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Livros
Tragédia e festa
Toda
a extravagante boemia
da Era do Jazz
nos contos do
americano F. Scott Fitzgerald

Moacyr Scliar
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| Fitzgerald: "Não
há segundo ato nas vidas americanas" |
Francis
Scott Fitzgerald hoje é lembrado principalmente como o romancista
de O Grande Gatsby. Mas o escritor americano na verdade construiu
sua fama e sua mal administrada fortuna com o conto.
Publicando em revistas de grande circulação em sua
época, ele ganhou o dinheiro de que necessitava para sustentar-se
enquanto escrevia os romances, que considerava a sua legítima
produção literária. Destinadas a um público
mais amplo, as histórias curtas coletadas em 24 Contos
de F. Scott Fitzgerald (tradução de Ruy Castro;
Companhia das Letras; 478 páginas; 36,50 reais) revelam um
intérprete sensível e acessível
da sociedade americana. Não um intérprete engajado,
diga-se logo: escritores politizados como John Steinbeck apareceriam
só depois da depressão de 1929. Fitzgerald é
o escritor dos frenéticos anos 1920, que ele mesmo batizou
como "a Era do Jazz".
Nessa
coletânea de contos, encontramos algumas das citações
mais famosas de Fitzgerald. São frases que valem como fórmulas
sintéticas para entender a cultura americana: "Não
há segundo ato nas vidas americanas", ou "Mostre-me um herói
e eu escreverei uma tragédia". Essa percepção
trágica de uma era festiva está amparada na biografia
agitada do autor. Filho de um empresário fracassado, Fitzgerald
e sua mulher, Zelda, levaram uma vida de extravagante boemia nos
anos 20. Paris atraía então escritores americanos
como Ernest Hemingway (que rememora a época, com revelações
indiscretas sobre Fitzgerald, em Paris É uma Festa),
Gertrude Stein e Henry Miller. A capital francesa é o cenário
do conto mais famoso de Fitzgerald, Babilônia Revisitada.
É a história de Charles Wales, americano que retorna
a Paris para recuperar a filha pequena, mas é perseguido
por companheiros das farras do passado. Emerge o dilema: terminaram
os anos de loucura? Começou a era da responsabilidade? O
conto não dá respostas a essas questões. Fitzgerald
e sua mulher tampouco conseguiram encontrá-las. Doente, bebendo
muito, cheio de dívidas, o escritor morreu aos 44 anos, de
um ataque cardíaco, em 1940. Zelda morreu oito anos depois,
quando o hospital psiquiátrico em que estava internada se
incendiou. Na vida de ambos, não houve segundo ato.
| Os
muito ricos |
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"Vou
lhe contar sobre os muito ricos. Eles são diferentes
de mim ou de você. Habituaram-se desde cedo a
possuir e usufruir, e isso modifica alguma coisa dentro
deles, faz com que sejam suaves naquilo em que somos
duros, cínicos quando somos esperançosos.
É difícil de entender, a não ser
que você tenha nascido rico. No fundo acham-se
melhores do que nós, porque temos de descobrir
por conta própria os refúgios e compensações
da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente em
nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível,
ainda assim continuam achando que são melhores
do que nós."
Trecho
do conto O
Menino Rico
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