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O sagrado, de um
milênio a outro
A
devoção à princesa Diana lembra os tempos
em que os reis eram cultuados como santos
Entre o rei
Roberto, o Piedoso, que ocupou o trono da França entre
os anos de 996 e 1031, e a princesa Diana de Gales,
principal estrela da corte britânica desde seu casamento
com o príncipe herdeiro até a morte, há 1.000 anos de
distância. É muito. O mundo é outro, as mentes são
outras. O bicho homem do ano 1000 é tão diferente do
bicho homem das vésperas do ano 2000 que é quase outro
bicho, e a paisagem é tão diversa que é como se
estivéssemos em outro planeta. No entanto, a quem passa
pelas proximidades da Ponte de L'Alma, em Paris, onde
Diana morreu, quase um ano atrás, pode ocorrer que
alguma semelhança subsiste, entre o tempo de Diana
o nosso tempo e o do rei Roberto.
Roberto, o Piedoso
era um rei taumaturgo. Curava, fazia milagres.
Atribuíam-se aos reis, em geral, poderes semelhantes aos
dos santos. Não eram eles titulares de um direito que
lhes vinha de Deus? Não eram, além do mais, ungidos por
óleos santos no momento de sua sagração? Uma vez,
enquanto Roberto lavava as mãos, um cego aproximou-se e
pediu que lhe jogasse água no rosto. O rei fez-lhe a
vontade e... maravilha! O cego viu!
Diana, ao que se
saiba, não curou ninguém, mas não poucos, à sua
passagem, ansiariam por seu toque, como se fosse uma
princesa taumaturga. Não poucos se sentiriam premiados
com uma fagulha que fosse de seu olhar. E, mais ainda
depois de sua morte trágica, passou a compartilhar com o
distante colega de sangue azul do ano 1000 o fato de ser
percebida como ungida pelo sagrado. Na Ponte de L'Alma, o
pequeno canteiro que sobra entre o início do túnel no
qual ela mergulhou para a morte e a pista ao lado está
sempre tomado por maços de flores, retratos seus
arrancados de revistas, inscrições dizendo que viverá
para sempre. É como se fosse um lugar santo.
Nesse cantinho
tosco da malha viária parisiense, cercado de carros que
circulam por todo lado, revela-se um dos aspectos da
virada de milênio que nos é dado viver. Se fosse na
virada de milênio anterior, a dos tempos de Roberto, o
Piedoso, muito possivelmente se iria além. Nasceria uma
fonte, naquele lugar, como acontecia no ponto onde
morriam as virgens martirizadas, depois se construiria
uma capela e com o tempo, não dando a capela mais conta
da afluência de peregrinos, se construiria uma igreja.
Não se chegará a tanto, hoje, inclusive porque
construir uma igreja ali atrapalharia a circulação de
veículos, e sabe-se o que a circulação de veículos
representa em nosso tempo, mas peregrinações, isso,
há. Tanto a Ponte de L'Alma como a porta do Hotel Ritz,
de onde Diana e o namorado dispararam para o acidente
mortal, são objeto de visita de devotos. Em Londres, há
roteiros organizados aos lugares que fizeram parte da
vida de Diana, como o Palácio de Kensington, onde
morava, e mesmo a academia onde fazia ginástica.
O culto às
relíquias é outro ponto comum entre os tempos de Diana
e os do rei Roberto. O livro O Ano Mil, do
historiador francês Georges Duby, no qual nos estamos
baseando para voltar à virada de milênio que precedeu a
nossa, contém exemplos marcantes das proezas de que as
relíquias eram capazes. No dia em que as relíquias de
São Marcial saíram em procissão na cidade de Limoges,
o tempo se abriu e cessaram as inundações que durante
muito tempo haviam castigado a região. Uma vez, em
Angoulême, ali perto, os monges que transportavam as
relíquias de santo Cybard atravessaram um rio, a pé,
sem se molhar. Multidões acorriam aos santuários
depositários das relíquias. Um dia, na quaresma, foi
tal o povo em torno das relíquias de São Marcial que,
num momento de pânico, cinqüenta pessoas morreram
pisoteadas. O túmulo de Diana é reverenciado, 1.000
anos depois, como se contivesse uma relíquia. Um museu
foi recentemente inaugurado pelo irmão da princesa, com
objetos que pertenceram a ela.
Se Diana deixou
esse legado é porque, a seu modo, ou melhor dito, ao nosso
modo ao modo do nosso tempo , virou
santa. As autoridades da Igreja Anglicana até já
alertaram contra a santificação da princesa, tanto mais
incômoda quanto se dá à margem dos devidos processos.
É uma canonização selvagem, digamos. Uma canonização
não religiosa, e com isso chegamos à diferença crucial
entre o bicho homem do ano 1000 e o bicho homem do ano
2000. O do ano 1000 acreditava em prodígios. Acreditava
numa ordem cósmica onde cabiam prêmios e castigos do
céu, milagres, estrelas que prenunciavam alegrias e
cometas que traziam desgraças. O do ano 2000, fruto de
uma era racionalista, não acredita em prodígios. Mas
como, ao que tudo indica, carece deles, cria pessoas
prodigiosas. Cabe à mídia o papel que outrora foi da
Igreja de magnetizar o público em torno delas.
Fundamental, para a pessoa prodigiosa de hoje em dia, é
ser sagrada pela mídia, como outrora, para a sagração
dos reis, eram fundamentais os óleos santos. Aconteceu
isso com Diana. Por isso, embora (por enquanto) sem fazer
milagres, é o equivalente de nossa época do piedoso rei
Roberto, e um ponto que nos aproxima dos distantes tempos
da última passagem de milênio.

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