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Conjuntura
O sonho de ser um país
normal
Com novo
aperto nas contas do
governo, o Brasil foge da armadilha
dos juros e ganha fôlego para crescer

Ronaldo França
Na entrevista
que deu a VEJA nas Páginas Amarelas há duas semanas,
o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, fez uma afirmação
de enorme significado, que cabe aqui relembrar. "O que se conseguiu
até agora foi fazer o Brasil voltar a ser um país
normal", disse Palocci, ao analisar os efeitos da política
econômica implementada pelo governo Lula. É um avanço.
Nas últimas décadas, o Brasil foi forçado a
enxergar a política econômica como um conjunto de medidas
de impacto destinadas a tirar o país de crises imediatas.
Foi assim na sucessão de pacotes antiinflação
na década de 80, nos choques de juros que reagiram às
grandes convulsões internacionais nos anos 90 e, mais recentemente,
no segundo turno da eleição presidencial de 2002,
quando a cotação do dólar chegou a atingir
4 reais.
A decisão
de aumento na meta de superávit primário (receitas
menos despesas do governo antes do desembolso dos juros) poderia
ser mais uma dessas medidas. Mas é bem diferente. A resolução
anunciada pelo ministro Palocci pode ter efeitos profundos. Ela
sinaliza uma saudável preocupação com a adoção
de métodos mais consistentes de combate à inflação
e de estímulo ao crescimento no longo prazo. Com a elevação
do superávit, o país terá 4,2 bilhões
de reais extras no caixa para ajudar a abater a dívida pública,
que hoje monta a 55,3% do produto interno bruto. É verdade
que o aperto será facilitado pelo aumento de 12 bilhões
de reais na arrecadação de impostos. Mas a medida
significa, sim, algum corte de despesas. E, sobretudo, identifica
pela primeira vez o descontrole do Estado como o centro do problema.
Se persistir nesse caminho, o Brasil terá inaugurado uma
era de prosperidade na história de suas políticas
econômicas.
A mesma
receita já foi testada, com sucesso, em vários países.
Na Irlanda, que manteve superávits em patamares elevados
durante treze anos, a dívida foi reduzida de 120% do PIB,
na década de 80, para 35%. O país diminuiu vertiginosamente
a carga de impostos e ostenta hoje uma das mais altas taxas de crescimento
da Europa, a um ritmo de 8% ao ano. A Bélgica é outro
exemplo de como a persistência nesse caminho pode ser saudável.
Praticou superávits sucessivos durante dezoito anos e conseguiu
reduzir um terço de sua dívida. A Itália fez
a mesma coisa e saiu de uma situação de déficit
para uma sobra de dinheiro em caixa. No Brasil, o aumento de juros
vinha sendo usado como uma ferramenta quase que exclusiva para impedir
a alta inflacionária. Embora seja um instrumento vital, a
taxa de juro é um remédio limitado e tem o efeito
colateral nefasto de inibir o investimento no setor produtivo e
fazer crescer o bolo da dívida já que o governo
tem de desembolsar mais dinheiro para remunerar os detentores de
seus títulos (veja quadro). O Brasil ocupa o segundo
lugar no ranking dos países de juros reais mais altos do
mundo, atrás somente da Turquia. Era mesmo a hora de o país
recorrer a outros instrumentos de política econômica
para aumentar seu arsenal no combate à inflação.
"O aumento do superávit neste momento tem a vantagem de preparar
o país para tempos de vacas magras", avaliza Armínio
Fraga, ex-presidente do Banco Central.
Os
indicadores da economia apontam para uma recuperação.
A produção industrial cresceu 13,3% em junho, em relação
ao mesmo mês do ano passado. A produção de bens
de capital, termômetro do que vai acontecer no longo prazo,
cresceu 33%. Ainda não se pode dizer que o país já
vive o esperado espetáculo do crescimento sustentado. Mas
não há como negar que as condições estão
dadas, o que torna o momento ainda mais acertado para uma medida
que exige credibilidade e apoio político. Bem orientada,
a política de corte de gastos tem chances reais de resultar
em mais investimentos públicos e privados, com custo financeiro
mais baixo para o governo e para as empresas. Não se conhece
no mundo fórmula melhor para que um país equilibre
sua economia que a austeridade nos gastos. Palocci também
anunciou, na semana passada, a redução da carga tributária
sobre máquinas e equipamentos. São medidas de efeito
duradouro. Ou seja, o Brasil pode estar começando efetivamente
a trilhar o caminho para se tornar um país normal. Simples
assim.
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