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Comportamento
A gatinha é pop
De
brinquedinho de criança, Hello Kitty,
30 anos,
virou ícone das modernas

Bel Moherdaui
Divulgação
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Não
se deixem enganar pela carinha meiga, de olhos redondos e ar angelical:
essa gatinha é uma sobrevivente num dos mais cruéis
campos de batalha do mundo, o das preferências do exigentíssimo
público infanto-juvenil do Japão, acostumado a uma
quase inimaginável quantidade de apelos mercadológicos.
Samurai em sua terra natal, virou guerrilheira no exterior, enfrentando
com seu corpinho minúsculo as curvas e os dotes peitorais
de concorrentes do teor de uma Barbie e não fazendo feio
diante da hegemonia dos personagens da Disney. Feita para menininhas,
hoje, a pouco mais de um mês de completar 30 anos (embora
não pareça ter mais de 3), Hello Kitty atingiu o status
de ícone pop, cultuada por mulheres que têm tantos
anos quanto ela ou mais. "Comecei a comprar Hello Kitty quando viajava.
Hoje, compro compulsivamente. Entro no site quase todos os dias",
diz a promotora de eventos Lelê Nakao, 39 anos, mais de 1.000
produtos em casa e, no corpo, dez tatuagens da gata-boneca. A lista
de fãs famosas da gatinha japonesa é estelar: Britney
Spears, Drew Barrymore, Christina Aguilera, Mariah Carey, e por
aí vai. Mas é a legião de seguidoras anônimas
que faz qualquer loucura para bancar o equivalente a 2.400 reais
por uma televisão cor-de-rosa conjugada com DVD, 315 reais
por um telefone com fio, 343 reais por uma sanduicheira que desenha
a bonequinha no pão, num furor aquisitivo que movimenta 4
bilhões de dólares por ano. A cada mês são
lançados 200 produtos, chegando a 12.000 itens diferentes
(de lingerie a eletrodomésticos) nas prateleiras de sessenta
países. Nascida no Japão como um modesto porta-moedas,
a gatinha de jeitinho pop virou xodó de modernos de tribos
variadas, como o estilista Alexandre Herchcovitch, que acaba de
lançar sua segunda coleção com o desenho.
"Começando
pelo banheiro, eu tenho: escova de dentes, touca, chinelo, xampu,
toalha, tapetinho. Também tenho abajur, guarda-chuva, telefone,
som, filtro, despertador, torradeira, sanduicheira. O volante do
meu carro é forrado com Hello Kitty. E ainda tenho camiseta,
casaco, saia, mil bolsinhas, milhões de coisinhas pra pendurar
no celular. Mas o que eu mais quero mesmo é a bicicleta",
enumera a atriz Regina Casé, 50 anos e uma filha de 15 ("Ela
acha fofa, mas não gosta tanto. Não tem a mesma carência
de cor-de-rosa que eu"). De onde vem tamanha adoração?
"Um personagem vira ídolo pela capacidade de ser ou fazer
algo que desejamos, mas só podemos realizar através
dele. Essas qualidades contaminam aquilo que ele toca, a cor dele,
as coisas que o identificam", teoriza Cristina Costa, professora
de estética dos meios de comunicação da Universidade
de São Paulo. E as características que identificam
a gatinha estão, literalmente, na cara: simplicidade, candura
e "fofurice", qualidades infantis que muitos adultos jovens mantêm
em sua vida como um elo com tempos mais idílicos.
Claudio
Rossi
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| Lelê, tatuada
e viciada em Hello Kitty: "Entro no site todo dia" |
Criada no
Japão em 1974 pela designer Yuko Shimizu, Hello Kitty tem
um currículo insuspeito para os neófitos: chama-se
Kitty White, vive em Londres com a irmã gêmea Mimmy
e os pais, George e Mary. Da altura de cinco maçãs
e peso de três, ela não tem boca porque "fala com o
coração". Já enfrentou lá as suas crises.
"Cinco anos depois do nascimento da Kitty, os consumidores tinham
cansado um pouco", conta Yuko Yamaguchi, a terceira desenhista-chefe
da personagem. Aos poucos, ela suavizou os traços da gatinha,
variou suas roupas e posições e fez de Kitty uma febre
fashion que começou no Japão (onde moderninha digna
do nome tem seu desenho em tudo) e se alastrou pelo mundo. É
dela também a invenção, nos anos 90, do namorado
da Hello Kitty, Daniel, e de seus bichinhos de estimação,
o gato persa (sim, a gatinha tem um gato) Charmmy e o hamster (isso
mesmo: a gatinha tem um quase-rato) Sugar. "Na virada do século
surgiu uma nova necessidade de resgatar valores simples. Ícones
infantis como Hello Kitty, Mickey Mouse e Pantera Cor-de-Rosa, que
nos remetem a sensações da infância e dão
conforto emocional, acabaram se tornando ícones do mundo
pop", analisa o consultor Carlos Ferreirinha, especialista em mercado
de luxo. Valores simples podem ter um sentido muito figurado nesse
caso, quando estão à venda mimos como os conjuntos
de moedas de ouro comemorativas do trigésimo aniversário
da Hello Kitty (4.500 dólares cada) ou as tiaras de platina
com brilhantes (27.300 dólares).
Fotos divulgação
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| Telefone,
despertador
e torradeira: produtos para decorar a sala, o quarto
e até a cozinha |
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| Aparelho
de som que parece bolsa, walkman e sanduicheira
que desenha: é ou não é uma
graça? |
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