|
|
Brasil
Os outros quinhentos...
Depois do
acordo com o PTB, surge
mais um caso em que o PT é suspeito
de oferecer 500 000
reais a outro partido

Alexandre Oltramari e
Otávio Cabral
Joedson Alves/AE
 |
| O deputado Roberto
Jefferson,
que diz ter pedido dinheiro a José Genoíno: penúria
localizada |
O acordo
entre PT e PTB revelado por VEJA na semana passada continua sendo
um negócio sobre o qual faltam esclarecimentos e sobram contradições.
O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, afirma que pediu,
sim, ajuda financeira ao PT, mas não foi atendido porque
o caixa do partido governista andaria beirando o vermelho. Jefferson
afirmou ainda que a penúria do PTB é localizada. "O
problema é restrito a Pernambuco", diz. O deputado Roberto
Magalhães, o petebista mais bem votado da bancada pernambucana,
considerou estranhíssima a afirmação de seu
correligionário. "Circunscrever a crise do PTB a Pernambuco
é uma manobra maquiavélica", reagiu. Resumindo as
explicações dadas na semana passada, tem-se que: o
PT não faz acordos que envolvam dinheiro, mas ainda assim
o aliado Jefferson se sentiu à vontade para pedir dinheiro
ao PT, mesmo com o PTB só tendo problemas de caixa em Pernambuco
o que, na visão de Magalhães, não passaria
de maquiavelismo. Difícil de entender? Quase impossível.
Em uma entrevista, publicada na página 40, José Genoíno,
presidente do PT, dá sua versão do episódio.
A oposição
se movimentou para tentar esclarecer o caso. A Justiça Eleitoral
recebeu na semana passada três pedidos de investigação
sobre a transação entre petistas e petebistas. Um
dos pedidos foi assinado pelo PSDB, outro pelo PFL e um terceiro
pelo PDT. Até o aliado mas rebelde PPS, em nota conjunta
com o PDT, criticou a "intervenção do núcleo
central do governo na vida dos partidos políticos" e advertiu
que "a força do poder e do dinheiro não pode nunca
tomar o lugar do convencimento e da lealdade". O ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso, pela primeira vez desde que deixou o poder, pediu
a abertura de uma CPI para investigar o caso. O presidente do PFL,
senador Jorge Bornhausen, que tem feito a oposição
mais sistemática ao governo petista no Congresso, promete
apresentar o pedido de CPI depois das eleições municipais.
"Faltou a eles a indignação dos injustiçados",
disse Bornhausen, referindo-se aos mornos desmentidos das autoridades
do PT. "Eles só dão respostas evasivas." A falta de
verve talvez decorra do fato de que o PT não seja, como quer
fazer crer, um partido assim tão diferente dos demais. VEJA
obteve na semana passada a transcrição de uma fita
que pode ser a evidência de que o PT tenha se envolvido em
outras negociações financeiro-eleitorais.
Germano
Lurdes
 |
| FHC: pela
primeira vez, pedindo CPI |
A suspeita de que o PT trocou argumentos políticos por moeda
sonante em um outro episódio está numa fita cassete
que registra uma reunião do PSDC realizada no dia 10 de junho
passado, em São Paulo. Na reunião, o presidente do
PSDC, José Maria Eymael, que entrou na memória política
durante a campanha presidencial quando se apresentou com o jingle
"Ei, ei, Eymael, um democrata cristão", conversou com a cúpula
de seu partido. Eram nove pessoas sentadas em torno de uma mesa
de mármore na sede do PSDC, no bairro paulistano de Pinheiros.
Aos presentes, Eymael relatou que o PT queria selar uma aliança
com o PSDC na disputa pela prefeitura de Osasco, na região
metropolitana de São Paulo. Para efetivar a aliança,
o PT se dispunha a engordar o caixa do PSDC. A estratégia
era a seguinte: o PT pediria a empresários que têm
boa relação com o governo federal para que ajudassem
o PSDC parceladamente. "Seria em três parcelas", disse Eymael,
conforme se ouve na fita a que VEJA teve acesso. "Uma parcela no
início de julho, outra parcela em agosto e outra parcela
em setembro."
Um dos
presentes ao encontro era o atual candidato do PSDC à prefeitura
de São Paulo, João Manuel Baptista, que patina com
menos de 1% nas intenções de voto. Na semana passada,
João Manuel detalhou a proposta do PT que foi apresentada
na reunião. "O Eymael disse que o PT havia feito uma proposta
de repassar um valor ao partido em três parcelas. Era em torno
de 500.000 reais. As duas primeiras seriam de 150.000 reais e a
última de 200.000 reais", disse João Manuel. Na fita
gravada na reunião, Eymael conta que a negociação
começou com um telefonema do deputado petista João
Paulo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, cuja base
eleitoral é Osasco. João Paulo pediu a Eymael que
recebesse o candidato petista à prefeitura osasquense, Emídio
de Souza. O encontro entre Eymael e Emídio de Souza deu-se
poucos dias depois. Segundo os psdecistas, o PT teria interesse
em impedir que o pré-candidato do PSDC, um tal de Délbio
Teruel, surpreendentemente muito bem colocado nas pesquisas, se
aliasse aos tucanos. Teruel poderia ser vice na chapa do PT ou lançar
candidatura própria desde que não ficasse ao
lado dos tucanos.
Pedro Azevedo/Folha Imagem
 |
| João Manuel e
Eymael, do PSDC: em três parcelas |
A cúpula do PSDC, por 5 votos a 4, decidiu rejeitar a proposta
do PT e acabou consumando uma aliança com o PSDB, sabe-se
lá em que termos. O petista Emídio de Souza confirma
que esteve algumas vezes reunido com Eymael, admite que o contato
inicial foi antecedido por uma gestão do deputado João
Paulo Cunha, mas nega que a negociação tenha sido
em termos pecuniários. "Isso não passou nem perto
de acontecer. Nunca tratei de dinheiro com o senhor Eymael", diz.
Eymael, por sua vez, afirma que chegou a pedir dinheiro a Emídio
de Souza, que "ficou de examinar" mas nunca desembolsou um tostão,
e completa: "Na hora de relatar a situação ao meu
partido eu exagerei". João Paulo não quis falar sobre
o assunto. Em nota enviada a VEJA, disse que não comentaria
o assunto "por conter informações mentirosas que só
podem ter partido de fontes interessadas em comprometer a vitória
do PT em Osasco". Na última pesquisa, o petista Emídio
de Souza aparece em segundo lugar na disputa pela prefeitura de
Osasco, atrás do tucano e atual prefeito Celso Giglio.
Na semana
passada, o deputado João Paulo Cunha, como a maior autoridade
petista da Câmara, também teve muito trabalho com a
divulgação do acordo entre PT e PTB. Seu telefone
tocou inúmeras vezes e, do outro lado da linha, sempre havia
uma voz queixosa do PL, do PP ou do PMDB três aliados
do governo petista que, ao tomar conhecimento dos termos abastados
do acordo entre PT e PTB, resolveram reivindicar um, digamos assim,
tratamento isonômico. "Estão tentando fazer o PTB crescer
com anabolizantes, o que não é bom. Além de
proibido em qualquer competição, nunca deu certo,
porque, além de outros problemas, estraga o fígado",
reclamou o senador paraibano Ney Suassuna, do PMDB. Na maré
de insatisfação dos aliados, surgiram até repugnantes
aleivosias sobre a amizade entre PT e PP, que no ano passado fecharam
um acordo pelo qual a maioria da bancada do PP passou a votar com
o governo na Câmara. Não se conhece a síntese
da plataforma política que uniu PT e PP, mas sabe-se que
as negociações, na época capitaneadas pelo
assessor Waldomiro Diniz, foram longas e exaustivas tanto
que até hoje o PT precisa lançar mão, todos
os meses, de uns 15.000 argumentos para manter o apoio de parte
dos deputados do PP.
|
"O
acordo é político-eleitoral"
Sergio Lima/Folha Imagem
 |
| José
Genoíno: "Não
tratei de dinheiro, cargo ou emenda" |
O
presidente do PT, José Genoíno, recebeu
VEJA na semana passada e negou que tenha havido repasse
de dinheiro no acordo do partido governista com o PTB.
O SENHOR DISSE QUE NÃO LIDAVA COM DINHEIRO.
ROBERTO JEFFERSON DIZ QUE O PROCUROU PARA PEDIR RECURSOS
PARA O PTB. AFINAL, O SENHOR LIDA OU NÃO COM
DINHEIRO? Não fizemos acordo financeiro.
Fizemos um acordo político-eleitoral, que versou
sobre as chapas para prefeito, vereadores, participação
nas prefeituras e um pacto de não-agressão.
Não trato de dinheiro. Trato de política.
O
ACORDO ENVOLVEU EMENDAS DO ORÇAMENTO? Nunca
tratei de emenda, cargo ou dinheiro.
QUANDO ROBERTO JEFFERSON O PROCUROU PARA FALAR DE
DINHEIRO? Há algumas semanas, ele falou que
suas campanhas estavam em dificuldade, citou o Recife
e perguntou se o PT tinha condições de
ajudar. Eu lhe disse: "Não tem nem para os nossos
candidatos".
JEFFERSON DISSE QUE O PEDIDO DE DINHEIRO FOI RESTRITO
A PERNAMBUCO. É VERDADE? Olhe, não
me lembro de ele ter citado outros lugares.
ELE DISSE QUANTO QUERIA? Não me lembro
do número exato.
COMO SE FAZ UM ACORDO 100% POLÍTICO COM O
PTB, QUE NÃO TEM TRADIÇÃO IDEOLÓGICA
E É CONHECIDO, JUSTA OU INJUSTAMENTE, POR FAZER
ACORDOS FINANCEIROS? Não farei apreciação
de valor. A base foi política.
O QUE O PT OFERECEU AO PTB? Participação
nos governos municipais e coligações para
vereador.
POLÍTICOS DO PTB DIZEM QUE O ACORDO ENVOLVE
UM MINISTÉRIO E, QUEM SABE, A VICE-PRESIDÊNCIA
NA CHAPA DE LULA EM 2006. Jefferson colocou isso.
Respondi: "Está registrado. Não vou opinar.
2006 é separado de 2004".
O SENHOR INFORMOU AO PRESIDENTE LULA? Não.
JEFFERSON PEDIU, O SENHOR NÃO ACEITOU E ELE
SAIU COM AS MÃOS ABANANDO? Ele sabia que
São Paulo era importante para o PT. Decidiu dentro
do projeto nacional do PTB.
O PTB PEDIU E NÃO LEVOU. O PTB DEU O QUE O
PT QUERIA EM TROCA NO ACORDO? Tire essas palavras
"pediu e não levou" porque elas servem para várias
coisas. Temos uma chapa proporcional de vereadores.
Não discutimos 2006 nem reformas do governo.
Essa pretensão do PTB não consta do protocolo
de acordo para as eleições municipais.
EXISTE UM PROTOCOLO DE ACORDO? O acerto foi verbal.
O PTB INTERVEIO NO DIRETÓRIO PAULISTANO APENAS
PARA COMPOR UMA LISTA DE VEREADORES? Não
negociamos outras pretensões.
OS PETEBISTAS DIZEM QUE O PT AJUDARA A ENGROSSAR
AS FILEIRAS DO PARTIDO DEPOIS DA ELEIÇÃO.
É VERDADE? O PT defende a fidelidade partidária.
Felipe Patury
|
|
|