Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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André Petry
Deus, maconha e gays

"Na outra muleta de sua plataforma,
Garotinho difunde o preconceito contra
os homossexuais, aparentemente seres
humanos depravadamente anticristãos"

A barafunda do título acima, em que se mistura religião com drogas e homossexualismo, é uma autêntica obra do ex-governador Anthony Garotinho, sem dúvida o político populista mais bem-sucedido de sua geração. Ao falar de um palanque eleitoral para uma platéia de carentes na periferia de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, Garotinho combateu seu adversário político parindo a seguinte preciosidade: "Eu nem gosto de comentar essas coisas, mas vocês deviam saber", começou Garotinho, comentando essas coisas em público. "Esse rapaz defende a legalização da maconha e o casamento de pessoas do mesmo sexo", continuou, referindo-se ao rapaz Lindbergh Farias, o candidato do PT à prefeitura de Nova Iguaçu. "E isso não é coisa que cristão apóie", arrematou. Com seu discurso, que em nada se parece com o pronunciamento de um político, mas em tudo se assemelha às intrigas de um alcoviteiro, Garotinho quer ganhar a eleição na cidade fluminense com base numa lamentável plataforma: confundir conceitos e difundir preconceitos.

A confusão de conceitos: o debate em torno da legalização das drogas, seja a maconha, seja qualquer outro entorpecente, é um problema de criminalidade e saúde pública. A clandestinidade das drogas gera as quadrilhas de traficantes, que por sua vez produzem o furacão de violência que as metrópoles brasileiras, o Rio de Janeiro em especial, conhecem tão bem. Em torno da maconha há um interminável debate sobre a dependência química e psicológica – e aí se entra na questão de saúde pública. A discussão a respeito da união civil entre pessoas do mesmo sexo é algo inteiramente diferente. Ser homossexual não é crime, não gera criminalidade e não é um problema de saúde pública. Ao produzir a confusão de conceitos – primeiro, misturando sexo com drogas, e depois misturando política, que é um assunto universal e público, com religião, que é um tema da esfera individual e privada –, Garotinho migra diretamente para a outra muleta de sua plataforma: a difusão do preconceito contra os homossexuais, aparentemente considerados aí uma categoria de seres humanos depravadamente anticristãos.

Talvez tudo isso renda votos. Com certeza, também rende atraso, ódio, desinformação – coisas que podem até ser convenientes para um populista, na medida em que criam um pântano de votos fáceis, mas que não ajudam a construir um país. Uma pesquisa recente, elaborada pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ouviu mais de 4.600 jovens entre 18 e 24 anos em três capitais: Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador. O resultado mostra que os homens são altamente intolerantes em relação à homossexualidade masculina. De acordo com a pesquisa, 49% deles acham que os gays ou são "doentes" ou "não têm vergonha". É um sinal eloqüente de que falta informação e sobra preconceito. Com a contribuição dos discursos políticos de Garotinho, talvez esses jovens também passem a pensar que, além de tudo, os gays são do diabo.

 
 
 
 
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