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Religião
Fé na educação
O mercado religioso se volta para
o ensino superior: umbandistas e
espíritas já têm faculdades próprias.
O bispo Edir Macedo também quer uma

Monica Weinberg
Luludi/Ag. Luz
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| Aula prática na Faculdade Umbandista de São
Paulo (acima); abaixo, alunos de faculdade evangélica
mineira rezam durante um debate |
Nélio Rodrigues/1º Plano
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A religião é um excelente negócio
no Brasil. Só os evangélicos faturam, com suas empresas
de rádio e TV, mais de 3 bilhões de reais por ano.
Agora, um novo nicho se apresenta aos que aliam à fé
um certo tino comercial: as faculdades religiosas. Até a
década de 90, as únicas entidades religiosas de ensino
superior no país eram as católicas e as evangélicas
tradicionais. Surgidas nas décadas de 50 e 60, elas foram
perdendo aos poucos o caráter confessional e tornaram-se,
na prática, instituições quase laicas
seu quadro docente não é formado necessariamente por
professores católicos ou evangélicos e os cursos religiosos,
quando existem, representam uma porção reduzida de
uma variada grade de carreiras. A nova geração de
faculdades religiosas deve seguir pelo mesmo caminho. Elas têm,
na origem, os mais diversos credos e, na fé, seu principal
objeto de estudo. Mas nada impede que se expandam para outras áreas.
Com a entrada de espíritas, umbandistas e evangélicas
pentecostais, as faculdades religiosas já são 106
no Brasil, o que significa um crescimento de 65% nos últimos
quatro anos, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais (Inep) do Ministério da Educação.
"Os religiosos gostam de resultados rápidos e têm a
ambição de espalhar redes de universidades no país",
diz Carlos Monteiro, consultor especializado em educação
superior.
A Faculdade de Teologia Umbandista de São
Paulo está entre as que, por enquanto, oferecem apenas o
curso de teologia. Reconhecida pelo MEC no ano passado, possui cinqüenta
alunos que, formados, ganharão o título de "teólogos
umbandistas". Além de matérias tradicionais, como
ciências políticas e psicologia, o curso inclui disciplinas
de natureza prática, como rito e liturgia umbandista. Duas
vezes por semana, os estudantes são levados a um templo anexo
à faculdade para tomar parte de cerimônias típicas
de um terreiro. Quem comanda a aula é Francisco Rivas Neto,
o "Mestre Arhapiagha", fundador da faculdade. Os alunos identificados
como portadores de dons mediúnicos têm papel ativo
no ritual: ao som de atabaques e envoltos por fumaça de charuto,
incorporam exus e outras entidades populares da umbanda. Os demais
estudantes assistem da platéia. Todos os professores são
umbandistas, 70% deles pais-de-santo. Mesmo nas aulas teóricas,
vestem-se com túnicas brancas e usam anéis cravejados
de símbolos da religião. Em Curitiba, a Faculdade
Dr. Leocádio José Correia assim batizada em
homenagem a um médico morto em 1886, que, segundo a instituição,
se manifestaria por meio de seu atual diretor, o advogado Maury
Rodrigues é um exemplo de nova instituição
religiosa que já se aventura por território laico.
Em quatro anos de funcionamento, ela passou a oferecer, além
do curso de teologia espírita, também as carreiras
de pedagogia e administração. Planeja, em breve, iniciar
cursos de economia e ciências contábeis.
Em comum, as faculdades religiosas têm
o objetivo de propagar seu credo por meio da formação
de sacerdotes, pesquisadores ou professores. "Pastores bem formados
estão se tornando um potente instrumento para difusão
da fé evangélica", observa Regina Fernandes Sanches,
coordenadora da Faculdade de Teologia Evangélica de Belo
Horizonte que, na semana passada, tinha como tema de debate
de uma das aulas o "aconselhamento religioso tendo em vista o stress
urbano". O aprimoramento na formação dos pregadores,
no entanto, não é a única vantagem obtida pelas
religiões que investem no ramo universitário. Como
esse tipo de faculdade se encaixa na categoria das instituições
filantrópicas, elas são beneficiadas pela isenção
fiscal. Na prática, isso significa que conseguem atingir
uma margem média de lucro de 12%, mais de três vezes
superior ao de uma faculdade privada, que declara ter fins lucrativos.
Uma mina de ouro, ainda mais quando se leva em conta que a obrigatoriedade
legal de reinvestir todo o lucro obtido na instituição
e em ações sociais nunca foi devidamente
fiscalizada pelo governo. "Essas faculdades acabam usando o dinheiro
para a construção de templos e para a manutenção
da própria ordem religiosa", diz o consultor Ryon Braga,
especialista em educação superior.
Prova de que o ensino superior é um
mercado abençoado é o interesse que o bispo (e bem-sucedido
empresário da comunicação) Edir Macedo tem
demonstrado em investir no ramo. Proprietário de emissoras
de rádio e canais de televisão, o fundador da Igreja
Universal do Reino de Deus tentou três vezes formar uma sociedade
com grupos universitários. Como o bispo tem muita fé
em si próprio, não é improvável que
um dia consiga essa dádiva. Em seu favor, existe o argumento
de que quase todas as religiões já contam com uma
faculdade. Em breve, as instituições religiosas de
ensino superior devem ganhar a companhia de dois novos credos: entre
os cursos que aguardam a aprovação do MEC para ser
alçados à condição de universitários,
estão um budista e um islâmico.
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