Jogo de armar

Como a genética pode se tornar um brinquedo perigoso

No grande clássico da literatura gótica Frankenstein, a escritora inglesa Mary Shelley conta a história de um cientista que se julgava capaz de imitar o Divino, dando vida à sua "criatura", um horrendo monstro construído com partes de vários cadáveres. Conhecemos o resto da história: a criatura provoca terror na população, rebela-se contra seu criador e acaba por destruí-lo. O cientista foi além do que deveria, desvendando um mistério que não é província dos homens. A moral é clara: existem coisas que não pertencem ao domínio dos humanos. Será?

Em seu livro O Rato, a Mosca e o Homem (tradução de Maria de Macedo Soares Guimarães; Companhia das Letras; 156 páginas; 20 reais), o geneticista francês François Jacob aborda continuamente esse tema ao recontar, de forma clara e quase sempre acessível, a história da genética. Jacob dividiu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia com Jacques Monod e André Lwoff em 1965, por suas descobertas sobre a estrutura genética e reprodução das bactérias. Para ele, o aspecto mais sensacional da genética moderna é a unificação que ela traz aos seres vivos. Todos os animais são produto de uma mesma estrutura, representada por grupos de genes que reaparecem em praticamente todas as espécies. As diferenças óbvias entre, por exemplo, o rato, a mosca e o homem são devidas a processos de diferenciação que ocorrem durante o desenvolvimento do embrião, controlados por reações químicas. Somos todos produtos de um "jogo de armar", como o popular Lego. As mesmas peças podem criar um número enorme de combinações.

A engenharia genética, que engloba as técnicas de manipulação da estrutura genética dos seres vivos, é produto dessa nova biologia. Ela traz consigo benefícios para a humanidade, desde vacas que produzem mais leite e tomates gigantes até a possibilidade de uma medicina capaz de curar vários tipos de câncer. Mas ela também traz o medo da criação de "monstros". O mito se torna realidade. Será que as pesquisas genéticas devem ser proibidas? Jacob defende, de modo apaixonado e às vezes empolgante, a liberdade do cientista. Por outro lado, argumenta que o cientista tem uma enorme responsabilidade social e moral. Ele tem o dever de informar a sociedade sobre suas descobertas e de suas conseqüências e perigos. Caso contrário, sua criação poderá destruí-lo, como em Frankenstein.

Marcelo Gleiser




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