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André
Petry
Deus, maconha e gays
"Na outra
muleta de sua plataforma,
Garotinho difunde o preconceito contra
os homossexuais, aparentemente seres
humanos depravadamente anticristãos"
A barafunda
do título acima, em que se mistura religião com drogas
e homossexualismo, é uma autêntica obra do ex-governador
Anthony Garotinho, sem dúvida o político populista
mais bem-sucedido de sua geração. Ao falar de um palanque
eleitoral para uma platéia de carentes na periferia de Nova
Iguaçu, no Rio de Janeiro, Garotinho combateu seu adversário
político parindo a seguinte preciosidade: "Eu nem gosto de
comentar essas coisas, mas vocês deviam saber", começou
Garotinho, comentando essas coisas em público. "Esse rapaz
defende a legalização da maconha e o casamento de
pessoas do mesmo sexo", continuou, referindo-se ao rapaz Lindbergh
Farias, o candidato do PT à prefeitura de Nova Iguaçu.
"E isso não é coisa que cristão apóie",
arrematou. Com seu discurso, que em nada se parece com o pronunciamento
de um político, mas em tudo se assemelha às intrigas
de um alcoviteiro, Garotinho quer ganhar a eleição
na cidade fluminense com base numa lamentável plataforma:
confundir conceitos e difundir preconceitos.
A confusão
de conceitos: o debate em torno da legalização das
drogas, seja a maconha, seja qualquer outro entorpecente, é
um problema de criminalidade e saúde pública. A clandestinidade
das drogas gera as quadrilhas de traficantes, que por sua vez produzem
o furacão de violência que as metrópoles brasileiras,
o Rio de Janeiro em especial, conhecem tão bem. Em torno
da maconha há um interminável debate sobre a dependência
química e psicológica e aí se entra
na questão de saúde pública. A discussão
a respeito da união civil entre pessoas do mesmo sexo é
algo inteiramente diferente. Ser homossexual não é
crime, não gera criminalidade e não é um problema
de saúde pública. Ao produzir a confusão de
conceitos primeiro, misturando sexo com drogas, e depois
misturando política, que é um assunto universal e
público, com religião, que é um tema da esfera
individual e privada , Garotinho migra diretamente para a
outra muleta de sua plataforma: a difusão do preconceito
contra os homossexuais, aparentemente considerados aí uma
categoria de seres humanos depravadamente anticristãos.
Talvez
tudo isso renda votos. Com certeza, também rende atraso,
ódio, desinformação coisas que podem
até ser convenientes para um populista, na medida em que
criam um pântano de votos fáceis, mas que não
ajudam a construir um país. Uma pesquisa recente, elaborada
pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro, ouviu mais de 4.600 jovens entre 18 e 24 anos em três
capitais: Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador. O resultado mostra
que os homens são altamente intolerantes em relação
à homossexualidade masculina. De acordo com a pesquisa, 49%
deles acham que os gays ou são "doentes" ou "não têm
vergonha". É um sinal eloqüente de que falta informação
e sobra preconceito. Com a contribuição dos discursos
políticos de Garotinho, talvez esses jovens também
passem a pensar que, além de tudo, os gays são do
diabo.
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