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Brasil
Pesquisas estão
menos precisas
Com
margem de erro que beira 6 pontos porcentuais,
nunca levantamentos eleitorais foram tão precários
como na atual eleição

Otávio Cabral
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Os 121 milhões
de eleitores brasileiros irão às urnas em 3 de outubro
com uma idéia muito vaga sobre quem poderá ser o próximo
prefeito de sua cidade. Em pleitos anteriores, as pesquisas eleitorais
serviram como uma bússola razoavelmente segura sobre a corrida
dos candidatos. Nesta eleição, no entanto, a maioria
dos institutos de pesquisa tem trabalhado com margens de erro mais
elevadas do que em pleitos anteriores e, com isso, os resultados
apurados ficaram menos precisos. Há casos de levantamentos
com margens de erro de quase 6 pontos porcentuais sendo aplicados
em capitais de Estado como Macapá, no Amapá, e Rio
Branco, no Acre. "É a campanha mais obscura, com resultados
mais imprevisíveis que acompanho em 25 anos de carreira",
afirma o cientista político Gaudêncio Torquato, professor
aposentado da Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo. Ele acrescenta: "Em campanhas nas quais os
candidatos estão bastante distanciados, não há
muito risco de erro. Mas nas cidades com disputas mais acirradas
podem ocorrer diversas surpresas de última hora".
Estima-se
que na eleição municipal de 2000 o mercado de pesquisas
girava em torno de 30 milhões de reais, ficando a metade
desse bolo com o Ibope, o maior e mais antigo instituto de opinião
pública do país. Neste ano, em condições
normais, adicionando-se apenas a inflação dos últimos
quatro anos, o gasto deveria ficar ao redor de 45 milhões
de reais, mas os profissionais do ramo calculam que o movimento
não passará de 20 milhões de reais. A queda
se deve, em grande parte, ao aperto financeiro dos maiores consumidores
de levantamentos eleitorais os meios de comunicação,
que atravessam uma crise financeira, e os partidos políticos,
que têm encontrado crescentes dificuldades para conseguir
doações. O dinheiro curto resulta em pesquisas menos
precisas. Diminuir a margem de erro é um dos principais custos
dos levantamentos dos institutos de opinião (veja
quadro). "A margem de erro nas pesquisas é uma questão
de custo e benefício", diz Márcia Cavallari, diretora
do Ibope. Por exemplo: um levantamento com margem de erro de 5,6
pontos porcentuais não entrevista mais que 300 eleitores
e custa em torno de 15.000 reais. Por outro lado, uma pesquisa com
margem de erro bem reduzida, de apenas 2 pontos porcentuais, não
se obtém com menos de 1.700 eleitores entrevistados. Um trabalho
assim não sai por menos de 50.000 reais. "Cada cliente tem
de definir se vale a pena gastar mais para ter um número
maior de entrevistas e uma margem mais segura", diz Cavallari.
Além
de mais imprecisas, as pesquisas neste ano também estão
menos freqüentes, o que dificulta a avaliação
de tendência. O instituto Datafolha, por exemplo, em eleições
anteriores, trabalhava exclusivamente para o jornal Folha de
S.Paulo e pesquisava, em média, em vinte cidades
sendo dez capitais de Estado e dez cidades do interior do Estado
de São Paulo. Neste ano, o Datafolha deixou de atuar com
exclusividade para a Folha de S.Paulo e oferece seus serviços
a outros órgãos de imprensa. Em São Paulo,
o instituto focou apenas na capital. "Preferimos trabalhar apenas
na cidade de São Paulo e pesquisar todas as regiões
da capital de modo a garantir uma margem de erro de 2 pontos porcentuais",
explica Mauro Paulino, diretor do Datafolha. No levantamento do
instituto divulgado em 17 de setembro, o tucano José Serra
estava com 37%, à frente da petista Marta Suplicy, com 33%.
Como a margem de erro, nesse caso, é pequena, Serra varia
de 35% a 39% e Marta oscila entre 31% e 35%. Se a pesquisa tivesse
margem de erro superior a 2 pontos porcentuais, seria impossível
até mesmo afirmar quem estaria na liderança da preferência
popular na capital paulista.
Em Maringá,
uma importante cidade do interior do Paraná, o Ibope fechou
no fim de agosto uma pesquisa com margem de erro de 4,9 pontos porcentuais.
O primeiro colocado aparecia com 24% das intenções
de voto, seguido por um candidato com 20%, à frente do terceiro
lugar, com 18%. Na prática, aplicando-se a variação
da margem de erro, o líder da pesquisa poderia estar com
apenas 19,1% das intenções de voto e o terceiro colocado
com 22,9%. Conclusão: a única informação
segura dada pelo levantamento é que a disputa em Maringá
estava enrolada em um tríplice empate. Em Jequié,
município do interior da Bahia, uma pesquisa com margem de
erro de 5 pontos porcentuais mostrava uma aparentemente clara divisão
de duplas de candidatos. Havia uma dupla no pelotão da dianteira,
com 27% e 28% das intenções de voto respectivamente.
E havia outra dupla de candidatos no pelotão de trás,
que patinava respectivamente com 14% e 16%. Mas, na realidade, levando-se
em conta a alta margem de erro, um dos candidatos do pelotão
de trás poderia estar encostado no pelotão da frente.
Em situações assim, faz pouquíssima diferença
ter ou não uma pesquisa à disposição.
A dificuldade
financeira dos partidos políticos também contribuiu
para a penúria das pesquisas. Em eleições anteriores,
o Ibope teve uma fornida clientela entre as legendas. Neste ano,
a situação mudou. No início de 2004, o PT chegou
a encomendar ao Ibope três rodadas de levantamentos em doze
capitais, apenas para consumo interno. Depois disso, o PT contratou
ainda outras três pesquisas na cidade de São Paulo,
para divulgação pública. E, mesmo sendo no
atual momento o partido com o caixa mais gordo, o PT não
fez nenhum outro contrato de monta. No caso da Rede Globo, seu principal
cliente entre os meios de comunicação, o Ibope fechou
contrato para pesquisas com margem de erro inferior a 3,5 pontos
porcentuais em apenas três cidades São Paulo,
Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Nas demais praças, os contratos
com o Ibope foram celebrados pelas retransmissoras da Globo
e, na maioria dos casos, com margem de erro mais elevada que nas
eleições anteriores. Em outros casos, preferiu-se
reduzir o número de pesquisas. É mais um dado de imprecisão.
Os estatísticos informam que, para avaliar com correção
uma tendência de subida ou de descida de um candidato, é
preciso que se faça uma série de três a cinco
levantamentos. Com tão poucas pesquisas na praça,
porém, fica difícil garantir quem está na parte
de cima e quem está na parte de baixo da gangorra eleitoral.
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A
aposta de Gallup
AP
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| Gallup (sentado):
prova de que menos pode ser mais |
Toda
a América riu de George Gallup, o fundador do
instituto de opinião que leva seu nome, quando
ele apostou que poderia acertar o vencedor das eleições
presidenciais de 1936 nos Estados Unidos. À época,
Gallup mantinha uma coluna semanal em diversos jornais
americanos sobre temas como "É indecente mulheres
andarem nas ruas vestindo short?" (em 1939, 63% dos
americanos responderam que sim) ou "É correto
que uma mulher casada trabalhe, se o marido é
capaz de sustentá-la?" ("Não", disseram
em 1938, em plena Depressão, 78% dos entrevistados).
Para chegar a essas conclusões, Gallup atuava
com uma reduzida equipe de pesquisadores. Na sondagem
para as eleições presidenciais, enquanto
a revista Literary Digest (então líder
no campo de pesquisas) trabalhou com um universo de
nada menos que 10 milhões de entrevistados, o
confiante Gallup consultou apenas 3.000 eleitores. Às
vésperas da eleição, o Digest
previa que o republicano Alf Landon ganharia do democrata
Franklin Roosevelt por 57% a 43% dos votos. Gallup disse
que Roosevelt seria o vitorioso e prometeu que, caso
estivesse errado, devolveria aos jornais que publicavam
sua coluna todo o dinheiro que já haviam pago
por ela. Roosevelt foi reeleito com esmagadores 61%
dos votos. Por que Gallup acertou? Simples: o procedimento
do Digest, de buscar seus entrevistados por meio
de listas telefônicas e catálogos de registro
de automóveis, induzia a pesquisa a erro, já
que proprietários de telefones e carros pertenciam
a classes econômicas mais altas naquele
tempo, sabidamente pró-republicanas. Já
Gallup recorreu ao que hoje se chama de consulta por
amostragem: seus pesquisadores saíam com a missão
de ouvir tantas mulheres urbanas de classe média,
tantos homens rurais de classe baixa e assim por diante.
Bingo.
No
Brasil, os dois institutos de opinião mais conhecidos
Ibope e Datafolha utilizam métodos
semelhantes. Para ter resultados que espelhem a opinião
do total da população, selecionam entrevistados
segundo um critério que retrate a realidade da
região investigada. Por exemplo: no Brasil, 29%
da população pertence às classes
A e B; 36% à classe C; e 35% às classes
D e E. Assim, para que o resultado da mostra retrate
o que pensa a população como um todo,
o número de eleitores ouvidos deverá ser
proporcional ao tamanho das classes econômicas
a que pertencem. O Ibope faz pesquisas domiciliares,
e o Datafolha aborda seus entrevistados na rua. Nos
dois casos, a margem de erro faixa possível
de variação do resultado é
maior quanto menor for o universo pesquisado.
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