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Entrevista:
Duda
Mendonça
"Se
sou problema, adeus"
Magoado com acusações
de conflito
de interesses,
o marqueteiro de
Lula anuncia
que não renovará
seu
contrato com o PT

Lauro
Jardim
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Luiz Antonio

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"Tudo
o que você tem de explicar muito não vale
a pena. Gosto de criar, e não de ficar dando explicações
à imprensa todo dia" |
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Duda
Mendonça, 59 anos, está sob pressão. Dono de
influência inequívoca junto ao núcleo do poder,
Duda passou a ser conhecido como uma espécie de "ministro
da Propaganda", depois de o ministro Luiz Gushiken afirmar que o
marqueteiro iria assessorá-lo pessoalmente na tarefa de zelar
pela unidade da publicidade governamental. Com isso, Duda acabou
sendo alvo da oposição por causa do suposto poder
sobre a verba publicitária de 1,5 bilhão de reais
por ano. Houve ainda acusação sobre conflito de interesses,
por ter fechado um contrato com o PT no valor de 3 milhões
de reais. Em sua primeira entrevista desde que Lula assumiu, Duda
revela que está abrindo mão de seu contrato com o
PT. Diz também que enviou uma carta de seis páginas
a Gushiken "renunciando" ao cargo de ministro da Propaganda, "por
mais ridículo que possa parecer". "Não estou feliz",
desabafa. É uma espécie de inferno astral exatamente
um ano após se consagrar como um dos artífices da
vitória de Lula na eleição de 2002. Na semana
passada, falando rápido e gesticulando muito, Duda recebeu
VEJA na sede de sua agência em Brasília para esta entrevista.
Veja
O senhor é uma espécie de ministro da Propaganda
do governo Lula, como se chegou a divulgar?
Duda Isso
nunca existiu. Na verdade, foi um apelido que a imprensa me colocou
a partir de uma percepção equivocada de um poder que
nunca tive, não tenho e não vou ter nunca. Sou um
publicitário, é isso que fui a minha vida inteira.
Meu trabalho no governo é exclusivamente técnico e
submetido às apreciações do ministro Gushiken,
que respeito e admiro muito. Esse apelido ganhou uma dimensão
na mídia que, sinceramente, me constrange. Misturou verdade
com ficção. No dia em que foi publicado pela primeira
vez, recebi uma ligação até de minha irmã
me parabenizando, veja só. E é óbvio que isso
conflita com as minhas funções claramente colocadas
no edital de concorrência da Secom (Secretaria de Comunicação
da Presidência da República), no qual minha agência,
a Lew, Lara e a Matisse foram vencedoras. E essas coisas criam muitos
problemas. Atribuem a mim uma função que não
tenho e acabo pagando o preço.
Veja
Mas o próprio ministro Gushiken disse recentemente,
por meio de uma nota oficial, que o senhor iria assessorá-lo
na tarefa de garantir a unidade do discurso publicitário
do governo. E não citou as duas outras agências.
Duda Todos
os presidentes e os ministros da Secom anteriores tiveram publicitários
para assessorá-los. Não quero citar nomes. Mas todos
tinham. E isso é legítimo, não tem nada de
errado. Mas essa resposta passa por outra explicação:
a Secom mudou. Isso ainda não foi devidamente esclarecido.
Antes, ela era um órgão que apenas homologava, um
órgão burocrático. Os ministérios, na
verdade, tinham absoluta independência de verba institucional.
Cada um dizia quanto queria anunciar, onde anunciava e o que queria.
Era como um time de futebol em que cada jogador tem um técnico,
cada um veste uma camisa e cada um chuta para um lado. Não
havia a transparência de saber quanto o governo gastava em
publicidade institucional. Nunca se soube, agora se vai saber.
Veja
O senhor foi acusado pela oposição de estar
envolvido em um imenso conflito de interesses. Em resumo, porque
venceu uma licitação para prestar serviços
de propaganda e depois disso vai decidir sobre as verbas do governo,
que giram em torno de 1,5 bilhão de reais por ano.
Duda Esse
é um grande equívoco. Não vou decidir nada.
Como é que o cara pode decidir sobre isso e ao mesmo tempo
ser fornecedor? Não tenho o poder de verba. O serviço
é restrito ao trabalho normal de uma agência de propaganda.
Colocaram-me como alvo político. Sou um técnico. Houve
exploração política. Às vezes, a política
ganha contornos tão esquisitos que nos obriga a tomar decisões
inusitadas: decidi entregar ao ministro Gushiken uma carta renunciando
a um cargo que na verdade eu nunca tive e que nunca existiu.
Veja
O senhor vai renunciar ao Ministério da Propaganda?
Duda
Sim, por mais ridículo que isso possa parecer. Vou renunciar
entre aspas ao Ministério da Propaganda, também entre
aspas.
Veja
Exatamente a que o senhor está renunciando?
Duda
Não posso abrir todo o conteúdo da carta, mas lá
reitero minha função absolutamente técnica.
Minha empresa vai ser consultora do verbo, e não da verba.
Não tenho nada a ver com dinheiro nem com poder político.
Nunca quis ser político. Meu negócio não é
abrir porta nem fazer lobby. Tem muita gente que me procura, fica
rodeando, dizendo "eu tenho um projeto assim..." E eu pergunto:
"Tem propaganda?" Se não tem, estou fora. Estou comprometido
com esse governo, aposto nele e corro os riscos. O que não
posso permitir é que a imagem técnica de um publicitário,
que a vida inteira só fez isso, seja deturpada.
Veja
O senhor foi o marqueteiro da campanha de Lula, tem hoje
um contrato com o PT e, como se não bastasse, o ministro
Gushiken diz publicamente que quer seus conselhos. Por que negar
seu poder de influência?
Duda
Não tenho poder nenhum na Secom. Todo mundo sabe que no passado
tive divergências com Paulo de Tarso (sócio da Matisse
e marqueteiro do PT nos anos 90). Se eu tivesse alguma força,
a Matisse teria sido escolhida para trabalhar junto de mim? Não.
Se eu tivesse alguma força, iria tirar o quarto lugar na
concorrência do Banco do Brasil, em que três foram escolhidas?
Não. Entrei em todas as concorrências do governo. Vou
entrar em todas da melhor maneira que puder e quero concorrer em
pé de igualdade. Quero duas, três, quatro contas do
governo: as contas que eu merecer ganhar da concorrência.
Durante o governo passado, ganhei três. Por que não
posso ganhar agora? As dez agências que mais faturaram no
governo FHC continuam sendo as dez que mais faturam no governo Lula,
o que não inclui a agência Duda Mendonça. Algumas
das novas concorrências foram ganhas pelas mesmas agências
que já atendiam ao governo passado. Isso significa que este
governo não está perseguindo ninguém politicamente,
está ganhando quem merece. Quero trabalhar entusiasmado,
e neste momento confesso que não estou entusiasmado. Não
estou feliz porque minha função está sendo
desvirtuada. E não estou habituado a tomar paulada pela imprensa.
Quando eu era duro, não fazia nada errado, não é
agora que vou fazer. Tudo meu está direitinho, porque sei
que sou vulnerável. Dizem que o presidente gosta de mim.
Fico muito feliz com isso. E procuro merecer essa amizade. Ele sabe
que desde a campanha, desde a transição até
hoje, nunca pedi emprego para um motorista. O Lula gosta do que
faço, mas acho que ele gosta muito mais do que sabe que eu
não sou capaz de fazer.
Veja
Ter fechado neste ano um contrato com o PT e cuidar da
propaganda institucional do governo não o torna mais vulnerável
a essas críticas?
Duda Quando
fechei o contrato com o PT, fiz um contrato legítimo. O que
antigamente se fazia de maneira informal nós procuramos fazer
de um modo transparente. É um passo à frente. Mas
não vou nadar contra a corrente. Vou encerrar meu contrato
com o PT no fim do ano. Não vou renová-lo. Nesta semana,
avisei o PT que nosso contrato se encerra e ponto.
Veja
Se é um passo à frente, por que romper o
contrato?
Duda
Por causa da idéia errônea, seja por confusão
ou má-fé, de que tenho poderes efetivos e de que essas
coisas são conflitantes. Tudo o que você tem de explicar
muito não vale a pena. Gosto de criar, e não de ficar
dando explicações à imprensa todo dia. Estou
recuando pela polêmica. Não quero me colocar em vulnerabilidade.
Quero renunciar a todas as áreas de conflito, inclusive às
consultorias de imagem que pensei em dar às prefeituras petistas.
Outro dia, dona Marisa disse assim: "Duda, falaram que a roupa verde
e amarela que usei no 7 de Setembro foi você que mandou fazer".
Eu não tenho nada a ver com a roupa verde e amarela que ela
botou. Muitas das coisas que o Ricardo Kotscho (secretário
de Imprensa de Lula) faz acham que fui eu. Na verdade, começam
a imaginar coisas, e eu passo a ser pai de tudo, o que não
é verdade. Se as pessoas não estão entendendo,
vou parar o contrato com o PT. E veja: o faturamento é muito
pequeno para a quantidade de atribuições...
Veja
O contrato com o PT é de 3 milhões de reais...
Duda
Sim, mas pode orçar em qualquer lugar e verá que 3
milhões é um preço superjusto.
Veja
O senhor está perdendo dinheiro nos contratos?
Duda Não
estou perdendo. Mas ganho pouco. Meu interesse é estar bem
com o PT e com José Genoíno. Isso é uma satisfação
para mim. Mas essa história já chegou até a
tribuna do Senado. Falaram que havia conflito de interesses. Tenho
certeza de que é um avanço. Mas não quero brigar
contra a corrente. E, no ano que vem, minha empresa fará
a campanha de uns quatro ou cinco candidatos. Nem um a mais. Quer
dizer, se a imprensa permitir que eu faça campanha política.
Porque, pelo jeito que está indo, daqui a pouco vão
dizer que não posso fazer campanha. Bem, aí tenho
de fechar minha empresa e me aposentar.
Veja
Em algum momento o senhor imaginou que não seria
alvo de cobranças estando tão ligado ao governo desde
a campanha?
Duda Não
é isso, mas não tenho vocação para a
política. Sei dizer a eles o que fazer, mas não aplico
na minha vida, não quero ser político. O que não
gosto é de ficar nessa vulnerabilidade nem de ter de me explicar
demais. Abrindo mão disso, sinceramente espero que o tiroteio
político em cima de mim pare ou diminua.
Veja
E se o senhor ganhar várias concorrências
do governo? Abrirá mão para não ser acusado
de conflito?
Duda Jamais.
Estou entrando em todas e vou continuar em todas. Não quero
ser ajudado, mas também não quero ser castigado. Se
for para ser vetado, prefiro que o governo me diga antes "não
entre". Estou entrando para ganhar. Isso não é uma
capitulação. Nem sou covarde. Muito menos é
reconhecimento de culpa. Não serei eu, que tanto prezo, que
tanto carinho tenho por esse governo, que vou criar problemas. Ainda
que de fato o problema nunca tenha existido. Fui contratado a vida
inteira para criar soluções. Se viro problema, só
tem uma solução, adeus.
Veja
Por que o senhor contratou o Luis Favre, marido da prefeita
Marta Suplicy, para trabalhar em sua empresa?
Duda
Estou num momento em que sou chamado para muitas palestras no exterior,
tenho campanhas pela América Latina. Não posso dar
conta de tudo. Agora mesmo fui convidado para fazer uma campanha
na Argentina. O Favre foi lá e prestou uma consultoria ao
candidato. Como não estou podendo viajar, vi uma oportunidade
no Favre de fazer esse tipo de trabalho para mim. Mas há
um preconceito contra ele. Eu o conheci na campanha do Lula. Quando
fui contratá-lo, chamei-o para uma reunião e disse:
"Favre, 70% do PT acha que a gente não dura uma semana junto.
Os outros 30% apostam em duas semanas. Vai depender de nós
que dure até o fim da campanha". Falei para ele que ele seria
um auxiliar, não um fiscal do PT. Ele disse: "Perfeitamente".
E no final saiu sendo benquisto pela minha equipe.
Veja
Mas o que ele faz exatamente em sua empresa?
Duda
Consultoria. Nessa área, por exemplo, no ano que vem ele
pode coordenar alguma campanha. Qualquer contato internacional eu
passo para ele. O Favre fala inglês, fala francês. Preciso
de um cara assim. Ele tem grande credibilidade no mercado latino.
É engraçado... contratei dez pessoas, e só
falam do Favre.
Veja
Talvez porque ele inicialmente tenha sido anunciado como
assessor da Secretaria de Comunicação da Presidência
da República. Depois, a nomeação gorou, e o
senhor, muito ligado ao PT, o abrigou em sua empresa...
Duda
Não vou botar um cara em minha empresa com um salário
de 20.000 reais para não fazer nada. Não sou dono
de orfanato. Não preciso da ajuda política do Favre.
Meu trabalho é conhecido do PT, do presidente e de todos
os ministros. Ele trabalhou comigo na campanha, tem visão
política e estratégica. A vida inteira fez isso, muito
antes de mim. Tem uma relação boa com o PT. Na verdade,
se tenho uma agência que está atendendo ao PT, ele
pode instruir a criação em diversas coisas.
Veja Como o senhor vai renunciar à conta do
PT, qual será, então, o papel dele?
Duda
A princípio ele continua comigo, inclusive me ajudando nas
campanhas do ano que vem. Se começarem a vetar meu direito
até de fazer campanhas, aí fecho a empresa e ele perde
o emprego.
Veja
O senhor já se reuniu algumas vezes com o presidente
Lula no Palácio da Alvorada. Que conselhos dá a ele
nessas horas?
Duda
Vou muito menos ao Palácio do que se imagina. É óbvio
que o presidente tem estima por mim e eu por ele. O Lula sabe que
estou sempre à disposição para qualquer momento
em que ele precisar, como um soldado em prontidão. Sempre
vou fazer tudo pelo presidente. Outro dia mesmo escutei ele dizendo
que queria comer castanha-do-pará. Saí de lá,
liguei para um amigo meu e pedi para entregar uma caixa de castanha-do-pará
no Palácio.
Veja
Neste ano o senhor criou uma campanha para o PT cujo mote
era "A gente sente, o Brasil tá diferente". Como o caso Benedita
se encaixa nesse slogan?
Duda
Como publicitário, não quero entrar na análise
política. Mas também não gosto de deixar pergunta
sem resposta. Conheço razoavelmente a Benedita. É
uma pessoa séria. Se cometeu algum deslize, já pagou
por isso. Ao devolver o dinheiro, ela está fazendo agora
o que devia ter feito antes. As pessoas querem clareza no governo,
e todo mundo sabe que o Brasil está diferente. Ninguém
espera que aqui ou ali não possa haver problemas. O que se
espera é que o governo investigue e, se confirmado dolo,
puna. Uma pessoa que teve a linda trajetória que a Benedita
teve, que veio de onde ela veio e chegou aonde chegou, não
será vista pela história, tenho certeza, apenas por
esse episódio. O presidente será cobrado pelo resultado
dele no governo. Ele foi eleito para mudar o país, para retomar
o crescimento, para gerar empregos, para o Brasil voltar a ter orgulho
e amor-próprio. Ele será cobrado ao longo de quatro
anos por isso. Se o resultado final for de médio para bom,
o povo vai aplaudir. Se não for, ele vai pagar o preço.
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