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Livros
Inglês para inglês
ver
O britânico
típico fixado nos livros do
humorista
P.G. Wodehouse não existe
mais.
Mas ainda provoca ótimas risadas

Jerônimo Teixeira
AP
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Wodehouse
(à esq.),
sua mulher, Ethel, e um diplomata em Berlim, 1941: inocência
útil para os nazistas
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Os livros de P.G. Wodehouse
são tão tipicamente ingleses quanto o fish'n'chips,
o tradicional prato de peixe com batatinhas que é o equivalente
britânico do feijão com arroz. Humorista prolífico,
autor de mais de noventa livros, Pelham Grenville Wodehouse deve
sua fama sobretudo aos onze romances e 33 coletâneas de contos
protagonizados por Bertram Wooster e Jeeves. O leitor brasileiro
pode conhecer essa impagável dupla em dois romances que estão
chegando às livrarias: Então Tá, Jeeves
(tradução de Beth Vieira; Globo; 282 páginas;
32 reais), originalmente publicado em 1934, e Sem Dramas,
Jeeves (tradução de Beatriz Sidou; Globo;
220 páginas; 32 reais), de 1963. Jovem, rico, solteiro convicto,
Bertram (Bertie, para os íntimos) Wooster é um dândi
que ostenta sua orgulhosa ociosidade no Drones, um clube masculino
de Londres, e nas mansões rurais de tias excêntricas.
Sua dependência em relação a Jeeves, o mordomo,
é quase patológica. Como o próprio Wooster
diz, Jeeves é na verdade mais que um simples mordomo: é
o "cavalheiro de um cavalheiro" (a expressão em inglês
é mais eufônica: a gentleman's gentleman). O
máximo de emoção que o fleumático Jeeves
demonstra é quando arqueia de leve a sobrancelha direita.
Tão prestativo e preciso é Jeeves em todos os seus
serviços que até já serviu para batizar um
mecanismo de busca na internet o Ask Jeeves.
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No início dos
anos 90, a dupla ainda figurava em uma série da televisão
inglesa, com Hugh Laurie e Stephen Fry nos papéis principais.
É de perguntar, porém, se essa combinação
de mestre avoado e mordomo rígido continua representativa
de um país cuja família real freqüenta os mais
escandalosos tablóides. Em um ensaio sobre Wodehouse datado
de 1945, George Orwell, o autor de A Revolução
dos Bichos, observava que o dandismo despreocupado de Wooster
vicejou no breve reinado de Edward VII (1901-1910). Esse espírito
teria sobrevivido no máximo até 1915 dois anos
antes de Wodehouse lançar o personagem no conto O Homem
com Dois Pés Esquerdos. Afetivamente ligado a um mundo
extinto, Wodehouse evitaria sempre os debates políticos próprios
de seu tempo. Essa inocência ideológica acabou sendo
útil para os nazistas. O escritor vivia na França
quando o país foi invadido pela Alemanha, em 1940. Como cidadão
britânico, foi gentilmente conduzido a um campo de prisioneiros,
onde permaneceu até algum acólito de Goebbels ter
tido a idéia de aproveitá-lo na propaganda de guerra.
Afinal, Wodehouse era visto pelos alemães como um satirista
mordaz das elites inglesas (ainda que seu humor seja na verdade
muito simpático aos ricos). Em 1941, o escritor foi levado
a Berlim, onde deu desastradas entrevistas radiofônicas elogiando
o bom tratamento que recebeu dos alemães. Bibliotecas inglesas
baniram seus livros e discursos foram proferidos no Parlamento acusando
Wodehouse de traidor. Orwell, no ensaio citado, dá a devida
proporção aos fatos: Wodehouse não era traidor
nem colaboracionista. Era simplesmente um tonto.
Depois
da guerra, para evitar a animosidade em seu país natal, Wodehouse
radicou-se nos Estados Unidos. Escreveu livros, roteiros de cinema,
peças de teatro, letras de canção (chegou a
colaborar com figurões da música americana, como Cole
Porter e George Gershwin). Pouco antes de morrer, em 1975, com 93
anos, teve sua reputação patriótica definitivamente
restaurada: recebeu o título de sir. Hoje é lembrado
principalmente como um grande humorista. Não espere, porém,
a ironia cáustica de um Swift ou de um Shaw. As aventuras
de Wooster e Jeeves não pedem o exercício intelectual
do leitor, mas buscam a risada espontânea. Narradas sempre
por Wooster, as histórias se atêm a um esquema básico:
o mestre se enrosca nas mais esdrúxulas confusões,
e na última hora o mordomo providencial vem em seu socorro.
A galeria de personagens inclui tias dominadoras (filho de pais
tão ricos quanto negligentes, Wodehouse passou grande parte
da infância sob o cuidado de tias), meninas sonhadoras e amigos
trapalhões. O melhor são os diálogos ágeis
entre o despachado Wooster e o formal Jeeves só um
desses esquetes vale por todos aqueles quadros velhos que Jô
Soares insiste em tirar do fundo da caneca. Já foi dito que
a dupla, conjugando o mestre insensato e o servidor esperto, segue
a tradição de Dom Quixote e Sancho Pança. Mas
Wooster e Jeeves não têm a profundidade das criações
de Cervantes. São apenas tipos, representações
hilariantes de um caráter inglês que não existe
mais.
| Um
mordomo magnético |
Granada
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| Wooster
(Laurie) e Jeeves (Fry) em
série de TV: popularidade |
"Há aspectos, no caráter de Jeeves,
que muitas vezes acarretaram o surgimento de uma certa
frieza entre nós. Ele é um daqueles indivíduos
que, quando você lhe dá um troço,
quer logo outro treco. Seu trabalho é no mais
das vezes tosco e sabe-se de fontes seguras que já
se referiu a mim como alguém 'mentalmente insignificante'.
Mais de uma vez, foi meu penoso dever esmagar nele essa
tendência de se mostrar superior e de tratar seu
jovem senhor como um servo ou peão.
Esses
são os defeitos graves.
Porém
num aspecto jamais deixei de lhe tirar o chapéu.
Jeeves é magnético. Há qualquer
coisa nele que acalma e hipnotiza. Pelo que sei, jamais
esteve frente a frente com um rinoceronte furioso, mas,
caso isso ocorresse, não tenho a menor dúvida
de que o animal, ao se ver diante dele, estancaria o
passo, deitaria no chão e começaria a
ronronar com as patas para o alto."
Trecho
de Então Tá,
Jeeves
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