Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Brasil
Os aplausos lá fora

Lula faz sucesso no exterior e, até
melhor que FHC, tem sido capaz de
atrair simpatia e dar projeção ao Brasil


Leandra Peres

 
Ricardo Stuckert
AP
Lula, assistindo a Bush na TV em Nova York e discursando na ONU: palco certo para visões grandiosas, mesmo que inaplicáveis


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Notícias diárias sobre o governo Lula

O Brasil responde por uma parcela inferior a 1% do comércio mundial. Sua economia encolheu, deixou de figurar entre as dez maiores do mundo e corresponde a menos de 5% da dos Estados Unidos. O Brasil não faz parte do poderoso clube das potências nucleares. Nunca ganhou um Prêmio Nobel. Sua distribuição de renda é tão ruim quanto a de alguns países da África. Examinado assim, pelo ângulo de suas fraquezas, o Brasil poderia ser considerado um pária mundial – mas, na semana passada, a posição do governo brasileiro de combate à fome e à miséria no mundo apareceu com destaque variável nos principais jornais dos Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Inglaterra... "A repercussão das propostas brasileiras é ampliada pela atuação pessoal do presidente Lula", diz Mário Marconini, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). "No governo anterior, isso já acontecia por causa da figura do presidente Fernando Henrique, que é muito respeitado no cenário internacional. Agora se repete com o presidente Lula, que é muito admirado lá fora", completa ele. Ter presidentes carismáticos e com boa imagem internacional é uma vantagem comparativa de monta para qualquer país. O Brasil pode se dar por satisfeito por ter tido FHC e agora Lula, que, nesse papel, está suplantando seu antecessor.

Na segunda-feira, Lula reuniu representantes de mais de uma centena de países em cúpula mundial para discutir o combate à fome e à miséria em Nova York. Lula foi um dos grandes entusiastas da idéia de fazer o encontro e, na semana passada, presidindo a reunião com martelo na mão, conseguiu o que queria. "Todo mundo achava que não haveria presidente mais habilidoso no cenário externo que Fernando Henrique. Mas Lula conseguiu ir além e teve uma cúpula mundial só para si", diz o cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília. No encerramento do encontro, conseguiu-se difundir uma boa idéia – luta contra a miséria e a fome –, mas ninguém descobriu um meio eficaz de arrecadar até 2015 os 50 bilhões de dólares necessários para o projeto. Aventou-se a possibilidade de taxar as operações financeiras internacionais e cobrar um tributo na venda de armas pesadas. A idéia de um imposto mundial, embora recorrente, não passa de uma quimera. "É pouco provável que uma proposta como essa seja viável. Ela introduz distorções no sistema financeiro e aumenta o custo das transações", diz Sérgio Werlang, diretor executivo do Banco Itaú.

No dia seguinte, Lula fez o discurso de abertura da assembléia da ONU. Como de praxe, reclamou da globalização e do Fundo Monetário Internacional, patacoadas de efeito nulo que a diplomacia brasileira adora colocar na boca dos presidentes em plenários internacionais, e voltou a embrenhar-se na defesa da justiça e da dignidade humana, na luta contra a pobreza e a doença. Nesses assuntos, o discurso de Lula é mais um cardápio de boas intenções que um projeto de ação. Se as propostas eram inexeqüíveis, pelo menos a audiência era perfeita. "Os organismos internacionais funcionam para isso mesmo. Eles são caixas de ressonância. Servem para que temas importantes, independentemente de sua viabilidade imediata, ganhem visibilidade na agenda política internacional", explica Eiiti Sato, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília. Com seu discurso, Lula acabou fazendo um agudo contraponto com o presidente George W. Bush, cujo pronunciamento, mais uma vez, deu ampla ênfase à segurança e ao combate ao terrorismo e tentou convencer a platéia de que a democracia está heroicamente desbravando seu caminho no Iraque e no Afeganistão. O carisma de Lula e sua biografia, cuja trajetória da pobreza no sertão nordestino ao cargo mais poderoso do país costuma impressionar dirigentes estrangeiros, estão entre os grandes responsáveis pela atenção que o Brasil ganha nos fóruns internacionais. O curioso é que a biografia de Lula parecia despertar um interesse que, aos poucos, tendia a minguar. Ocorre que Lula continua despertando interesse lá fora. Em vez de exotismo, ele inspira um genuíno respeito. O presidente ganha com isso. O Brasil, ao projetar-se no cenário internacional, também ganha.

 
 
 
 
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