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Brasil
Uma velha prática
Dentadura,
ambulância e manicure:
não há limite para os políticos que
trocam favores por
votos

Marcelo Carneiro
A
política clientelista, um dos males mais resistentes da democracia
brasileira, parecia restrita a regiões miseráveis
do Nordeste, onde sempre havia um "coronel" comandando com mão-de-ferro
seu eleitorado. Hoje, a prática se mantém nesses rincões
e está presente com força cada vez maior em pólos
desenvolvidos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Nos bolsões
de pobreza das metrópoles, a busca pelo voto virou uma troca
de favores, em tudo semelhante ao modelo implantado pelos coronéis
do interior. A diferença está naquilo que é
trocado. Nos rincões, são oferecidas dentaduras, sandálias
e até redes. No Sul maravilha, os coronéis urbanos
ofertam consultas ginecológicas e cortes de cabelo. A legislação
sobre essa prática é falha. No início de julho,
uma operação de fiscalização do Tribunal
Regional Eleitoral do Rio de Janeiro apreendeu 38 cestas básicas
em Marechal Hermes, no subúrbio da cidade. Junto com as cestas,
foram recolhidos material de propaganda do vereador professor Uoston
(PMDB), candidato à reeleição, e folhetos da
ONG BR XXI, ligada ao ex-governador e secretário de Segurança
Anthony Garotinho, principal liderança do partido no Estado.
Como na data da apreensão o vereador ainda não havia
registrado sua candidatura, escapou ileso.
O paulistano
Wadih Mutran, cinco mandatos consecutivos na Câmara Municipal,
atualmente em busca do sexto, ficou conhecido como o "vereador das
ambulâncias" no bairro de Vila Maria, seu reduto eleitoral.
Já possuiu uma frota, usada no transporte dos moradores para
hospitais da região, mas diz que hoje não presta mais
o serviço. "As ambulâncias agora pertencem à
Transportes Mutran, uma empresa que não tem nada a ver comigo.
Tem muito Mutran por aí", afirma. Mutran é vereador
pelo PP, mas o clientelismo é uma prática suprapartidária.
No Rio, o petista Jorge Babu, em seu primeiro mandato como vereador,
já contabiliza três ambulâncias e dois centros
sociais a serviço dos moradores de Santa Cruz, um dos bairros
mais pobres da cidade. "Os hospitais daqui não têm
ambulância, e a população cobra essas coisas
do vereador. Não é minha culpa se dá voto",
declara Babu.
O clientelismo
"tende a sobreviver e a adaptar-se, em face das estruturas da sociedade",
como definiu o filósofo italiano Norberto Bobbio, em seu
Dicionário de Política. É uma prática
que existe mesmo em democracias avançadas, como os Estados
Unidos.
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