Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Depois do acordo com o PTB, surge
mais um caso em que o PT é suspeito
de oferecer 500 000 reais a outro partido


Alexandre Oltramari e Otávio Cabral

 
Joedson Alves/AE
O deputado Roberto Jefferson, que diz ter pedido dinheiro a José Genoíno: penúria localizada

O acordo entre PT e PTB revelado por VEJA na semana passada continua sendo um negócio sobre o qual faltam esclarecimentos e sobram contradições. O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, afirma que pediu, sim, ajuda financeira ao PT, mas não foi atendido porque o caixa do partido governista andaria beirando o vermelho. Jefferson afirmou ainda que a penúria do PTB é localizada. "O problema é restrito a Pernambuco", diz. O deputado Roberto Magalhães, o petebista mais bem votado da bancada pernambucana, considerou estranhíssima a afirmação de seu correligionário. "Circunscrever a crise do PTB a Pernambuco é uma manobra maquiavélica", reagiu. Resumindo as explicações dadas na semana passada, tem-se que: o PT não faz acordos que envolvam dinheiro, mas ainda assim o aliado Jefferson se sentiu à vontade para pedir dinheiro ao PT, mesmo com o PTB só tendo problemas de caixa em Pernambuco – o que, na visão de Magalhães, não passaria de maquiavelismo. Difícil de entender? Quase impossível. Em uma entrevista, publicada na página 40, José Genoíno, presidente do PT, dá sua versão do episódio.

A oposição se movimentou para tentar esclarecer o caso. A Justiça Eleitoral recebeu na semana passada três pedidos de investigação sobre a transação entre petistas e petebistas. Um dos pedidos foi assinado pelo PSDB, outro pelo PFL e um terceiro pelo PDT. Até o aliado mas rebelde PPS, em nota conjunta com o PDT, criticou a "intervenção do núcleo central do governo na vida dos partidos políticos" e advertiu que "a força do poder e do dinheiro não pode nunca tomar o lugar do convencimento e da lealdade". O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pela primeira vez desde que deixou o poder, pediu a abertura de uma CPI para investigar o caso. O presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen, que tem feito a oposição mais sistemática ao governo petista no Congresso, promete apresentar o pedido de CPI depois das eleições municipais. "Faltou a eles a indignação dos injustiçados", disse Bornhausen, referindo-se aos mornos desmentidos das autoridades do PT. "Eles só dão respostas evasivas." A falta de verve talvez decorra do fato de que o PT não seja, como quer fazer crer, um partido assim tão diferente dos demais. VEJA obteve na semana passada a transcrição de uma fita que pode ser a evidência de que o PT tenha se envolvido em outras negociações financeiro-eleitorais.

Germano Lurdes
FHC: pela primeira vez, pedindo CPI


A suspeita de que o PT trocou argumentos políticos por moeda sonante em um outro episódio está numa fita cassete que registra uma reunião do PSDC realizada no dia 10 de junho passado, em São Paulo. Na reunião, o presidente do PSDC, José Maria Eymael, que entrou na memória política durante a campanha presidencial quando se apresentou com o jingle "Ei, ei, Eymael, um democrata cristão", conversou com a cúpula de seu partido. Eram nove pessoas sentadas em torno de uma mesa de mármore na sede do PSDC, no bairro paulistano de Pinheiros. Aos presentes, Eymael relatou que o PT queria selar uma aliança com o PSDC na disputa pela prefeitura de Osasco, na região metropolitana de São Paulo. Para efetivar a aliança, o PT se dispunha a engordar o caixa do PSDC. A estratégia era a seguinte: o PT pediria a empresários que têm boa relação com o governo federal para que ajudassem o PSDC parceladamente. "Seria em três parcelas", disse Eymael, conforme se ouve na fita a que VEJA teve acesso. "Uma parcela no início de julho, outra parcela em agosto e outra parcela em setembro."

Um dos presentes ao encontro era o atual candidato do PSDC à prefeitura de São Paulo, João Manuel Baptista, que patina com menos de 1% nas intenções de voto. Na semana passada, João Manuel detalhou a proposta do PT que foi apresentada na reunião. "O Eymael disse que o PT havia feito uma proposta de repassar um valor ao partido em três parcelas. Era em torno de 500.000 reais. As duas primeiras seriam de 150.000 reais e a última de 200.000 reais", disse João Manuel. Na fita gravada na reunião, Eymael conta que a negociação começou com um telefonema do deputado petista João Paulo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, cuja base eleitoral é Osasco. João Paulo pediu a Eymael que recebesse o candidato petista à prefeitura osasquense, Emídio de Souza. O encontro entre Eymael e Emídio de Souza deu-se poucos dias depois. Segundo os psdecistas, o PT teria interesse em impedir que o pré-candidato do PSDC, um tal de Délbio Teruel, surpreendentemente muito bem colocado nas pesquisas, se aliasse aos tucanos. Teruel poderia ser vice na chapa do PT ou lançar candidatura própria – desde que não ficasse ao lado dos tucanos.

Pedro Azevedo/Folha Imagem
João Manuel e Eymael, do PSDC: em três parcelas


A cúpula do PSDC, por 5 votos a 4, decidiu rejeitar a proposta do PT e acabou consumando uma aliança com o PSDB, sabe-se lá em que termos. O petista Emídio de Souza confirma que esteve algumas vezes reunido com Eymael, admite que o contato inicial foi antecedido por uma gestão do deputado João Paulo Cunha, mas nega que a negociação tenha sido em termos pecuniários. "Isso não passou nem perto de acontecer. Nunca tratei de dinheiro com o senhor Eymael", diz. Eymael, por sua vez, afirma que chegou a pedir dinheiro a Emídio de Souza, que "ficou de examinar" mas nunca desembolsou um tostão, e completa: "Na hora de relatar a situação ao meu partido eu exagerei". João Paulo não quis falar sobre o assunto. Em nota enviada a VEJA, disse que não comentaria o assunto "por conter informações mentirosas que só podem ter partido de fontes interessadas em comprometer a vitória do PT em Osasco". Na última pesquisa, o petista Emídio de Souza aparece em segundo lugar na disputa pela prefeitura de Osasco, atrás do tucano e atual prefeito Celso Giglio.

Na semana passada, o deputado João Paulo Cunha, como a maior autoridade petista da Câmara, também teve muito trabalho com a divulgação do acordo entre PT e PTB. Seu telefone tocou inúmeras vezes e, do outro lado da linha, sempre havia uma voz queixosa do PL, do PP ou do PMDB – três aliados do governo petista que, ao tomar conhecimento dos termos abastados do acordo entre PT e PTB, resolveram reivindicar um, digamos assim, tratamento isonômico. "Estão tentando fazer o PTB crescer com anabolizantes, o que não é bom. Além de proibido em qualquer competição, nunca deu certo, porque, além de outros problemas, estraga o fígado", reclamou o senador paraibano Ney Suassuna, do PMDB. Na maré de insatisfação dos aliados, surgiram até repugnantes aleivosias sobre a amizade entre PT e PP, que no ano passado fecharam um acordo pelo qual a maioria da bancada do PP passou a votar com o governo na Câmara. Não se conhece a síntese da plataforma política que uniu PT e PP, mas sabe-se que as negociações, na época capitaneadas pelo assessor Waldomiro Diniz, foram longas e exaustivas – tanto que até hoje o PT precisa lançar mão, todos os meses, de uns 15.000 argumentos para manter o apoio de parte dos deputados do PP.

 

"O acordo é político-eleitoral"

 
Sergio Lima/Folha Imagem
José Genoíno: "Não tratei de dinheiro, cargo ou emenda"

O presidente do PT, José Genoíno, recebeu VEJA na semana passada e negou que tenha havido repasse de dinheiro no acordo do partido governista com o PTB.

O SENHOR DISSE QUE NÃO LIDAVA COM DINHEIRO. ROBERTO JEFFERSON DIZ QUE O PROCUROU PARA PEDIR RECURSOS PARA O PTB. AFINAL, O SENHOR LIDA OU NÃO COM DINHEIRO? Não fizemos acordo financeiro. Fizemos um acordo político-eleitoral, que versou sobre as chapas para prefeito, vereadores, participação nas prefeituras e um pacto de não-agressão. Não trato de dinheiro. Trato de política.

O ACORDO ENVOLVEU EMENDAS DO ORÇAMENTO? Nunca tratei de emenda, cargo ou dinheiro.

QUANDO ROBERTO JEFFERSON O PROCUROU PARA FALAR DE DINHEIRO? Há algumas semanas, ele falou que suas campanhas estavam em dificuldade, citou o Recife e perguntou se o PT tinha condições de ajudar. Eu lhe disse: "Não tem nem para os nossos candidatos".

JEFFERSON DISSE QUE O PEDIDO DE DINHEIRO FOI RESTRITO A PERNAMBUCO. É VERDADE? Olhe, não me lembro de ele ter citado outros lugares.

ELE DISSE QUANTO QUERIA? Não me lembro do número exato.

COMO SE FAZ UM ACORDO 100% POLÍTICO COM O PTB, QUE NÃO TEM TRADIÇÃO IDEOLÓGICA E É CONHECIDO, JUSTA OU INJUSTAMENTE, POR FAZER ACORDOS FINANCEIROS? Não farei apreciação de valor. A base foi política.

O QUE O PT OFERECEU AO PTB? Participação nos governos municipais e coligações para vereador.

POLÍTICOS DO PTB DIZEM QUE O ACORDO ENVOLVE UM MINISTÉRIO E, QUEM SABE, A VICE-PRESIDÊNCIA NA CHAPA DE LULA EM 2006. Jefferson colocou isso. Respondi: "Está registrado. Não vou opinar. 2006 é separado de 2004".

O SENHOR INFORMOU AO PRESIDENTE LULA? Não.

JEFFERSON PEDIU, O SENHOR NÃO ACEITOU E ELE SAIU COM AS MÃOS ABANANDO? Ele sabia que São Paulo era importante para o PT. Decidiu dentro do projeto nacional do PTB.

O PTB PEDIU E NÃO LEVOU. O PTB DEU O QUE O PT QUERIA EM TROCA NO ACORDO? Tire essas palavras "pediu e não levou" porque elas servem para várias coisas. Temos uma chapa proporcional de vereadores. Não discutimos 2006 nem reformas do governo. Essa pretensão do PTB não consta do protocolo de acordo para as eleições municipais.

EXISTE UM PROTOCOLO DE ACORDO? O acerto foi verbal.

O PTB INTERVEIO NO DIRETÓRIO PAULISTANO APENAS PARA COMPOR UMA LISTA DE VEREADORES? Não negociamos outras pretensões.

OS PETEBISTAS DIZEM QUE O PT AJUDARA A ENGROSSAR AS FILEIRAS DO PARTIDO DEPOIS DA ELEIÇÃO. É VERDADE? O PT defende a fidelidade partidária.

Felipe Patury

 

 
 
 
 
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