Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Cinema
Monstro com alma?

Filme choca alemães com o lado
"humano" de Hitler

Divulgação
Ganz (à dir.): atuação brilhante

Na história moderna, nenhuma nação tem um ponto de ruptura tão claro e tormentoso com o passado quanto a Alemanha pós-Adolf Hitler. Não é de admirar, portanto, que até hoje o ditador nunca tivesse sido interpretado por um ator numa produção alemã – e que o primeiro filme a quebrar esse tabu, Der Untergang ("O Declínio"), venha suscitando uma virulenta polêmica no país desde sua estréia, há poucos dias. A recriação histórica do diretor Oliver Hirschbiegel e a atuação do suíço Bruno Ganz têm sido aplaudidas por especialistas como o inglês Ian Kershaw, um dos maiores biógrafos de Hitler, que escreveu a respeito no jornal The Guardian. A controvérsia reside no retrato do ditador como um homem capaz de momentos de generosidade – por exemplo, no trato com seus subalternos. É no relato de uma de suas secretárias, Traudl Junge, que boa parte de Der Untergang se baseia, assim como em depoimentos de pessoas presentes a seus últimos dias, num bunker, enquanto a Alemanha era derrotada na II Guerra Mundial e Hitler oscilava entre delírios otimistas e acessos de fúria homicida. O que Der Untergang de fato trouxe à tona foi uma indagação – se a Alemanha democrática de hoje estaria pronta a examinar mais de perto, e sem o anteparo da demonização (que muitos alemães julgam imprescindível), os anos em que sucumbiu ao nazismo. Kershaw aposta que sim, a julgar pela própria existência de Der Untergang – mas ressalta que nem ele nem nenhum outro filme, estudo ou ensaio serão capazes de explicar a contento o enigma de Hitler e da adesão popular a seu regime de atrocidades.

 
 
 
 
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