|
|
Música
Vassalos
da MPB
Por
que os jovens roqueiros
tomam a bênção
dos senhores feudais da música brasileira

Sérgio Martins
Raphael Falavigna
 |
| Pitty: ela não
resistiu à tentação de cantar Chico Buarque
em seu show |
A cantora
baiana Pitty é um fenômeno recente do pop-rock nacional.
Seu CD de estréia, Admirável Chip Novo, bateu
a marca de 100.000 cópias vendidas e estourou quatro músicas
nas rádios. As crianças e o público adolescente
não apenas gostam de Pitty como começam a imitar seu
estilo. Ela exala espírito roqueiro. É cheia de "atitude"
e tem um conhecimento enciclopédico de seu gênero musical
preferido. Ex-estudante de música da Universidade Federal
da Bahia, teve o topete de montar uma banda punk no período
áureo da axé music. E continuou a fazer rock mesmo
depois de ver muitos de seus amigos de farra largar a pauleira para
correr atrás do trio elétrico. "Posso até tomar
uma cerveja com a moçada do axé, mas jamais me convidem
para assistir a um show deles", diz. Pitty se orgulha de não
fazer concessões. "As pessoas me perguntam: 'Você mistura
rock com quê?' Misturo rock com rock, ora bolas!" Quase sempre,
pelo menos. Em seus shows, Pitty tem tocado a canção
Deus Lhe Pague, de Chico Buarque. Nem a ortodoxa roqueira
baiana se livra da vassalagem que o rock brasileiro não se
cansa de prestar à MPB.
Quando
Pitty se gaba de não fazer "misturas", ela tenta marcar diferença
em relação a grupos como o pernambucano Nação
Zumbi, que casa heavy metal com maracatu, ou o carioca Los Hermanos,
que combina samba e rock. Mas o problema não está
exatamente nas fusões. Há tempos o gene da mistura
faz parte do DNA da música brasileira. Os tropicalistas baianos
tinham até mesmo uma "téoria" para legitimar esse
tipo de ação. Citavam o modernista Oswald de Andrade
(1890-1954), que falava em "antropofagia cultural": o negócio
era devorar o que vinha de fora e combinar com as tradições
locais. Lembre-se a guitarra elétrica que Gilberto Gil e
os Mutantes acrescentaram à regionalíssima Domingo
no Parque, em 1967. O verdadeiro problema dos roqueiros
brasileiros de hoje em dia é o excesso de reverência
para não dizer o complexo de inferioridade
em relação aos suseranos da MPB. Do ponto de vista
mercadológico, isso não faz sentido nenhum. Estrelas
ascendentes do pop vendem mais que um veterano da MPB. Ainda assim,
elas não apenas regravam sem parar músicas velhas
como pedem a bênção a grandes senhores feudais
como Caetano Veloso, Chico Buarque ou Milton Nascimento e
até a baronetes como Lô Borges. Esperam, com isso,
ganhar uma espécie de "selo de qualidade" para o seu trabalho.
Os veteranos, por seu turno, além de se gratificar com a
tietagem, podem dizer que estão sintonizados com as novidades
e têm a chance de conquistar novos fãs.
Um elogio
de Caetano Veloso sempre foi o mais cobiçado e ele
nunca os poupou. Caetano já "achou lindo" o RPM e já
classificou de "alta MPB" a música dos Titãs. Paula
Toller, do Kid Abelha, acredita ser uma boa letrista porque Caetano
certa vez aplaudiu os versos da canção Como Eu
Quero. Mais recentemente, o cantor deixou clara sua simpatia
pela música do Los Hermanos que, no entanto, tem Chico
Buarque como seu principal ídolo. Outra grife que os roqueiros
cortejam é a de Gilberto Gil. Os Paralamas do Sucesso tocaram
com ele nos anos 80, Chico Science, nos anos 90 e, em 2002, o Cidade
Negra exultou com a participação do futuro ministro
em seu disco acústico. Mas a mais surpreendente "homenagem"
prestada aos veteranos da MPB está no caso de amor entre
o Skank e o Clube da Esquina. O Skank é uma banda popular
de reggae e rock psicodélico. O Clube da Esquina foi um movimento
tedioso que tomou conta de Belo Horizonte nos anos 70. Seus expoentes
eram Milton Nascimento, Beto Guedes e Lô Borges. Até
se compreende que os rapazes do Skank, naturais de Minas Gerais,
sintam alguma nostalgia da infância ao ouvir um dos clássicos
do Clube. Mas para que ressuscitar Lô Borges? O grande projeto
de Samuel Rosa é gravar um disco com seu velho ídolo
(e bota velho nisso) no ano que vem.
De toda
essa patética vassalagem, a sensação que fica
é que todo guitarrista nacional é um violonista enrustido,
pronto a cantar as proezas do mulato inzoneiro e que o rock
brasileiro não passa mesmo de uma província da MPB.
Às vezes, até parecem existir alguns territórios
livres. Atualmente, há cenas independentes de rock fervilhando
em capitais como Goiânia e Curitiba. O mesmo ocorre na Salvador
de Pitty. Pelo menos até o próximo elogio de Caetano
Veloso.
|
OS
TRIBALISTAS
Divulgação
 |
Eles
são adeptos da "antropofagia cultural". Na tentativa
de criar novos estilos, misturam rock com maracatu ou
samba. São fãs de Gilberto Gil e dos Mutantes.
Quem são:
Nação Zumbi, O Rappa
OS "MONTANHA"
Ana Lima
 |
Jovens
mineiros, tomaram a cena pop brasileira com reggae e
música negra, mas queriam mesmo fazer parte do
Clube da Esquina. Adoram Lô Borges e Milton Nascimento.
Quem são:
Skank e Jota Quest
Ana Lima
 |
OS INTELECTUAIS
Jovens
criados ao som de MPB, reverenciam Chico Buarque e Caetano
Veloso e tentam imitar suas letras "cabeça"
Quem
são: Los Hermanos
|
|
|