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Psiquiatria
Mentira que destrói
O drama
de uma rara síndrome
em que
mães fazem adoecer os próprios filhos

Gabriela Carelli
Divulgação
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| Julie Gregory e seu livro: doces
envenenados com pesticida |
A americana
Julie Gregory, de 35 anos, passou a infância e a adolescência
peregrinando por consultórios médicos e hospitais.
Tinha enxaquecas, crises de vômito e dores de garganta crônicas.
Aos 12 anos, com suspeita de sofrer de uma disfunção
cardíaca, ela iniciou uma maratona de internações
que culminou numa pequena cirurgia para investigar a causa do problema.
Diagnóstico: não havia nada de errado com seu coração.
A história de Julie poderia ser igual à de tantas
outras crianças de saúde frágil, não
fosse por um detalhe suas doenças foram inventadas
e provocadas pela mãe. Para fabricar os sintomas que atormentavam
a filha, ela dava-lhe doces envenenados com pesticida, ministrava-lhe
remédios fortes sem necessidade e mentia aos médicos
sobre as "crises de taquicardia" da menina. A mãe da americana
era vítima de uma rara doença do comportamento conhecida
como síndrome de Münchausen. Esse distúrbio psicológico
é devastador. Ele se revela em duas versões. Na primeira,
a pessoa simula doenças em si própria. Em sua forma
mais perversa, tenta produzir doenças nos filhos. Em ambos
os casos, embora de maneira não consciente, o doente busca
fazer-se de vítima para receber a atenção dos
médicos, da família e dos amigos. Em 1957 o psiquiatra
Richard Asher batizou a síndrome em uma referência
a Karl Friederich Hieronymus, o lendário barão Von
Münchausen, nascido na Alemanha em 1720 e cuja vida de aventuras
deu origem a diversas obras de desvairada ficção.
A síndrome
de Münchausen foi reconhecida pela psiquiatria apenas em 1977.
Hoje, a literatura médica registra cerca de 500 artigos sobre
ela. Um dos primeiros, e mais contundentes, foi feito por cinco
pesquisadores do hospital Children's Healthcare, ligado à
Universidade Emory, de Atlanta. Diante das doenças inexplicáveis
que acometiam 23 crianças aparentemente normais, eles decidiram
investigar a vida familiar de cada uma. Descobriram casos de mães
que injetavam nos filhos seus próprios fluidos corporais
urina e sangue e outras que sufocavam as crianças
para que seu estado de saúde piorasse. Julie Gregory foi
a primeira vítima a tornar públicos os maus-tratos
que recebeu. Psiquiatra formada pela Universidade de Sheffield,
na Inglaterra, ela descobriu que fora vítima da doença
de sua mãe durante uma aula de psicologia sobre o tema. Decidiu
contar tudo o que passou num livro, Eu Não Sou Doente,
que permaneceu entre os mais vendidos na Inglaterra por oito meses
e chega às livrarias brasileiras nesta semana.
Julie percorreu
todos os hospitais onde foi internada e coletou mais de 200 páginas
de relatórios e exames médicos. A maioria deles atestava
que ela era normal. "Quando os médicos não achavam
nada de errado, minha mãe ficava furiosa e lá íamos
nós a outro hospital", disse Julie a VEJA. "Ela estudava
livros médicos e decorava todos os sintomas das doenças
que queria me impor. Alguns eram reais, mas a forma como eles haviam
aparecido era sempre omitida."
Não
há estatísticas sobre a incidência da síndrome
de Münchausen no Brasil. Nos Estados Unidos, são identificados
1.200 casos por ano. Os especialistas afirmam que os adultos portadores
da síndrome têm consciência de que provocam doenças
em seus filhos, mas não sabem por que o fazem. Geralmente,
são pessoas que sofreram abusos na infância e precisam
de atenção e carinho a qualquer custo. Quase sempre
a síndrome é de difícil diagnóstico.
O médico Wagner Gattaz, do Instituto de Psiquiatria do Hospital
das Clínicas de São Paulo, explica a razão:
"A mentira é contada de forma convincente e o estado da criança
é lastimável. Quando o médico suspeita de uma
farsa, rapidamente o paciente de Münchausen desaparece, levando
o filho".
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