Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Religião
Fé na educação

O mercado religioso se volta para
o ensino superior: umbandistas e
espíritas já têm faculdades próprias.
O bispo Edir Macedo também quer uma


Monica Weinberg

 
Luludi/Ag. Luz
Aula prática na Faculdade Umbandista de São Paulo (acima); abaixo, alunos de faculdade evangélica mineira rezam durante um debate
Nélio Rodrigues/1º Plano


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A religião é um excelente negócio no Brasil. Só os evangélicos faturam, com suas empresas de rádio e TV, mais de 3 bilhões de reais por ano. Agora, um novo nicho se apresenta aos que aliam à fé um certo tino comercial: as faculdades religiosas. Até a década de 90, as únicas entidades religiosas de ensino superior no país eram as católicas e as evangélicas tradicionais. Surgidas nas décadas de 50 e 60, elas foram perdendo aos poucos o caráter confessional e tornaram-se, na prática, instituições quase laicas – seu quadro docente não é formado necessariamente por professores católicos ou evangélicos e os cursos religiosos, quando existem, representam uma porção reduzida de uma variada grade de carreiras. A nova geração de faculdades religiosas deve seguir pelo mesmo caminho. Elas têm, na origem, os mais diversos credos e, na fé, seu principal objeto de estudo. Mas nada impede que se expandam para outras áreas. Com a entrada de espíritas, umbandistas e evangélicas pentecostais, as faculdades religiosas já são 106 no Brasil, o que significa um crescimento de 65% nos últimos quatro anos, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) do Ministério da Educação. "Os religiosos gostam de resultados rápidos e têm a ambição de espalhar redes de universidades no país", diz Carlos Monteiro, consultor especializado em educação superior.

A Faculdade de Teologia Umbandista de São Paulo está entre as que, por enquanto, oferecem apenas o curso de teologia. Reconhecida pelo MEC no ano passado, possui cinqüenta alunos que, formados, ganharão o título de "teólogos umbandistas". Além de matérias tradicionais, como ciências políticas e psicologia, o curso inclui disciplinas de natureza prática, como rito e liturgia umbandista. Duas vezes por semana, os estudantes são levados a um templo anexo à faculdade para tomar parte de cerimônias típicas de um terreiro. Quem comanda a aula é Francisco Rivas Neto, o "Mestre Arhapiagha", fundador da faculdade. Os alunos identificados como portadores de dons mediúnicos têm papel ativo no ritual: ao som de atabaques e envoltos por fumaça de charuto, incorporam exus e outras entidades populares da umbanda. Os demais estudantes assistem da platéia. Todos os professores são umbandistas, 70% deles pais-de-santo. Mesmo nas aulas teóricas, vestem-se com túnicas brancas e usam anéis cravejados de símbolos da religião. Em Curitiba, a Faculdade Dr. Leocádio José Correia – assim batizada em homenagem a um médico morto em 1886, que, segundo a instituição, se manifestaria por meio de seu atual diretor, o advogado Maury Rodrigues – é um exemplo de nova instituição religiosa que já se aventura por território laico. Em quatro anos de funcionamento, ela passou a oferecer, além do curso de teologia espírita, também as carreiras de pedagogia e administração. Planeja, em breve, iniciar cursos de economia e ciências contábeis.

Em comum, as faculdades religiosas têm o objetivo de propagar seu credo por meio da formação de sacerdotes, pesquisadores ou professores. "Pastores bem formados estão se tornando um potente instrumento para difusão da fé evangélica", observa Regina Fernandes Sanches, coordenadora da Faculdade de Teologia Evangélica de Belo Horizonte – que, na semana passada, tinha como tema de debate de uma das aulas o "aconselhamento religioso tendo em vista o stress urbano". O aprimoramento na formação dos pregadores, no entanto, não é a única vantagem obtida pelas religiões que investem no ramo universitário. Como esse tipo de faculdade se encaixa na categoria das instituições filantrópicas, elas são beneficiadas pela isenção fiscal. Na prática, isso significa que conseguem atingir uma margem média de lucro de 12%, mais de três vezes superior ao de uma faculdade privada, que declara ter fins lucrativos. Uma mina de ouro, ainda mais quando se leva em conta que a obrigatoriedade legal de reinvestir todo o lucro obtido na instituição – e em ações sociais – nunca foi devidamente fiscalizada pelo governo. "Essas faculdades acabam usando o dinheiro para a construção de templos e para a manutenção da própria ordem religiosa", diz o consultor Ryon Braga, especialista em educação superior.

Prova de que o ensino superior é um mercado abençoado é o interesse que o bispo (e bem-sucedido empresário da comunicação) Edir Macedo tem demonstrado em investir no ramo. Proprietário de emissoras de rádio e canais de televisão, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus tentou três vezes formar uma sociedade com grupos universitários. Como o bispo tem muita fé em si próprio, não é improvável que um dia consiga essa dádiva. Em seu favor, existe o argumento de que quase todas as religiões já contam com uma faculdade. Em breve, as instituições religiosas de ensino superior devem ganhar a companhia de dois novos credos: entre os cursos que aguardam a aprovação do MEC para ser alçados à condição de universitários, estão um budista e um islâmico.

 
 
 
 
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