda – A princípio ele continua comigo, inclusive me ajudando nas campanhas do ano que vem. Se começarem a vetar meu direito até de fazer campanhas, aí fecho a empresa e ele perde o emprego.

Veja – O senhor já se reuniu algumas vezes com o presidente Lula no Palácio da Alvorada. Que conselhos dá a ele nessas horas?
Duda – Vou muito menos ao Palácio do que se imagina. É óbvio que o presidente tem estima por mim e eu por ele. O Lula sabe que estou sempre à disposição para qualquer momento em que ele precisar, como um soldado em prontidão. Sempre vou fazer tudo pelo presidente. Outro dia mesmo escutei ele dizendo que queria comer castanha-do-pará. Saí de lá, liguei para um amigo meu e pedi para entregar uma caixa de castanha-do-pará no Palácio.

Veja – Neste ano o senhor criou uma campanha para o PT cujo mote era "A gente sente, o Brasil tá diferente". Como o caso Benedita se encaixa nesse slogan?
Duda – Como publicitário, não quero entrar na análise política. Mas também não gosto de deixar pergunta sem resposta. Conheço razoavelmente a Benedita. É uma pessoa séria. Se cometeu algum deslize, já pagou por isso. Ao devolver o dinheiro, ela está fazendo agora o que devia ter feito antes. As pessoas querem clareza no governo, e todo mundo sabe que o Brasil está diferente. Ninguém espera que aqui ou ali não possa haver problemas. O que se espera é que o governo investigue e, se confirmado dolo, puna. Uma pessoa que teve a linda trajetória que a Benedita teve, que veio de onde ela veio e chegou aonde chegou, não será vista pela história, tenho certeza, apenas por esse episódio. O presidente será cobrado pelo resultado dele no governo. Ele foi eleito para mudar o país, para retomar o crescimento, para gerar empregos, para o Brasil voltar a ter orgulho e amor-próprio. Ele será cobrado ao longo de quatro anos por isso. Se o resultado final for de médio para bom, o povo vai aplaudir. Se não for, ele vai pagar o preço.

 
 
 
 
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