Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Brasil
Uma velha prática

Dentadura, ambulância e manicure:
não há limite para os políticos que
trocam favores por votos


Marcelo Carneiro


A política clientelista, um dos males mais resistentes da democracia brasileira, parecia restrita a regiões miseráveis do Nordeste, onde sempre havia um "coronel" comandando com mão-de-ferro seu eleitorado. Hoje, a prática se mantém nesses rincões e está presente com força cada vez maior em pólos desenvolvidos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Nos bolsões de pobreza das metrópoles, a busca pelo voto virou uma troca de favores, em tudo semelhante ao modelo implantado pelos coronéis do interior. A diferença está naquilo que é trocado. Nos rincões, são oferecidas dentaduras, sandálias e até redes. No Sul maravilha, os coronéis urbanos ofertam consultas ginecológicas e cortes de cabelo. A legislação sobre essa prática é falha. No início de julho, uma operação de fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro apreendeu 38 cestas básicas em Marechal Hermes, no subúrbio da cidade. Junto com as cestas, foram recolhidos material de propaganda do vereador professor Uoston (PMDB), candidato à reeleição, e folhetos da ONG BR XXI, ligada ao ex-governador e secretário de Segurança Anthony Garotinho, principal liderança do partido no Estado. Como na data da apreensão o vereador ainda não havia registrado sua candidatura, escapou ileso.

O paulistano Wadih Mutran, cinco mandatos consecutivos na Câmara Municipal, atualmente em busca do sexto, ficou conhecido como o "vereador das ambulâncias" no bairro de Vila Maria, seu reduto eleitoral. Já possuiu uma frota, usada no transporte dos moradores para hospitais da região, mas diz que hoje não presta mais o serviço. "As ambulâncias agora pertencem à Transportes Mutran, uma empresa que não tem nada a ver comigo. Tem muito Mutran por aí", afirma. Mutran é vereador pelo PP, mas o clientelismo é uma prática suprapartidária. No Rio, o petista Jorge Babu, em seu primeiro mandato como vereador, já contabiliza três ambulâncias e dois centros sociais a serviço dos moradores de Santa Cruz, um dos bairros mais pobres da cidade. "Os hospitais daqui não têm ambulância, e a população cobra essas coisas do vereador. Não é minha culpa se dá voto", declara Babu.

O clientelismo "tende a sobreviver e a adaptar-se, em face das estruturas da sociedade", como definiu o filósofo italiano Norberto Bobbio, em seu Dicionário de Política. É uma prática que existe mesmo em democracias avançadas, como os Estados Unidos.

 
 
 
 
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