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Economia e Negócios
Tudo por um bom negócio
Em plena era
da internet, profissionais brasileiros correm o mundo para aumentar
as exportações

Chrystiane Silva
Kiko Ferreti
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| Amir
Slama pôs o biquíni
brasileiro no centro da moda americana mesmo com medo de errar
o present perfect |
Nem toda
a tecnologia disponível no século XXI conseguiu eliminar
a mais antiga e eficaz técnica de negociação:
o olho no olho. Empresas de vários tamanhos não dispensam
a figura do caixeiro-viajante para fechar negócios no exterior.
Eles estão presentes em setores tão díspares
quanto o de aviões e o de biquínis. Alguns chegam
a acumular mais horas de vôo durante um ano do que pilotos
de empresas aéreas. Esses gerentes e diretores de exportação
são alguns dos protagonistas de uma revolução
na história da economia nacional. No ano passado, o Brasil
vendeu 73 bilhões de dólares ao exterior, um recorde
histórico. Há dez anos, as exportações
não passavam de 43 bilhões de dólares. Em 1994,
a abertura comercial (medida pela soma das importações
e exportações em relação ao PIB) era
de 14,1%. Já neste ano, deve chegar a 25%.
Vários
fatores explicam esse avanço. Alguns se relacionam à
flutuação do câmbio, em 1999, que tornou os
produtos brasileiros mais competitivos no exterior. Mas uma parte
desse resultado se deve a relações de confiança
construídas entre empresas nacionais e compradores externos.
E esses relacionamentos são fortalecidos por contatos pessoais.
O caso da Embraer é ilustrativo. Em grandes operações
da companhia, uma das quatro maiores indústrias de aeronaves
do mundo, as transações progridem apenas se houver
a segurança de que os contratos serão cumpridos. Aviões
custam caro e a maior parte das vendas exige financiamento bancário.
Além disso, as aeronaves precisam de manutenção
por longos períodos, que podem chegar a quinze anos. Sem
confiança, não há negócio. Na última
transação feita pela Embraer, foram vendidas doze
aeronaves por 306 milhões de dólares para a Finnair,
uma empresa finlandesa. Durante cerca de dois anos, os executivos
da Embraer esforçaram-se pessoalmente para convencer os finlandeses
de que os aviões seriam capazes de decolar com temperaturas
abaixo de 20 graus negativos.
Álbum de família
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| Angela
Hirata vende Havaianas por até 250 dólares
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"O relacionamento
pessoal traz conforto e tranqüilidade ao cliente", diz Frederico
Fleury Curado, vice-presidente executivo da empresa. Curado é
um típico caixeiro-viajante. Faz 35 viagens anuais para o
exterior e passa 75 noites por ano dentro do avião. Para
ter um pouco mais de conforto, usa sempre uma máscara para
dormir e protetores de ouvido. Seu recorde foi chegar a Cingapura
às 10 horas, participar da inauguração de um
escritório e pegar o vôo de volta para o Brasil às
20 horas, uma maratona de fusos horários capaz de tirar do
prumo o mais experiente dos viajantes.
Os caixeiros
modernos desmentem a velha crença de que "os produtos brasileiros
não são vendidos, mas comprados". Ou seja, eles são
comercializados quando a parte compradora demonstra interesse, pois
o vendedor não mexe uma palha. Isso é passado. Parte
relevante do crescimento das exportações brasileiras
resulta do voluntarismo de vários setores do agrícola
ao automobilístico. Hoje, um número crescente de empresas
transformou em rotina a busca por novos mercados fora das fronteiras
brasileiras. O estilista Amir Slama, dono da Rosa Chá, decidiu
ganhar o mercado internacional com seus biquínis e moda praia
em 1997. Sem conhecer ninguém no exterior, montou uma mala
com seus principais modelos e catálogos e foi visitar grandes
lojas como a Barneys em Nova York. Logo nas primeiras visitas, conseguiu
que suas peças figurassem entre os editoriais de moda de
revistas como Elle e Vogue. "Meu maior desafio era
vencer o medo de falar inglês. Tinha receio de errar o present
perfect", lembra Slama com humor. Depois de inúmeras visitas
a lojas e da participação em desfiles internacionais,
a Rosa Chá conseguiu expandir sua marca para dezesseis países.
No começo deste ano, a top model Naomi Campbell pediu a Slama
que criasse uma coleção de biquínis que será
comercializada nos Estados Unidos com seu nome. A Speedo, marca
tradicional de esportes aquáticos, também solicitou
uma coleção exclusiva. As peças serão
feitas no Brasil, contrariando a tendência da Speedo, que
utiliza mão-de-obra chinesa. São empregos e dólares
para o país.
Não
deixa de ser curioso que o contato pessoal, o olho no olho, tenha
resistido ao avanço da tecnologia. Há dez anos, um
minuto de ligação telefônica entre o Rio de
Janeiro e Nova York custava 2,36 dólares. Hoje, é
possível achar operadoras que cobram 36 centavos de dólar
pelos mesmos sessenta segundos. Até para quem faz questão
de ver o interlocutor ficou mais barato. O preço das videoconferências
caiu dez vezes desde meados da década de 90. Isso tudo sem
falar em e-mails, que são quase instantâneos e custam
muito pouco.
Claudio Rossi
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| José
Casarin visitou 46 países em dois
anos |
Mas conhecer
o cliente de perto pode dar oportunidades que as novas tecnologias
não proporcionam. A brasileira Angela Hirata, que desde 2001
é responsável pelas negociações internacionais
da Alpargatas, dona da marca Havaianas, passa seis meses por ano
fora do Brasil. Após uma apresentação para
executivos em Tóquio, em abril, Angela conheceu informalmente
um dos representantes da Celux, uma loja multimarcas japonesa. A
Celux é restrita aos sócios, que desembolsam 2.500
dólares por ano para ter acesso a produtos exclusivos de
grifes famosas. "Levamos as Havaianas para a Celux. Dificilmente
conseguiria isso se não estivesse lá", diz Angela.
No exterior,
a estratégia da Alpargatas foi colocar a marca numa categoria
premium, a de maior preço. Por esse motivo, as sandálias
não são vendidas em redes populares no exterior, como
a Wal-Mart, e estão nos pés de famosos como Madonna.
Um par de sandálias Havaianas chega a custar 250 dólares
no Japão. Graças a essa estratégia, as Havaianas,
presentes em 63 países, já representam 50% das exportações
da Alpargatas.
Claudio Rossi
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| Frederico
Curado, com
o presidente da JetBlue, David Neeleman: negócios dependem
da confiança |
Várias
empresas brasileiras investem pesado nas negociações
internacionais porque elas representam dólares em caixa.
Foi pensando assim que a Marilan, uma fabricante de biscoitos no
interior de São Paulo, destacou José Eduardo Casarin,
gerente de comércio exterior, para percorrer o mundo em busca
de novas oportunidades. Nos últimos dois anos, Casarin visitou
46 países. "O foco não é fazer uma negociação
esporádica, mas sim parcerias de longo prazo", diz. Com dólares
em caixa, a Marilan pôde, por exemplo, investir na ampliação
da linha de produção, que custou cerca de 4 milhões
de dólares.
A busca
de empresas nacionais por mercados externos tem sido tão
grande que coloca em dúvida uma tese recorrente sobre o desempenho
da economia brasileira: a de que as exportações vão
despencar quando o mercado doméstico se recuperar de vez.
Essa tese deve-se ao fato de que os saltos anteriores das exportações
foram, em parte, conseqüência do desaquecimento interno.
No passado, sempre que as vendas internas se recuperaram, as empresas
abandonaram as exportações. No entanto, para uma parcela
dos empresários, isso não acontecerá mais,
já que teria havido uma mudança estrutural na economia.
Depois de tantos ciclos de crescimento fracassados no país,
o empresariado nacional teria descoberto que a busca por novos mercados
não é apenas uma estratégia para sair de crises,
mas também um instrumento permanente para não ser
apanhado por elas.
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O kit básico
dos viajantes
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CALMANTES
Para
tornarem a noite menos desconfortável,
os executivos recorrem a pílulas para dormir
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CONTRA
A LUZ E OS RUÍDOS
Máscara
para dormir e protetor auricular são usados
nas longas viagens
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Alexandre
Battibugli
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COMUNICAÇÃO
Alguns executivos
têm aparelhos para cada região do
planeta. Outros preferem alugar o celular no local
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LAPTOPS
São
indispensáveis nas viagens para ter acesso
aos e-mails e notícias e manter arquivados
os documentos e relatórios
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Marcelo
Zocchio
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Mari Queiroz
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BAGAGEM
A mala ideal
é a que pode ser levada dentro do avião:
evita filas no desembarque e o extravio
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