Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Televisão
O esquisito que satisfaz

Versátil, José Wilker faz sucesso
como o "felomenal'' Giovanni,
de Senhora do Destino


Ricardo Valladares

 
Divulgação
André Nazareth/Strana
Wilker e sua atual amada, Guilhermina Guinle: pouca badalação


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José Wilker está com tudo. Em uma pesquisa recente realizada pela Globo, o ex-bicheiro Giovanni Improtta aparece ao lado da perua Maria do Carmo (Suzana Vieira) e do garçom-galã Viriato (Marcelo Antony) como um dos personagens mais queridos pelo público na novela das 8, Senhora do Destino. "O Giovanni é um contraventor romântico. Ou, como ele mesmo diria, um 'contravensor' ", define Wilker, brincando com as dificuldades de seu personagem com o vernáculo. Aos 58 anos, Wilker é um dos atores mais versáteis da televisão. Já foi gay, galã, vilão, reacionário, rebelde. "Wilker cabe em qualquer papel", diz o autor de novelas Benedito Ruy Barbosa. Na direção da emissora, o consenso é que Wilker conservou maior jogo de cintura que outros atores de sua geração. José Mayer, por exemplo, especializou-se no tipo machão sedutor. E a circunferência abdominal de Antonio Fagundes já começa a limitar suas possibilidades românticas.

O personagem de Wilker é um novo-rico que maltrata a língua portuguesa com palavras como "felomenal" ou frases do tipo "Você não preenche os esquisitos necessários". Giovanni tem dois grandes objetivos: conquistar uma posição de respeito na sociedade e, no caminho, arrebatar o coração nordestino de Maria do Carmo. Na próxima semana, o ex-bicheiro vai tascar mais um beijo na pernambucana do sotaque arretado e artificial. O autor da novela, Aguinaldo Silva, anuncia que o núcleo dos pobres – ao qual Giovanni está, digamos, espiritualmente afiliado, apesar da fortuna que angariou com o jogo ilícito – crescerá na trama. "É uma inovação: desta vez, não serão os suburbanos que virão à Zona Sul, serão os afluentes que seguirão no rumo da Baixada Fluminense'', diz Silva.

Embora arraste a asa para Maria do Carmo, Giovanni anda de braços com uma namoradinha bem mais jovem, a espevitada Danielle (Ludmila Dayer). O personagem parece seguir os passos do ator, um quase sessentão casado com a atriz Guilhermina Guinle, de 29 anos. A ex de Fábio Júnior é sua terceira mulher. Wilker tem uma queda pelas colegas – só se casa com atrizes. Mônica Torres, hoje casada com Marcelo Antony, tem uma filha de 19 anos com Wilker, a modelo Isabel. O primeiro casamento, com Renée de Vielmond, também deu frutos: a psicóloga Mariana, de 24 anos.

 

Alexandre Tokitaka

As atrizes Renée de Vielmond (à esq.), nos anos 70, e Mônica Torres: ex-mulheres

A versatilidade do ator não se limita à televisão. Wilker faz um programa na Rádio Paradiso e toda semana grava um comentário de cinema para o canal por assinatura Telecine. Nessas atividades, ele faz o gênero "ator-que-pensa", o que talvez explique sua fama de arrogante. Desde junho do ano passado, Wilker também é diretor-presidente da Riofilme, a entidade de cinema da prefeitura do Rio de Janeiro. Somando o salário da Globo a esses "bicos" públicos e privados, estima-se que o ator ganhe em torno de 50.000 reais por mês. A despeito das finanças folgadas, mantém uma vida discreta. "Sou avesso a badalação. Muitas vezes fico em casa assistindo a um filminho", diz. Em sua casa no bairro carioca do Jardim Botânico, possui mais de 4.000 DVDs. O próprio Wilker participou de algumas produções brasileiras marcantes, como Dona Flor e Seus Dois Maridos – até hoje a maior bilheteria nacional, com 12 milhões de espectadores. Ficou famosa a cena final do filme, em que ele desce a ladeira do Pelourinho, em Salvador, abraçado a Sônia Braga .– e completamente nu. Wilker nem lembra como fez a cena: precisou tomar um pileque homérico para encarar a filmagem.

O jeito meio pretensioso já vem da infância em Juazeiro do Norte, Ceará. Quarto filho de uma família de seis irmãos, Wilker atazanava a família recitando literatura de cordel. "Eu era muito chato. Às vezes eles me pagavam para ficar quieto'', lembra. Iniciou sua carreira na TV Rádio Recife. Como bom dublê de ator e intelectual, nutriu suas simpatias pelo comunismo e chegou a ser preso algumas vezes depois do golpe de 1964. "Nessa época, também puxei fumo e tomei ácido para abrir as portas da percepção", diz. Cinéfilo inveterado, por muito tempo desprezou a televisão. Mas capitulou em 1971, quando estreou na Globo, na novela Bandeira 2. Desde então, já atuou em trinta programas da emissora – fez até o personagem-título de um dos mais célebres folhetins da Globo, Roque Santeiro (1985). Também se arriscou na direção, administrando os egos dos atores do humorístico Sai de Baixo. Dessa ampla experiência televisiva, desenvolveu um método curioso de avaliar o próprio trabalho: "Sei que o personagem está bom quando os câmeras e os contra-regras, que são todos macacos velhos, se interessam pela cena". E é notável como José Wilker, com sua voz grave e sua maneira estranhamente pausada de falar, consegue segurar a atenção de câmeras e telespectadores nos mais diversos papéis. "Minha mãe falava que eu era o seu filho esquisito", diz. Um esquisito que satisfaz.

 
 
 
 
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