|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Das carícias
proibidas
à tragédia nacional
De
como os
amores entre duas
mulheres
podem ter
influenciado no
suicídio de Vargas
Um enlace
amoroso entre duas mulheres estaria na origem do episódio
mais dramático da história republicana, o suicídio
do presidente Getúlio Vargas. Eis a hipótese contida
num livro recentemente lançado, Getúlio, do
jornalista gaúcho Juremir Machado da Silva (Editora Record).
A alemã Ingeborg ten Haeff, casada com o filho mais velho
de Getúlio, Lutero, um dia foi surpreendida pelo marido em
brincadeiras libidinosas com uma amiga. Esse episódio vai
conduzir, anos depois, ao famoso atentado da Rua Tonelero contra
o jornalista Carlos Lacerda, que por sua vez conduzirá ao
suicídio do presidente. Difícil de acreditar? Não
tanto, quando se tem em conta o delírio daqueles dias, protagonizados
por personagens movidos a paixão e fúria.
Getúlio,
outra vez. E Ingeborg, outra vez. Vai-se falar pela terceira vez
nas últimas semanas, neste espaço, do mais discutido
presidente que o país já teve, e pela segunda da alemã
que foi sua nora. O livro de Juremir Machado, instigante e bem armado,
o justifica. Trata-se de um romance. Ou melhor: de um intenso trabalho
de pesquisa em torno dos eventos, personagens e circunstâncias
da era Vargas, embalado sob a forma de romance. Juremir mergulhou
fundo no tema. Leu tudo, entrevistou parentes de Getúlio
e antigos colaboradores. Esteve com figuras que vão de Alcino
João do Nascimento, o pistoleiro do célebre crime
da Rua Tonelero, a Guilherme Arinos, sobrevivente da assessoria
de Getúlio que surpresa vem a ser o pai de
Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. Sobretudo, esteve
com Ingeborg, que, sessenta anos depois de terminado o casamento
com Lutero e cinqüenta depois da morte do sogro, vive, em Nova
York, os 89 anos de uma vida intensa e fecunda.
Lutero
Vargas conheceu Ingeborg, natural de Düsseldorf, num restaurante
de Berlim, ao tempo em que aperfeiçoava os estudos de medicina
na Alemanha. Os dois casaram-se em 1940, estabeleceram-se no Rio
de Janeiro e tiveram uma filha. Em 1944, o casamento chegou a brusco
final. Ingeborg foi posta num avião isso ela própria
conta no livro e despachada do Brasil, escoltada por quatro
homens. Disseram-lhe que ia para a Suíça, mas, depois
de uma escala de 33 horas em Belém, desembarcou em Nova York.
Foi uma deportação sem esse nome. Até hoje,
Ingeborg diz que não sabe por que isso aconteceu. Na família
Vargas e no governo, deu-se como explicação a mentira
de que a mulher de Lutero seria espiã do regime nazista.
Confessar que o verdadeiro motivo eram carícias com outra
mulher seria desgraça demais para uma família curtida
nos sagrados valores do machismo.
Dez anos
depois, quando Carlos Lacerda esticava ao máximo, em seu
jornal, Tribuna da Imprensa, a corda das denúncias
contra o governo, ele é tocaiado em frente à sua casa,
na Rua Tonelero, num atentado em que morre o militar que o acompanhava,
o major Rubens Vaz. Não tarda para que se identifique como
articulador do atentado o próprio chefe da guarda pessoal
de Getúlio, Gregório Fortunato. Mas Gregório
teria agido por conta própria? Ou por trás dele haveria
peixe mais graúdo? Já na época o nome de Lutero
surgiu como suspeito. As investigações nesse sentido
nunca deram em nada. O livro de Juremir não só retoma
a hipótese, mas dá-lhe uma justificativa: Lutero teria
sabido que Lacerda se preparava para publicar a verdadeira história
de sua separação. A manchete já estaria pronta:
"Lutero corno de mulher". Nesse momento, teria decidido matar o
jornalista.
Ingeborg
ten Haeff vive hoje num apartamento da Washington Square, no coração
do Greenwich Village, e é artista plástica de sucesso.
Depois de Lutero, casou-se outras duas vezes, uma com um arquiteto
que foi parceiro de Le Corbusier e outra com um professor de russo.
Ganhou prêmios e a cidadania americana, expôs em galerias
prestigiosas e teve seu trabalho comentado por intelectuais como
Gilles Deleuze e Félix Guattari. Em maio, foi homenageada
com a abertura de uma retrospectiva e o lançamento de um
livro sobre sua obra. Sua filha com Lutero, Cândida Darcy,
que morreu no ano passado no Rio Grande do Sul, cresceu entre os
Vargas e nunca a aceitou. Uma neta, Alexandra Manoela, casou-se
com um americano e mora em Nova York.
Fotos de
Ingeborg podem ser vistas na internet. Numa delas (www.nabiarts.com/Nabi/ithcurvit.htm)
aparece de vestido longo, echarpe, foulard e chapéu, tudo
enfaticamente vermelho. Noutra (www.washingtonlife.com/backissues/archives/
00apr/ebsworth_collection2.htm) está num coquetel, igualmente
de vestido longo, do gênero bata indiana, e chapéu.
Ingeborg se veste como se espera que se vista uma artista plástica
do circuito do Village. Estaria à vontade numa cena de Woody
Allen. O Brasil só ocupou quatro anos de sua vida, que prosseguiu
em contextos muito diversos. No Brasil, conforme sugere o livro
de Juremir Machado, pode ter causado um furacão. Mas a recíproca
não parece verdadeira. O país não lhe teria
soprado ao rosto senão uma ligeira brisa.
|