Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Livros
Tragédia e festa

Toda a extravagante boemia
da Era do Jazz
nos contos do
americano F. Scott Fitzgerald


Moacyr Scliar

Fitzgerald: "Não há segundo ato nas vidas americanas"


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Trecho do livro

Francis Scott Fitzgerald hoje é lembrado principalmente como o romancista de O Grande Gatsby. Mas o escritor americano na verdade construiu sua fama – e sua mal administrada fortuna – com o conto. Publicando em revistas de grande circulação em sua época, ele ganhou o dinheiro de que necessitava para sustentar-se enquanto escrevia os romances, que considerava a sua legítima produção literária. Destinadas a um público mais amplo, as histórias curtas coletadas em 24 Contos de F. Scott Fitzgerald (tradução de Ruy Castro; Companhia das Letras; 478 páginas; 36,50 reais) revelam um intérprete sensível – e acessível – da sociedade americana. Não um intérprete engajado, diga-se logo: escritores politizados como John Steinbeck apareceriam só depois da depressão de 1929. Fitzgerald é o escritor dos frenéticos anos 1920, que ele mesmo batizou como "a Era do Jazz".

Nessa coletânea de contos, encontramos algumas das citações mais famosas de Fitzgerald. São frases que valem como fórmulas sintéticas para entender a cultura americana: "Não há segundo ato nas vidas americanas", ou "Mostre-me um herói e eu escreverei uma tragédia". Essa percepção trágica de uma era festiva está amparada na biografia agitada do autor. Filho de um empresário fracassado, Fitzgerald e sua mulher, Zelda, levaram uma vida de extravagante boemia nos anos 20. Paris atraía então escritores americanos como Ernest Hemingway (que rememora a época, com revelações indiscretas sobre Fitzgerald, em Paris É uma Festa), Gertrude Stein e Henry Miller. A capital francesa é o cenário do conto mais famoso de Fitzgerald, Babilônia Revisitada. É a história de Charles Wales, americano que retorna a Paris para recuperar a filha pequena, mas é perseguido por companheiros das farras do passado. Emerge o dilema: terminaram os anos de loucura? Começou a era da responsabilidade? O conto não dá respostas a essas questões. Fitzgerald e sua mulher tampouco conseguiram encontrá-las. Doente, bebendo muito, cheio de dívidas, o escritor morreu aos 44 anos, de um ataque cardíaco, em 1940. Zelda morreu oito anos depois, quando o hospital psiquiátrico em que estava internada se incendiou. Na vida de ambos, não houve segundo ato.

 
Os muito ricos

"Vou lhe contar sobre os muito ricos. Eles são diferentes de mim ou de você. Habituaram-se desde cedo a possuir e usufruir, e isso modifica alguma coisa dentro deles, faz com que sejam suaves naquilo em que somos duros, cínicos quando somos esperançosos. É difícil de entender, a não ser que você tenha nascido rico. No fundo acham-se melhores do que nós, porque temos de descobrir por conta própria os refúgios e compensações da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente em nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível, ainda assim continuam achando que são melhores do que nós."

Trecho do conto O Menino Rico

 
 
 
 
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