Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Polêmica
E os exóticos somos nós...

Ameaça de proibir a caça à raposa
exalta os ânimos na Inglaterra, e
na França o lobo vira vilão


Rosana Zakabi

 
AP
Caça à raposa na Inglaterra: esportistas e fazendeiros de um lado, ecologistas do outro

Na Inglaterra é sempre uma temeridade mexer com as tradições. Por isso mesmo, a ameaça de proibição de um dos mais antigos esportes praticados no país, a caça à raposa, tem deixado os ânimos exaltados entre os súditos da rainha Elizabeth II. A briga é entre os ambientalistas e os cerca de 250.000 adeptos do esporte – entre eles o príncipe Charles e seus filhos, William e Harry. Os primeiros o consideram uma barbárie contra os animais – todo ano, cerca de 20.000 raposas morrem nas mandíbulas dos cães que acompanham os caçadores. Estes últimos argumentam que a caça é uma forma de controlar a procriação da raposa, predadora contumaz de ovelhas e galinhas que dá muitas dores de cabeça aos fazendeiros. Além disso, eles acenam com o fato de que a caça ao animal emprega 15.000 pessoas, entre treinadores de cães, funcionários de estábulos e auxiliares, e movimenta 600 milhões de dólares por ano.

Há duas semanas, numa sessão tumultuada, a Câmara dos Comuns da Inglaterra aprovou por 356 votos a 166 uma lei que proíbe a caça à raposa no país. Do lado de fora do Parlamento, em Londres, 10.000 manifestantes contrários à lei gritavam palavras de ordem, atiravam garrafas, soltavam fogos de artifício e enfrentavam os policiais. Cinco deles chegaram a invadir os salões da Câmara durante a votação e foram retirados à força. Agora, a lei precisa ainda passar pela Câmara dos Lordes. Nessa instância, prevê-se que seja revogada – a maioria dos representantes da casa são entusiastas do esporte e muitos o praticam. A tradição da caça à raposa remonta ao século XVII, quando se tornou o divertimento preferido da nobreza. James I, que ocupou o trono de 1603 a 1625, batizava os novos caçadores com sangue de raposa. A primeira grande caça, em moldes semelhantes aos da que ocorre hoje, foi organizada pelo duque de Buckingham em 1668 em Yorkshire. Segundo historiadores, o duque era fanático pelo esporte e morreu vítima de uma forte gripe contraída durante uma caçada.

A França também tem abrigado polêmicas envolvendo animais, mas nesse caso os vilões são os lobos e os ursos. Na semana passada, no mais recente de uma série de protestos, 500 fazendeiros da região dos Alpes franceses – misturados alegremente a suas vacas e ovelhas – desfilaram pelas ruas de Chambery renovando seus pedidos para que o governo permita a caça aos lobos que atacam os rebanhos. Segundo eles, só no ano passado foram 500 ataques de lobos, que mataram 2.177 animais. Os lobos haviam sido exterminados pelos fazendeiros franceses em 1924, mas começaram a reaparecer no sudeste do país em 1992, provavelmente vindos da Itália. As autoridades francesas estimam que naquela época havia menos de cinco deles no país. Hoje, são mais de cinqüenta. Mesmo causando tantos estragos, o animal é protegido pela lei ambiental e não pode ser caçado. Diante dos ataques e da pressão dos fazendeiros, o governo francês acabou autorizando a caça limitada a alguns tipos de lobo. "Essa medida não tem o objetivo de reduzir a população de lobos, mas o de resolver alguns problemas locais", disse o ministro francês do Meio Ambiente, Serge Lepeltier.

Já nos montes Pireneus, na fronteira da França com a Espanha, quem aterroriza os rebanhos são os ursos. O curioso é que até há quatro anos eles eram considerados extintos na região, culminando um processo sistemático de eliminação pelos fazendeiros iniciado no século passado. Em 2000, alegando que o urso é um símbolo tradicional dos Pireneus, organizações ambientalistas importaram um grupo de animais da Eslovênia com o apoio de autoridades locais. Menos sentimentais que os ecologistas, os fazendeiros conseguiram que o Parlamento francês autorizasse a devolução de parte dos ursos ao país de origem e voltaram a criar um cão da montanha, o patous, especializado em manter os ursos longe das propriedades. Símbolo por símbolo, os fazendeiros preferem aquele que protege os rebanhos.

 
 
 
 
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