Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Internacional
Fantasia e realidade

No mundo de Bush, as coisas até que
estão indo bem no Iraque; no resto do
mundo, teme-se o pior: desde guerra
civil até perpetuação da violência

 
Fotos AP
Allawi e Bush, unidos pelas relações públicas, avançam rumo a um futuro promissor, enquanto a captura de reféns retrata a anarquia iraquiana: em uma semana, dois americanos decapitados


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Em Profundidade:
Pós-guerra no Iraque

O Iraque pintado pelo presidente americano George W. Bush é quase uma história de sucesso: está estabilizado e a caminho de eleições democráticas; só tem um punhado de desmancha-prazeres atrapalhando aqui e ali. "Nós estamos melhores, vocês estão melhores e o mundo está melhor sem Saddam Hussein", repetiu o primeiro-ministro interino iraquiano, Iyad Allawi, em visita de relações públicas à ONU e a Washington. É um slogan poderoso – que pessoa moralmente decente preferiria ver o tirano de Bagdá ainda no poder? Infelizmente, porém, vem sendo desmentido por uma realidade violenta, exemplificada na semana passada, entre tantos casos tenebrosos, pela decapitação de dois americanos que trabalhavam em uma construtora. Destino igual estava sendo reservado ao terceiro refém do grupo, inglês. Houve um tempo, não muito distante, em que o assassinato de um cidadão americano desencadearia represálias graves. Hoje, civis inocentes são trucidados, com a pronta divulgação do ato de barbárie, e o que acontece? Um porta-voz do governo lamenta a violência.

O horror dos reféns decapitados, incluindo as terríveis expectativas em torno das "duas Simonas", jovens italianas que foram ao Iraque em trabalho benemerente, é a pior face de um quadro sombrio. A infra-estrutura do Iraque continua em ruínas e a onda de seqüestros dificulta a reconstrução, até agora patética, a cargo de empresas estrangeiras. Atentados suicidas tornaram-se rotina e a resistência armada à ocupação americana, que em abril do ano passado reunia poucos milhares de nacionalistas iraquianos, agora é estimada no mínimo em 20.000 militantes – talvez o dobro, ou ainda mais. Em lugar de bolsões de resistência, a impressão é que existem bolsões de militares americanos. Pior ainda, os sinais de apoio generalizado da população à insurgência contradizem pesquisas de opinião (a mais recente mostrava 47% dos consultados dizendo que a vida hoje está melhor, como afirmou Allawi, contra 31% na posição oposta). Basta ver o que acontece depois de qualquer atentado: em lugar de se voltar contra os perpetradores, que hoje matam, acima de tudo, iraquianos, o populacho sai imprecando contra os soldados americanos.

A posição de Bush e companhia é que basta agüentar firme que, depois das eleições, com a consolidação de um poder político legitimado, tudo vai melhorar. Fora do círculo de ferro da Casa Branca, estrategistas de vários matizes, incluindo conservadores que apoiaram a invasão do Iraque, assustam-se com as perspectivas. Até a CIA está pessimista, como se viu no relatório entregue a Bush em julho no qual analistas do serviço de inteligência apostam que, na melhor das hipóteses, a situação no país será, nos próximos meses, de "frágil estabilidade". Isso se as forças americanas conseguirem frear a escalada da violência. Já o fracasso levará à fragmentação política do país ou, no pior dos cenários, à guerra civil. A hipótese do "racha" é um fantasma que paira desde sempre sobre o Iraque moderno, uma invenção colonial composta de etnias e facções religiosas conflitantes. Os três maiores grupos são os xiitas e os sunitas, facções muçulmanas, e os curdos, etnia que difere dos árabes. Sob a mão cruel do tirano Saddam Hussein, deposto pelas tropas americanas, a unidade era mantida na pancada. Hoje, xiitas e sunitas evitam percorrer bairros tradicionais do grupo oposto, com medo de agressões – a infeliz minoria cristã, então, só pensa numa alternativa: cair fora. Na semana passada, dois religiosos sunitas foram assassinados em um bairro xiita de Bagdá e três curdos, decapitados. Nas eleições planejadas para janeiro do próximo ano, cada um dos grupos rivais tem medo de ser atropelado pelo outro. A "opção xiita" feita pelos americanos pode redundar em lucro zero se os moderados de hoje, como o aiatolá Ali Sistani, a maior autoridade do ramo, mandarem a contenção pelos ares assim que se virem legitimados pelo voto da maioria.

A encrenca atual é produto de dois fatores: a crença em soluções simples – ou mágicas – para problemas complicados e a incapacidade de mudar de política no meio do caminho. A primeira convenceu Bush de que uma intervenção militar, rápida e supremamente eficiente, como de fato foi, abriria caminho para um Iraque feliz e democrático, ponta-de-lança da transformação de todo o Oriente Médio. Fantasia, enfim. A segunda foi incompetência mesmo: se a realidade não correspondia aos planos, estes deveriam ser adaptados, como os americanos, ases da improvisação, demonstraram ao mundo em tantas ocasiões. O governo Bush optou por brigar com a realidade: fez pouquíssimo para melhorar a vida da população em geral e assim acumular um capital maior de simpatia, ignorou as complicações do emaranhado interno do Iraque, subestimou o tamanho da resistência e não percebeu que a presença de um Exército estrangeiro atrairia fanáticos de todo o mundo muçulmano, dispostos a fazer sua guerra santa nas barbas do inimigo.

O que vai acontecer no futuro próximo? Seja Bush, seja o democrata John Kerry, o candidato vitorioso em novembro terá de escolher entre três alternativas. A mais radical – e impensável –, retirar imediatamente as tropas americanas do país, lançaria os iraquianos à própria sorte e poderia abrir caminho ao caos – ou a uma república islâmica fundamentalista. Outra opção seria aumentar o contingente militar no país e esmagar a resistência, o que provocaria um banho de sangue – e talvez uma ocupação a perder de vista. A saída que resta é continuar a estratégia de tentar uma transição gradual, transferindo aos poucos o poder a governantes iraquianos da confiança dos Estados Unidos. Isso, até agora, não tem dado certo. O problema é que nada mais daria.

 

A bomba que vem do Irã

 
AP

Demonstração de força: soldados de Alá marcham, o programa nuclear avança – e todo mundo pergunta quando Israel vai atacar

A "próxima crise" do Oriente Médio, como dizem os especialistas, tem algumas certezas e outro tanto de dúvidas. Primeiro, o Irã está decidido a fazer uma bomba atômica (por que outro motivo um país que nada em petróleo enriqueceria urânio?). Segundo, se persistir, em algum momento Israel irá atacar, como fez no passado com as instalações nucleares de Saddam Hussein. Terceiro, ninguém sabe no que isso pode dar, pois o poder de represália do Irã – com toda a sua influência sobre os xiitas do vizinho Iraque – é maior e afeta diretamente os americanos.

Nem mesmo o Irã dominado pelos aiatolás fundamentalistas pensaria em produzir uma arma nuclear para sair jogando no inimigo. O objetivo é firmar-se como potência regional e impor algum respeito perante a besta-fera dos muçulmanos da região – Israel – e o novo intervencionismo americano. Desnecessário dizer que a idéia não tem muito futuro, mas é a carta escolhida pelo regime iraniano no momento. O presidente Mohamed Khatami disse na semana passada que o Irã não vai interromper seu programa nuclear, contrariando uma resolução da Agência Internacional de Energia Nuclear (Iaea), da ONU. A resolução estabelece que o Irã deve suspender, até o fim de novembro, o programa de enriquecimento de urânio e garantir aos inspetores internacionais informações e acesso às instalações. Se isso não acontecer, o Conselho de Segurança da ONU poderá aplicar sanções.

O governo iraniano argumenta que, na condição de signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, possui autonomia para tocar o programa – e, claro, que só tem os mais pacíficos fins. Khatami disse que aceita uma vistoria de técnicos da Iaea desde que a comunidade internacional reconheça o direito do país de enriquecer urânio. A vistoria serve para provar ao mundo que o programa nuclear de um país não tem objetivos militares. Recentemente, o governo brasileiro voltou a discutir uma dessas visitas dos especialistas da Iaea a instalações nucleares em Resende, no Rio de Janeiro. O Irã detém o mesmo direito do Brasil de desenvolver um programa desse tipo, embora obviamente provoque ansiedade muito maior. "O Irã está fazendo isso como forma de ganhar força política para ser o representante maior do Islã em escala global", disse a VEJA Jonathan Stevenson, especialista em segurança do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Para o público interno, e não só do Irã, é sempre tentadora a idéia de fazer frente a Israel, que possui seu próprio e adiantado arsenal nuclear, calculado em cerca de 200 ogivas. Na semana passada, os israelenses anunciaram a compra de 500 bombas capazes de destruir instalações subterrâneas – uma mensagem ao Irã em letras enormes. Em 1981, Israel bombardeou a incipiente planta nuclear do Iraque. Agora, a direita americana mais exaltada está incentivando os israelenses a repetir a dose. Como se já não houvesse problemas suficientes, a "próxima crise" promete.

 
 
 
 
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