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Muito esperto
Autor
inglês faz casamento entre o erudito e o vulgar
Alain de Botton, suíço radicado na
Inglaterra, inventou uma fórmula. Consiste em
transformar os temas mais intrincados em simples guias de
auto-ajuda. A coisa é bem-humorada, claro. Brilhante,
irreverente, original. Trata-se, porém, de uma fórmula.
E fórmulas, em literatura, sempre têm algo de suspeito.
Algo que cheira a esperteza. Em seu último livro,
publicado no ano passado, Alain de Botton divertia-se
apresentando a obra de Proust como se fosse um manancial
de sabedoria popular, um prático guia que ensinava as
regras para amar a vida ou para sofrer com sucesso. Em
1994, ele já havia feito uma manobra idêntica em O
Movimento Romântico (Editora Rocco; tradução
de Eneida Santos; 320 páginas; 28 reais), que acaba de
sair no Brasil. O tema, aqui, é o amor. Alain de Botton
aplica Kafka, Goethe, Rousseau e vários outros autores
à mais prosaica historieta sentimental, misturando
despudoradamente o erudito com o vulgar.
A romântica Alice
está à procura do homem de seus sonhos. Quando conhece
Eric, esse sonho parece realizar-se. Engana-se. Eric é
muito diferente do que ela havia imaginado. Depois de
algum tempo juntos, abandona-o. Conhece Philip. Philip,
sim, é seu tipo ideal. Fim. A trama é só isso: sem
surpresas, propositalmente insignificante, banal. O que
interessa, para Alain de Botton, não é o caso de amor
em si, mas seu recheio, seu contorno de referências.
Para justificar o temperamento contraditório de Eric,
ele cita o gosto de Trotsky por carne de caça e filé
malpassado. Para demonstrar a incapacidade de Alice de
enfrentar problemas, ele a compara ao filósofo Arthur
Schopenhauer, que sempre evitou escrever a respeito de
sua mãe, a única mulher que realmente o perturbava.
Prazer
feminino A referência central de O
Movimento Romântico, porém, é Flaubert. Com um
desembaraço desarmante, Alain de Botton estabelece
analogias entre sua heroína Alice e Madame Bovary. Ambas
consideram que a realidade é representada pelo
sentimento de amor por um homem. Madame Bovary lia
romances populares, açucarados. Alice, uma sonhadora
moderna, lê o equivalente contemporâneo dos romances
populares: as revistas ilustradas. Madame Bovary e Alice
adoram fazer compras. A esse propósito, num dos melhores
achados do livro, Alain de Botton nota que a tentativa de
proibir o romance de Flaubert, à época do lançamento,
coincidiu quase perfeitamente com a publicação de O
Capital, de Karl Marx. Ele observa a estreita
correlação que havia entre o ataque moral à compra do
supérfluo e o ataque moral à cópula sem fins
reprodutivos, numa dupla censura ao prazer feminino.
Alain de Botton
não usa apenas referências cultas. Qualquer fator pode
ajudá-lo a descrever o caso entre Alice e Eric. A
decoração de suas casas, por exemplo, revela os
diferentes sistemas de valores de cada um. Esse
cruzamento entre alta cultura e os mais reles elementos
do cotidiano garante o sucesso de Alain de Botton. Mas
por trás da aparente fachada de sacrilégio, do leve
espírito transgressivo, percebe-se um moço
bem-comportado, reverente. E muito esperto.
Diogo
Mainardi

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