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Internacional
Fantasia e realidade
No mundo
de Bush,
as coisas até que
estão indo bem no Iraque; no resto do
mundo, teme-se o pior: desde guerra
civil até perpetuação da violência
Fotos AP
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| Allawi e
Bush, unidos pelas relações públicas, avançam
rumo a um futuro promissor, enquanto a captura de reféns
retrata a anarquia iraquiana: em uma semana, dois americanos
decapitados |
O Iraque
pintado pelo presidente americano George W. Bush é quase
uma história de sucesso: está estabilizado e a caminho
de eleições democráticas; só tem um
punhado de desmancha-prazeres atrapalhando aqui e ali. "Nós
estamos melhores, vocês estão melhores e o mundo está
melhor sem Saddam Hussein", repetiu o primeiro-ministro interino
iraquiano, Iyad Allawi, em visita de relações públicas
à ONU e a Washington. É um slogan poderoso
que pessoa moralmente decente preferiria ver o tirano de Bagdá
ainda no poder? Infelizmente, porém, vem sendo desmentido
por uma realidade violenta, exemplificada na semana passada, entre
tantos casos tenebrosos, pela decapitação de dois
americanos que trabalhavam em uma construtora. Destino igual estava
sendo reservado ao terceiro refém do grupo, inglês.
Houve um tempo, não muito distante, em que o assassinato
de um cidadão americano desencadearia represálias
graves. Hoje, civis inocentes são trucidados, com a pronta
divulgação do ato de barbárie, e o que acontece?
Um porta-voz do governo lamenta a violência.
O horror
dos reféns decapitados, incluindo as terríveis expectativas
em torno das "duas Simonas", jovens italianas que foram ao Iraque
em trabalho benemerente, é a pior face de um quadro sombrio.
A infra-estrutura do Iraque continua em ruínas e a onda de
seqüestros dificulta a reconstrução, até
agora patética, a cargo de empresas estrangeiras. Atentados
suicidas tornaram-se rotina e a resistência armada à
ocupação americana, que em abril do ano passado reunia
poucos milhares de nacionalistas iraquianos, agora é estimada
no mínimo em 20.000 militantes talvez o dobro, ou
ainda mais. Em lugar de bolsões de resistência, a impressão
é que existem bolsões de militares americanos. Pior
ainda, os sinais de apoio generalizado da população
à insurgência contradizem pesquisas de opinião
(a mais recente mostrava 47% dos consultados dizendo que a vida
hoje está melhor, como afirmou Allawi, contra 31% na posição
oposta). Basta ver o que acontece depois de qualquer atentado: em
lugar de se voltar contra os perpetradores, que hoje matam, acima
de tudo, iraquianos, o populacho sai imprecando contra os soldados
americanos.
A posição
de Bush e companhia é que basta agüentar firme que,
depois das eleições, com a consolidação
de um poder político legitimado, tudo vai melhorar. Fora
do círculo de ferro da Casa Branca, estrategistas de vários
matizes, incluindo conservadores que apoiaram a invasão do
Iraque, assustam-se com as perspectivas. Até a CIA está
pessimista, como se viu no relatório entregue a Bush em julho
no qual analistas do serviço de inteligência apostam
que, na melhor das hipóteses, a situação no
país será, nos próximos meses, de "frágil
estabilidade". Isso se as forças americanas conseguirem frear
a escalada da violência. Já o fracasso levará
à fragmentação política do país
ou, no pior dos cenários, à guerra civil. A hipótese
do "racha" é um fantasma que paira desde sempre sobre o Iraque
moderno, uma invenção colonial composta de etnias
e facções religiosas conflitantes. Os três maiores
grupos são os xiitas e os sunitas, facções
muçulmanas, e os curdos, etnia que difere dos árabes.
Sob a mão cruel do tirano Saddam Hussein, deposto pelas tropas
americanas, a unidade era mantida na pancada. Hoje, xiitas e sunitas
evitam percorrer bairros tradicionais do grupo oposto, com medo
de agressões a infeliz minoria cristã, então,
só pensa numa alternativa: cair fora. Na semana passada,
dois religiosos sunitas foram assassinados em um bairro xiita de
Bagdá e três curdos, decapitados. Nas eleições
planejadas para janeiro do próximo ano, cada um dos grupos
rivais tem medo de ser atropelado pelo outro. A "opção
xiita" feita pelos americanos pode redundar em lucro zero se os
moderados de hoje, como o aiatolá Ali Sistani, a maior autoridade
do ramo, mandarem a contenção pelos ares assim que
se virem legitimados pelo voto da maioria.
A encrenca
atual é produto de dois fatores: a crença em soluções
simples ou mágicas para problemas complicados
e a incapacidade de mudar de política no meio do caminho.
A primeira convenceu Bush de que uma intervenção militar,
rápida e supremamente eficiente, como de fato foi, abriria
caminho para um Iraque feliz e democrático, ponta-de-lança
da transformação de todo o Oriente Médio. Fantasia,
enfim. A segunda foi incompetência mesmo: se a realidade não
correspondia aos planos, estes deveriam ser adaptados, como os americanos,
ases da improvisação, demonstraram ao mundo em tantas
ocasiões. O governo Bush optou por brigar com a realidade:
fez pouquíssimo para melhorar a vida da população
em geral e assim acumular um capital maior de simpatia, ignorou
as complicações do emaranhado interno do Iraque, subestimou
o tamanho da resistência e não percebeu que a presença
de um Exército estrangeiro atrairia fanáticos de todo
o mundo muçulmano, dispostos a fazer sua guerra santa nas
barbas do inimigo.
O que vai
acontecer no futuro próximo? Seja Bush, seja o democrata
John Kerry, o candidato vitorioso em novembro terá de escolher
entre três alternativas. A mais radical e impensável
, retirar imediatamente as tropas americanas do país,
lançaria os iraquianos à própria sorte e poderia
abrir caminho ao caos ou a uma república islâmica
fundamentalista. Outra opção seria aumentar o contingente
militar no país e esmagar a resistência, o que provocaria
um banho de sangue e talvez uma ocupação a
perder de vista. A saída que resta é continuar a estratégia
de tentar uma transição gradual, transferindo aos
poucos o poder a governantes iraquianos da confiança dos
Estados Unidos. Isso, até agora, não tem dado certo.
O problema é que nada mais daria.
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A
bomba que vem do Irã
AP
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Demonstração
de força: soldados de Alá marcham,
o programa nuclear avança e todo
mundo pergunta quando Israel vai atacar
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A
"próxima crise" do Oriente Médio, como
dizem os especialistas, tem algumas certezas e outro
tanto de dúvidas. Primeiro, o Irã está
decidido a fazer uma bomba atômica (por que outro
motivo um país que nada em petróleo enriqueceria
urânio?). Segundo, se persistir, em algum momento
Israel irá atacar, como fez no passado com as
instalações nucleares de Saddam Hussein.
Terceiro, ninguém sabe no que isso pode dar,
pois o poder de represália do Irã
com toda a sua influência sobre os xiitas do vizinho
Iraque é maior e afeta diretamente os
americanos.
Nem mesmo o Irã dominado pelos aiatolás
fundamentalistas pensaria em produzir uma arma nuclear
para sair jogando no inimigo. O objetivo é firmar-se
como potência regional e impor algum respeito
perante a besta-fera dos muçulmanos da região
Israel e o novo intervencionismo americano.
Desnecessário dizer que a idéia não
tem muito futuro, mas é a carta escolhida pelo
regime iraniano no momento. O presidente Mohamed Khatami
disse na semana passada que o Irã não
vai interromper seu programa nuclear, contrariando uma
resolução da Agência Internacional
de Energia Nuclear (Iaea), da ONU. A resolução
estabelece que o Irã deve suspender, até
o fim de novembro, o programa de enriquecimento de urânio
e garantir aos inspetores internacionais informações
e acesso às instalações. Se isso
não acontecer, o Conselho de Segurança
da ONU poderá aplicar sanções.
O governo iraniano argumenta que, na condição
de signatário do Tratado de Não-Proliferação
Nuclear, possui autonomia para tocar o programa
e, claro, que só tem os mais pacíficos
fins. Khatami disse que aceita uma vistoria de técnicos
da Iaea desde que a comunidade internacional reconheça
o direito do país de enriquecer urânio.
A vistoria serve para provar ao mundo que o programa
nuclear de um país não tem objetivos militares.
Recentemente, o governo brasileiro voltou a discutir
uma dessas visitas dos especialistas da Iaea a instalações
nucleares em Resende, no Rio de Janeiro. O Irã
detém o mesmo direito do Brasil de desenvolver
um programa desse tipo, embora obviamente provoque ansiedade
muito maior. "O Irã está fazendo isso
como forma de ganhar força política para
ser o representante maior do Islã em escala global",
disse a VEJA Jonathan Stevenson, especialista em segurança
do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.
Para o público interno, e não só
do Irã, é sempre tentadora a idéia
de fazer frente a Israel, que possui seu próprio
e adiantado arsenal nuclear, calculado em cerca de 200
ogivas. Na semana passada, os israelenses anunciaram
a compra de 500 bombas capazes de destruir instalações
subterrâneas uma mensagem ao Irã
em letras enormes. Em 1981, Israel bombardeou a incipiente
planta nuclear do Iraque. Agora, a direita americana
mais exaltada está incentivando os israelenses
a repetir a dose. Como se já não houvesse
problemas suficientes, a "próxima crise" promete.
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