Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Brasil
Pesquisas estão menos precisas

Com margem de erro que beira 6 pontos porcentuais, nunca levantamentos eleitorais foram tão precários como na atual eleição


Otávio Cabral


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Margens largas demais

Os 121 milhões de eleitores brasileiros irão às urnas em 3 de outubro com uma idéia muito vaga sobre quem poderá ser o próximo prefeito de sua cidade. Em pleitos anteriores, as pesquisas eleitorais serviram como uma bússola razoavelmente segura sobre a corrida dos candidatos. Nesta eleição, no entanto, a maioria dos institutos de pesquisa tem trabalhado com margens de erro mais elevadas do que em pleitos anteriores – e, com isso, os resultados apurados ficaram menos precisos. Há casos de levantamentos com margens de erro de quase 6 pontos porcentuais sendo aplicados em capitais de Estado como Macapá, no Amapá, e Rio Branco, no Acre. "É a campanha mais obscura, com resultados mais imprevisíveis que acompanho em 25 anos de carreira", afirma o cientista político Gaudêncio Torquato, professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ele acrescenta: "Em campanhas nas quais os candidatos estão bastante distanciados, não há muito risco de erro. Mas nas cidades com disputas mais acirradas podem ocorrer diversas surpresas de última hora".

Estima-se que na eleição municipal de 2000 o mercado de pesquisas girava em torno de 30 milhões de reais, ficando a metade desse bolo com o Ibope, o maior e mais antigo instituto de opinião pública do país. Neste ano, em condições normais, adicionando-se apenas a inflação dos últimos quatro anos, o gasto deveria ficar ao redor de 45 milhões de reais, mas os profissionais do ramo calculam que o movimento não passará de 20 milhões de reais. A queda se deve, em grande parte, ao aperto financeiro dos maiores consumidores de levantamentos eleitorais – os meios de comunicação, que atravessam uma crise financeira, e os partidos políticos, que têm encontrado crescentes dificuldades para conseguir doações. O dinheiro curto resulta em pesquisas menos precisas. Diminuir a margem de erro é um dos principais custos dos levantamentos dos institutos de opinião (veja quadro). "A margem de erro nas pesquisas é uma questão de custo e benefício", diz Márcia Cavallari, diretora do Ibope. Por exemplo: um levantamento com margem de erro de 5,6 pontos porcentuais não entrevista mais que 300 eleitores e custa em torno de 15.000 reais. Por outro lado, uma pesquisa com margem de erro bem reduzida, de apenas 2 pontos porcentuais, não se obtém com menos de 1.700 eleitores entrevistados. Um trabalho assim não sai por menos de 50.000 reais. "Cada cliente tem de definir se vale a pena gastar mais para ter um número maior de entrevistas e uma margem mais segura", diz Cavallari.

Além de mais imprecisas, as pesquisas neste ano também estão menos freqüentes, o que dificulta a avaliação de tendência. O instituto Datafolha, por exemplo, em eleições anteriores, trabalhava exclusivamente para o jornal Folha de S.Paulo e pesquisava, em média, em vinte cidades – sendo dez capitais de Estado e dez cidades do interior do Estado de São Paulo. Neste ano, o Datafolha deixou de atuar com exclusividade para a Folha de S.Paulo e oferece seus serviços a outros órgãos de imprensa. Em São Paulo, o instituto focou apenas na capital. "Preferimos trabalhar apenas na cidade de São Paulo e pesquisar todas as regiões da capital de modo a garantir uma margem de erro de 2 pontos porcentuais", explica Mauro Paulino, diretor do Datafolha. No levantamento do instituto divulgado em 17 de setembro, o tucano José Serra estava com 37%, à frente da petista Marta Suplicy, com 33%. Como a margem de erro, nesse caso, é pequena, Serra varia de 35% a 39% e Marta oscila entre 31% e 35%. Se a pesquisa tivesse margem de erro superior a 2 pontos porcentuais, seria impossível até mesmo afirmar quem estaria na liderança da preferência popular na capital paulista.

Em Maringá, uma importante cidade do interior do Paraná, o Ibope fechou no fim de agosto uma pesquisa com margem de erro de 4,9 pontos porcentuais. O primeiro colocado aparecia com 24% das intenções de voto, seguido por um candidato com 20%, à frente do terceiro lugar, com 18%. Na prática, aplicando-se a variação da margem de erro, o líder da pesquisa poderia estar com apenas 19,1% das intenções de voto e o terceiro colocado com 22,9%. Conclusão: a única informação segura dada pelo levantamento é que a disputa em Maringá estava enrolada em um tríplice empate. Em Jequié, município do interior da Bahia, uma pesquisa com margem de erro de 5 pontos porcentuais mostrava uma aparentemente clara divisão de duplas de candidatos. Havia uma dupla no pelotão da dianteira, com 27% e 28% das intenções de voto respectivamente. E havia outra dupla de candidatos no pelotão de trás, que patinava respectivamente com 14% e 16%. Mas, na realidade, levando-se em conta a alta margem de erro, um dos candidatos do pelotão de trás poderia estar encostado no pelotão da frente. Em situações assim, faz pouquíssima diferença ter ou não uma pesquisa à disposição.

A dificuldade financeira dos partidos políticos também contribuiu para a penúria das pesquisas. Em eleições anteriores, o Ibope teve uma fornida clientela entre as legendas. Neste ano, a situação mudou. No início de 2004, o PT chegou a encomendar ao Ibope três rodadas de levantamentos em doze capitais, apenas para consumo interno. Depois disso, o PT contratou ainda outras três pesquisas na cidade de São Paulo, para divulgação pública. E, mesmo sendo no atual momento o partido com o caixa mais gordo, o PT não fez nenhum outro contrato de monta. No caso da Rede Globo, seu principal cliente entre os meios de comunicação, o Ibope fechou contrato para pesquisas com margem de erro inferior a 3,5 pontos porcentuais em apenas três cidades – São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Nas demais praças, os contratos com o Ibope foram celebrados pelas retransmissoras da Globo – e, na maioria dos casos, com margem de erro mais elevada que nas eleições anteriores. Em outros casos, preferiu-se reduzir o número de pesquisas. É mais um dado de imprecisão. Os estatísticos informam que, para avaliar com correção uma tendência de subida ou de descida de um candidato, é preciso que se faça uma série de três a cinco levantamentos. Com tão poucas pesquisas na praça, porém, fica difícil garantir quem está na parte de cima e quem está na parte de baixo da gangorra eleitoral.

 

A aposta de Gallup

 
AP
Gallup (sentado): prova de que menos pode ser mais

Toda a América riu de George Gallup, o fundador do instituto de opinião que leva seu nome, quando ele apostou que poderia acertar o vencedor das eleições presidenciais de 1936 nos Estados Unidos. À época, Gallup mantinha uma coluna semanal em diversos jornais americanos sobre temas como "É indecente mulheres andarem nas ruas vestindo short?" (em 1939, 63% dos americanos responderam que sim) ou "É correto que uma mulher casada trabalhe, se o marido é capaz de sustentá-la?" ("Não", disseram em 1938, em plena Depressão, 78% dos entrevistados). Para chegar a essas conclusões, Gallup atuava com uma reduzida equipe de pesquisadores. Na sondagem para as eleições presidenciais, enquanto a revista Literary Digest (então líder no campo de pesquisas) trabalhou com um universo de nada menos que 10 milhões de entrevistados, o confiante Gallup consultou apenas 3.000 eleitores. Às vésperas da eleição, o Digest previa que o republicano Alf Landon ganharia do democrata Franklin Roosevelt por 57% a 43% dos votos. Gallup disse que Roosevelt seria o vitorioso e prometeu que, caso estivesse errado, devolveria aos jornais que publicavam sua coluna todo o dinheiro que já haviam pago por ela. Roosevelt foi reeleito com esmagadores 61% dos votos. Por que Gallup acertou? Simples: o procedimento do Digest, de buscar seus entrevistados por meio de listas telefônicas e catálogos de registro de automóveis, induzia a pesquisa a erro, já que proprietários de telefones e carros pertenciam a classes econômicas mais altas – naquele tempo, sabidamente pró-republicanas. Já Gallup recorreu ao que hoje se chama de consulta por amostragem: seus pesquisadores saíam com a missão de ouvir tantas mulheres urbanas de classe média, tantos homens rurais de classe baixa e assim por diante. Bingo.

No Brasil, os dois institutos de opinião mais conhecidos – Ibope e Datafolha – utilizam métodos semelhantes. Para ter resultados que espelhem a opinião do total da população, selecionam entrevistados segundo um critério que retrate a realidade da região investigada. Por exemplo: no Brasil, 29% da população pertence às classes A e B; 36% à classe C; e 35% às classes D e E. Assim, para que o resultado da mostra retrate o que pensa a população como um todo, o número de eleitores ouvidos deverá ser proporcional ao tamanho das classes econômicas a que pertencem. O Ibope faz pesquisas domiciliares, e o Datafolha aborda seus entrevistados na rua. Nos dois casos, a margem de erro – faixa possível de variação do resultado – é maior quanto menor for o universo pesquisado.

 

 
 
 
 
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