Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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O britânico típico fixado nos livros do
humorista P.G. Wodehouse não existe
mais. Mas ainda provoca ótimas risadas


Jerônimo Teixeira

 
AP

Wodehouse (à esq.), sua mulher, Ethel, e um diplomata em Berlim, 1941: inocência útil para os nazistas



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Trecho dos livros
Então Tá, Jeeves
Sem Dramas, Jeeves

Os livros de P.G. Wodehouse são tão tipicamente ingleses quanto o fish'n'chips, o tradicional prato de peixe com batatinhas que é o equivalente britânico do feijão com arroz. Humorista prolífico, autor de mais de noventa livros, Pelham Grenville Wodehouse deve sua fama sobretudo aos onze romances e 33 coletâneas de contos protagonizados por Bertram Wooster e Jeeves. O leitor brasileiro pode conhecer essa impagável dupla em dois romances que estão chegando às livrarias: Então Tá, Jeeves (tradução de Beth Vieira; Globo; 282 páginas; 32 reais), originalmente publicado em 1934, e Sem Dramas, Jeeves (tradução de Beatriz Sidou; Globo; 220 páginas; 32 reais), de 1963. Jovem, rico, solteiro convicto, Bertram (Bertie, para os íntimos) Wooster é um dândi que ostenta sua orgulhosa ociosidade no Drones, um clube masculino de Londres, e nas mansões rurais de tias excêntricas. Sua dependência em relação a Jeeves, o mordomo, é quase patológica. Como o próprio Wooster diz, Jeeves é na verdade mais que um simples mordomo: é o "cavalheiro de um cavalheiro" (a expressão em inglês é mais eufônica: a gentleman's gentleman). O máximo de emoção que o fleumático Jeeves demonstra é quando arqueia de leve a sobrancelha direita. Tão prestativo e preciso é Jeeves em todos os seus serviços que até já serviu para batizar um mecanismo de busca na internet – o Ask Jeeves.

No início dos anos 90, a dupla ainda figurava em uma série da televisão inglesa, com Hugh Laurie e Stephen Fry nos papéis principais. É de perguntar, porém, se essa combinação de mestre avoado e mordomo rígido continua representativa de um país cuja família real freqüenta os mais escandalosos tablóides. Em um ensaio sobre Wodehouse datado de 1945, George Orwell, o autor de A Revolução dos Bichos, observava que o dandismo despreocupado de Wooster vicejou no breve reinado de Edward VII (1901-1910). Esse espírito teria sobrevivido no máximo até 1915 – dois anos antes de Wodehouse lançar o personagem no conto O Homem com Dois Pés Esquerdos. Afetivamente ligado a um mundo extinto, Wodehouse evitaria sempre os debates políticos próprios de seu tempo. Essa inocência ideológica acabou sendo útil para os nazistas. O escritor vivia na França quando o país foi invadido pela Alemanha, em 1940. Como cidadão britânico, foi gentilmente conduzido a um campo de prisioneiros, onde permaneceu até algum acólito de Goebbels ter tido a idéia de aproveitá-lo na propaganda de guerra. Afinal, Wodehouse era visto pelos alemães como um satirista mordaz das elites inglesas (ainda que seu humor seja na verdade muito simpático aos ricos). Em 1941, o escritor foi levado a Berlim, onde deu desastradas entrevistas radiofônicas elogiando o bom tratamento que recebeu dos alemães. Bibliotecas inglesas baniram seus livros e discursos foram proferidos no Parlamento acusando Wodehouse de traidor. Orwell, no ensaio citado, dá a devida proporção aos fatos: Wodehouse não era traidor nem colaboracionista. Era simplesmente um tonto.

Depois da guerra, para evitar a animosidade em seu país natal, Wodehouse radicou-se nos Estados Unidos. Escreveu livros, roteiros de cinema, peças de teatro, letras de canção (chegou a colaborar com figurões da música americana, como Cole Porter e George Gershwin). Pouco antes de morrer, em 1975, com 93 anos, teve sua reputação patriótica definitivamente restaurada: recebeu o título de sir. Hoje é lembrado principalmente como um grande humorista. Não espere, porém, a ironia cáustica de um Swift ou de um Shaw. As aventuras de Wooster e Jeeves não pedem o exercício intelectual do leitor, mas buscam a risada espontânea. Narradas sempre por Wooster, as histórias se atêm a um esquema básico: o mestre se enrosca nas mais esdrúxulas confusões, e na última hora o mordomo providencial vem em seu socorro. A galeria de personagens inclui tias dominadoras (filho de pais tão ricos quanto negligentes, Wodehouse passou grande parte da infância sob o cuidado de tias), meninas sonhadoras e amigos trapalhões. O melhor são os diálogos ágeis entre o despachado Wooster e o formal Jeeves – só um desses esquetes vale por todos aqueles quadros velhos que Jô Soares insiste em tirar do fundo da caneca. Já foi dito que a dupla, conjugando o mestre insensato e o servidor esperto, segue a tradição de Dom Quixote e Sancho Pança. Mas Wooster e Jeeves não têm a profundidade das criações de Cervantes. São apenas tipos, representações hilariantes de um caráter inglês que não existe mais.

 
Um mordomo magnético
Granada
Wooster (Laurie) e Jeeves (Fry) em série de TV: popularidade


"Há aspectos, no caráter de Jeeves, que muitas vezes acarretaram o surgimento de uma certa frieza entre nós. Ele é um daqueles indivíduos que, quando você lhe dá um troço, quer logo outro treco. Seu trabalho é no mais das vezes tosco e sabe-se de fontes seguras que já se referiu a mim como alguém 'mentalmente insignificante'. Mais de uma vez, foi meu penoso dever esmagar nele essa tendência de se mostrar superior e de tratar seu jovem senhor como um servo ou peão.

Esses são os defeitos graves.

Porém num aspecto jamais deixei de lhe tirar o chapéu. Jeeves é magnético. Há qualquer coisa nele que acalma e hipnotiza. Pelo que sei, jamais esteve frente a frente com um rinoceronte furioso, mas, caso isso ocorresse, não tenho a menor dúvida de que o animal, ao se ver diante dele, estancaria o passo, deitaria no chão e começaria a ronronar com as patas para o alto."

Trecho de Então Tá, Jeeves

 

 
 
 
 
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