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Religião
Em nome do marketing
Igreja
evangélica
organizada
como franquia torna-se o maior
fenômeno desde o surgimento
da Universal do Reino de Deus

Marcelo Carneiro
Raphael Falavigna
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| Culto do Evangelho Quadrangular: a quarta
maior igreja do país adotou o modelo de células |
O aumento
do número de evangélicos no Brasil é um fenômeno.
Em pouco mais de meio século, esses fiéis passaram
de 3% para 15% da população brasileira, somando cerca
de 25 milhões de pessoas. Nos últimos anos, uma parcela
dessas igrejas tem adotado um novo e eficientíssimo modelo
de expansão. Conhecido como igreja de células, funciona
como uma espécie de franquia da fé, com forte apelo
de marketing e truques que parecem tirados dos manuais de técnicas
de venda porta a porta. O sistema se baseia na multiplicação
do número de fiéis organizados em grupos de doze pessoas.
Cada um desses grupos forma uma célula. A função
primordial de cada célula é atrair fiéis em
quantidade suficiente para gerar uma célula nova. Seguindo
esse modelo, já foram implantadas no Brasil, nos últimos
quatro anos, cerca de 30.000 novas igrejas, expansão só
vista antes com o assombroso crescimento da Igreja Universal do
Reino de Deus. O sucesso começa a incomodar as lideranças
de duas das maiores denominações do país
a própria Universal e a Assembléia de Deus. A igreja
de células, que reúne adaptações importadas
da Colômbia e da Coréia do Sul, já é
considerada uma das cinco maiores forças do meio evangélico.
O segredo
do sucesso da "visão celular", como também é
conhecida, está numa combinação infalível:
o boca-a-boca entre os fiéis e um rígido controle
de metas. Cada novo membro da igreja de células deve, no
prazo de um ano e meio, tornar-se um líder e formar o próprio
grupo de doze integrantes. Para isso, é orientado a arrebanhar
fiéis entre parentes, colegas de trabalho ou de faculdade,
exatamente como fazem os especialistas em venda direta. Outro ingrediente
importante da receita são os encontros para evangelização
e formação de líderes, geralmente cercados
de sigilo. Em alguns dos encontros de fim de semana, os fiéis
são recebidos com festa e fogos de artifício e mantidos
incomunicáveis nas primeiras 24 horas. Eles também
são instruídos a não contar nem aos parentes
mais próximos o que é ministrado nas reuniões.
Cria-se, então, a curiosidade, a fim de que outros fiéis
também se sintam estimulados a participar dos próximos
encontros. Marketing puro.
Claudio Rossi
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| A apóstola Valnice Milhomens: "Deus usaria
o marketing" |
O modelo tem sido muito criticado pelas hostes rivais, que vêm
perdendo não apenas fiéis, mas também valiosos
dízimos. "Eles tentam fazer uma reengenharia do Evangelho,
perseguindo o crescimento a todo custo", diz Silas Malafaia, pastor
de uma das principais lideranças da Assembléia de
Deus, a maior igreja do país, com quase 50% de todo o rebanho
evangélico. É fato que a igreja de células
não tem crescido apenas arrebanhando os chamados "novos crentes",
mas fincando bandeiras no território alheio. No meio evangélico,
essa estratégia é conhecida como "pescar no aquário".
A expressão é usada quando uma nova igreja, em vez
de tentar conquistar fiéis de religiões concorrentes,
como católicos ou espíritas, busca adeptos de outras
denominações evangélicas.
A questão
é que essa estratégia é utilizada por boa parte
das quase 1.000 denominações do tipo neopentecostais
que existem hoje no mundo. "Se seu pasto não está
servindo para sua ovelha, cuide melhor de seu pasto. Só nos
critica quem não está crescendo", responde Valnice
Milhomens, uma ex-pastora batista de 57 anos, intitulada apóstola
da Igreja Mundial do Senhor Jesus Cristo, uma das mais agressivas
na adoção do crescimento por células. Criada
em 1994, com apenas quatro discípulos, a igreja de Valnice
adotou o modelo em 1999, depois de uma visita a Bogotá, onde
o pastor colombiano César Castellanos criou a estratégia
dos grupos de doze fiéis, ou G12, que teriam sido inspirados
no número de apóstolos de Jesus Cristo. Hoje, a Igreja
Mundial, com sede em São Paulo, possui sessenta congregações
em todo o país, além de filiais em Portugal, Moçambique,
Suíça e Japão.
O que diferencia
a igreja de células dos modelos tradicionais é, além
desses aspectos, a ausência de lideranças com projeção
nacional. Valnice Milhomens é um exemplo. Ela está
longe de ser uma figura com a fama e o poder do bispo Edir Macedo,
criador da Igreja Universal do Reino Deus, com seus 3 milhões
de fiéis distribuídos por 138 países. No modelo
celular, o crescimento se dá entre as franjas do meio evangélico,
nos rincões do país. O maior exemplo de força
da igreja de células vem de Manaus. Foi ali que o ex-pastor
batista Renê Terra Nova conseguiu a façanha de, em
um período de seis anos, fazer seu Ministério Internacional
da Restauração pular de 2.000 para cerca de 30.000
fiéis. Com o sucesso, até denominações
tradicionais já aderiram à novidade. Uma das principais
é a Igreja do Evangelho Quadrangular, uma das quatro maiores
do país, com 7.500 igrejas e quase 10.000 pastores responsáveis
por um rebanho estimado em 2 milhões de fiéis. A expectativa
é que, em um prazo de no máximo cinco anos, todo esse
rebanho esteja rezando pela heterodoxa cartilha celular. Conclui
a apóstola Valnice Milhomens: "O marketing é criação
do homem e o homem é criação de Deus. Por que
Deus não usaria o marketing para atrair mais fiéis?"
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